CIDADANIA

Por onde anda o morador de rua que foi 2º lugar no Enem de 2017 na UFRN?

Talvez você não o reconheça pelo nome de Mário Batista da Cruz Júnior. Mas, se eu disser que ele é o morador de rua que foi aprovado em segundo lugar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) do ano de 2017 talvez, carxs leitorxs, vocês consigam ligar o nome à figura. Mário estava morando nas ruas de Parnamirim e tinha 34 anos quando foi aprovado para o curso de Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A trajetória tão fora da curva chamou a atenção até da imprensa nacional e Mário esteve nas capas e manchetes dos principais jornais do país.

Mas, apesar do feito, ele acabou não dando continuidade à faculdade e parou o curso no terceiro período. Atualmente, Mário trabalha vendendo balas nos ônibus de Natal. Como não consegue pagar por um aluguel com o pouco que ganha, ele tem abrigo garantido na casa de Cida, a mulher que como nós mostramos em reportagem anterior aqui da Agência Saiba Mais, decidiu abrir as portas de casa para receber moradores de rua no centro da cidade.

Eu me abestalhei, fiquei deslumbrado com aquilo porque coisas que não faziam parte da minha vida, passaram a fazer assim [faz sinal de estalar de dedos]. Ninguém chama um morador de rua pra ir à sua casa e de repente passei a ter N convites. Pra você ter uma noção, eu passei a ter uma secretária! Já viu morador de rua com assistente de imprensa?!”, conta Mário, bem humorado.

 

Três diferentes veículos de comunicação trazem reportagem com aprovação de Mário na UFRN no ano de 2017

Os eventos aos quais chegou a ser convidado na época de sua histórica aprovação, iam desde a promoção de escolas particulares até promoção de lojas de roupas.

Veja como as coisas eram, eu recebia duas ou três pareias de roupa, eles batiam fotos, ganhavam muitas curtidas e eu ficava com as peças. Pra mim era legal, mas eles estavam ganhando muito mais. Eu percebia isso, mas ao mesmo tempo permitia porque estava gostando daquela coisa de estrela, era uma massagem no ego”, admite Mário que, apesar de ter abandonado o curso, não desistiu de concluir o ensino superior.

Como tudo começou

“Padre Murilo, de Parnamirim, foi uma pessoa muito importante nesse processo. Eu não estava bem e ele sentava no papelão, mesmo eu estando sujo, bêbado ou às vezes drogado, ele sentava e trocava ideia, perguntava o que pensava da vida e deixava a pessoa falar. Ele dizia: ‘Mário, você é um rapaz inteligente, mude sua história, você tem capacidade pra isso. Conclua pelo menos seu ensino médio. Faça a prova do Enem, porque você pode, pelo menos, ter o certificado de Ensino Médio’”, conta Mário que, na época, tinha parado os estudos no 1º ano.

“Ele disse: ‘o não você já tem. Tente o talvez, é melhor do que o não’. Eu não tive como refutar esse argumento. Eu não estudei muito, mas tive ajuda de algumas pessoas para a parte de física, matemática…a parte das fórmulas. Digo que não estudei, mas sempre gostei muito de ler, leio pelo menos de dois a três livros por mês, num ritmo de muitos anos e isso faz uma diferença muito grande quando você faz para uma prova do Enem, que é gigante! Se você já tem o costume, já passa muita gente que perde a concentração pelo cansaço”, analisa.

Apesar de já ter morado na rua e ter residência fixa na casa de Cida, Mário, como a maioria de nós, Mário cresceu numa família “comum”. Ele conta que foram os traumas familiares que acabaram o levando a sair de casa, mesmo sem condições para isso.

Fui abusado pela minha mãe física e psicologicamente. Eu apanhei muito mesmo, esse é um assunto que até hoje não é bem trabalhado na minha cabeça. Aos 11 anos fui ao psicólogo e detectaram que eu tinha um coeficiente intelectual bem acima da média, na época deu 156, e um transtorno psiquiátrico chamado borderline, que é bem complicado, barra pesada. O borderline também é uma das razões para minha vida conturbada porque sem o tratamento adequado, que eu não sei, ele só piora. Meus pais me lavaram ao médico porque eu tinha muitas marcas de espancamento e a escola notou. Eles obrigaram meus pais a me levar ao médico sob ameaça de chamar o Conselho Tutelar. No início até me levaram, mas depois abandonavam o tratamento e as surras continuaram, só que ao invés de apanhar no corpo todo, eles passaram a me bater só na palma da mão e na sola dos pés pra não deixar marca. O nome disso é tortura”, relata Mário.

Hoje, ele até sabe onde os pais moram, mas não mantém contato com eles.

Eu me tornei uma pessoa bem difícil. Fui criado para ser uma versão melhorada do meu pai, não para ser eu. Eu não me encaixava. As pessoas têm um pré-conceito, um conceito antes da informação, a respeito de quem vive na rua. Acham que é porque usa droga ou bebe. Não, a maioria são pessoas que vêm de uma família extremamente desestruturada ou por problema psiquiátrico. Nos dois casos, muitas vezes, a pessoa acaba buscando o álcool ou a droga como uma fuga, uma muleta, relata Mário, que saiu de casa pela primeira vez aos 16 anos.

Tenho uma coisa a dizer sobre isso [morar na rua]. Sabe que tem pessoas que têm vocação para morar na rua? A primeira vez fiquei assustado, a segunda já fui perdendo o medo, tanto que depois saí de Natal sem dinheiro, sem família, sem conhecer ninguém e rodei todas as capitais do Nordeste”, acrescenta.

A saída da faculdade

Por causa dos problemas de saúde, Mário era um dos atendidos pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) e, apesar de morar na rua, não teve acesso à residência universitária.

Se eu estivesse na residência estaria com as três refeições, um computador com acesso à internet e seria prioritário para a bolsa de auxílio técnico, que é trabalhar meio período em algum lugar dentro da UFRN e ganhar por volta de R$ 400. Num período a pessoa está em sala, no outro trabalha para a bolsa e no outro estuda e dorme. Era isso que eu gostaria que tivesse funcionado. A UFRN me deu o almoço todo dia no RU [Restaurante Universitário] e R$ 100 de auxílio para passagem, só que esse valor entrou como um benefício federal e o BPC também é um benefício federal, os dois se chocaram. Ao invés de retirar benefício de R$ 100, retiraram o benefício que era de um salário mínimo. Quando isso aconteceu, eu já estava mal psicologicamente porque, sendo sincero, achei que quando isso aconteceu [a aprovação da universidade], minha vida ia passar da água para o vinho, do dia para a noite. Eu gerei essa ilusão para mim mesmo, achando que minha vida ia mudar num passe de mágica, mas não é assim que as coisas funcionam. Por isso que digo que fiquei deslumbrado, eu devia ter aproveitado essas pessoas que chegaram até mim e meio que se aproveitaram da minha imagem, para me darem uma ajuda mais consistentes, tipo um emprego. Teve um cara que me deu um Chanel nº 5, que se você for ver na loja, custa quase mil reais. Peraí, o cara que pode fazer isso, dar um perfume desse pra um morador de rua, por que não paga dois ou três meses de um aluguel? Ou então me ajudar a segurar a onda até as coisas de estabilizarem”, avalia Mário, que na época em que cursou a faculdade, ele conta que conta que chegou a morar de aluguel por causa de vaquinhas feitas por cerca de 20 a 30 amigos e conhecidos.

Na rotina da universidade, todo dia eu tinha dois horários de uma cadeira e mais dois de outra. Quando termina, o professor diz: “Eu postei no Siagaa os capítulos tal, tal e tal, de tal livro, além de uns vídeos. Vejam e leiam os capítulos porque vão cair nas avaliações”. Eu não tinha celular e dependia de estar dentro dos laboratórios para ter acesso a isso ou teria que imprimir esse material. Só dia, só de impressão se gasta uns R$ 7, fora a passagem de ônibus, a comida. Então, eu tinha que trabalhar. Eu achei que quando isso acontecesse, minha família chegaria junto e eu conseguiria reatar a relação com minha ex-esposa, o que também não aconteceu. Depois de tudo, ainda cortaram meu BPC, aí eu olhei pros lados e não quis saber de mais nada. Chutei o pau da barraca”, desabafa.

Vamos falar das principais instituições que formam a sociedade: família, religião e o estado. No caso da família, fui abusado pela minha mãe minha infância inteira e, atualmente, meu pai está casado com minha ex-mulher mãe do meu filho mais velho. Ela virou minha madrasta e meu filho, meu irmão. Na religião, fui sumariamente expulso da igreja quando tinha 15 anos de idade. Subiram no púlpito e disseram: a partir de hoje, Mário Batista da Cruz Jr não é uma boa associação para nós, nem para nossos filhos porque uma fruta podre estraga todo o cesto e um pouco de fermento leveda toda a massa, devemos evitar associação com tal pessoa porque má associação estraga hábitos úteis. Sinistro. A religião também não me abraçou. E o Estado? Passei em segundo lugar numa universidade federal! A razão de ser do governo, que é investir em educação, ainda mais superior porque o que leva um país pra frente não é trabalhador braçal, mas o conhecimento científico, tem que fomentar as pessoas que tenham potencial para que ele gere frutos, mas esse papel não foi feito. É muita paulada no espinhaço de um cara que tem transtorno psiquiátrico. Não quero pagar de coitadinho, mas é um fator que influencia. Tenho minha parcela de culpa, mas houve muita coisa externa que me trouxeram até aqui”, avalia Mário que Mário já passou por quatro casamentos e tem cinco filhos.

Pretende voltar à universidade?

Com toda a certeza! Queria ter o prazer de ser laureado e dizer ‘chupa bando de infeliz!’, conta rindo.

Mário não conseguiu se inscrever para o Enem deste ano por causa da baixa resolução das fotos que enviou. Ele estava sem certidão de nascimento e identidade, mas conseguiu juntar o dinheiro necessário para a retirada dos documentos, mas com as sucessivas recusas do sistema em aceitar as fotos feitas na inscrição, acabou perdendo o prazo.

Senti uma raiva extrema, fiquei furioso, mas depois de um tempo pensei que já que não consegui entrar agora, vou seguir correndo por fora, fazendo cursos”, revela. Ele está fazendo um curso de vendas no Centro de Trabalho e Empreendedorismo da Prefeitura e depois planeja dar continuidade aos estudos com outro curso de qualidade no atendimento e inglês.

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