OPINIÃO

Por mais expectativas

“Não crie expectativas”, disse-me um amigo em conversa inbox no facebook durante mais um bloqueio de whatsapp determinado pela Justiça, há alguns anos, logo após eu ter lhe revelado que estava feliz por ter conhecido alguém interessante naqueles dias. Achei engraçado, porque era o tipo de frase que eu diria pra ele também, e já me vi dizendo a diversos amigos que se entregam desmedidamente às possibilidades do amor.

“Mas quando é com a gente, não tem isso! Sempre criamos expectativas…Faz parte da coisa de estar viva”, confessei, em contradição ao que até então eu sustentava e, pelo jeito, só servia para os outros. A verdade é que, a não ser que se espere morrer no dia seguinte (o que também não deixa de ser uma expectativa) vivemos a partir de nossas expectativas.

Engana-se quem diz que não tem expectativa alguma quando está à beira de um relacionamento qualquer indefinido e incipiente, pois mesmo os adeptos do amor livre esperam, ao menos, a tal liberdade do outro (ou dos outros), além da sua.

O próprio desespero geral vivido enquanto perdura a impossibilidade de receber, enviar ou visualizar mensagens pelo whatsapp é a prova do quanto somos viciados em criar expectativas. Aguardar aqueles dois “vezinhos” ficarem azuis ou morrer de ansiedade ao ver que alguém está digitando algo equivale àquela velha espera por um telefonema, sentada com pernas cruzadas e pezinhos balançando, prática que talvez se torne mais comum em tempos de bloqueios arbitrários dos nossos sentimentos tão imperfeitamente expressos através dos emoticons.

E o que há de errado em ter expectativas? Em alguns casos, elas são a melhor parte da história toda, que pode inclusive não dar em nada, diga-se de passagem. Mas enquanto não sabemos o que virá adiante, podemos rir do vento imaginando “o que será que será?”, envolvida e tomada pelas mais incríveis expectativas que o Chico Buarque faz nascer na gente, cantando aqueles versos.

E o medo, onde coloco? Escondo ali, junto das horas contadas no relógio, logo depois de ver o sol nascer, perto daquela garrafa de vinho que acalmou um coração partido… e que, amanhã, terá novas e incríveis expectativas…

E mesmo que essa história que lhes conto nunca tenha sido nada além de expectativas, hoje vivo de saudades dessas pequenas vontades, ainda que frustradas, porque são elas que nos movem e dão fôlego à deliciosa ilusão da vida.

Por isso é que prefiro ter expectativa (e vivê-la intensamente) do que ter medo (e morrer sem ter vivido)…

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *