CULTURA

Por que American Factory é o mais forte concorrente de Democracia em Vertigem ao Oscar

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou dia 13 de janeiro os indicados ao Oscar deste ano. Apesar da torcida em torno da indicação de A Vida Invisível para um prêmio de melhor filme estrangeiro, o Brasil apareceu onde não se esperava: Democracia em Vertigem, de Petra Costa, foi indicado ao Oscar de melhor documentário do ano. O filme mostra uma versão da história da política brasileira, a partir da redemocratização ao golpe de 2016.

Democracia em Vertigem concorre com outros quatro longas documentais. Dois sobre a guerra na Síria, um retrato de uma criadora de abelhas na longínqua Macedônia e um relato sobre a instalação de uma multinacional chinesa numa pequena cidade dos Estados Unidos abalada pela crise de 2008. Estamos na área, com quatro craques igualmente preparados para o gol. Mas no Oscar, assim como no futebol, há muita coisa acontecendo fora das quatro linhas e que não é treinamento nem concentração.

Competir com For Sama, por exemplo, é tarefa dura. Filmado por uma ativista universitária síria, desde o início dos protestos contra Bashar Al Assad em Aleppo, o documentário não poupa o espectador de cenas dilacerantes como a que mostra corpos de estudantes e manifestantes jogados na rua após tortura e morte. E a do choro de uma criança que leva o irmão mais novo ao hospital depois de ser atingido por estilhaços de bomba. Ambos brincavam na rua de casa, na breve calma que sucede um bombardeio.

Sama é o nome da filha de Waad, diretora do filme. Ela nasce na guerra e é inspiração para um grupo de jovens, incluindo seus pais, que persistem na resistência contra o regime de Assad e seus aliados a partir de um hospital, onde trabalham atendendo centenas de feridos diariamente.

É também de um hospital que vem a história das médicas e enfermeiras de The Cave, filme sírio-dinamarquês no qual o drama da guerra se encontra com a violência do machismo, que persiste em questionar a liderança feminina em ambientes de trabalho.

Da Macedônia vem o terceiro concorrente de Democracia em Vertigem, um documentário raiz, com bases na antropologia documental: Honeyland. Hatidze, o objeto deste exercício de observação, é uma criadora de abelhas que vive apartada da vida nas cidades, numa solidão compartilhada com a mãe e invadida pela chegada de uma família que se mete a criar abelhas também.

O filme vai agradar a ambientalistas e adeptos do minimalismo. Com o desequilíbrio provocado pelas abelhas dos novos vizinhos, Hatidze vê a venda do mel, seu ganha pão, ficar comprometida. Ela não compreende a pressa, a ganância e o descaso com animais, elementos que podem estar tanto na causa quanto na consequência da extrema pobreza da família (e por isso o filme é quase uma parábola sobre o predatismo capitalista).

Apesar de toda essa diversidade, é no quarto concorrente, American Factory, que está a maior ameaça a Democracia em Vertigem. Um documentário de fôlego, que atravessa uma década registrando trabalhadores, antes empregados de uma fábrica da General Motors em Ohio e, a partir de 2010, de uma gigante chinesa que se instala no mesmo local. As relações de trabalho cada vez mais inseguras – literal e subjetivamente – e o choque de culturas são os pontos fortes do filme.

Conta também, neste caso, grande força política da produtora que abraçou e financiou o projeto: a Higher Ground Productions, do casal Michelle e Barack Obama. Acrescente-se aí o peso do nacionalismo norte-americano, ameaçado pela guerra comercial chinesa, e temos um documentário a um passo da vitória.

O relato de Petra Costa em Democracia em Vertigem, impressionante pelo didatismo e pela coragem de exposição – a diretora revela, por exemplo, raízes familiares nas lutas pelas Diretas Já e nas empreiteiras manchadas pela corrupção -, é vencedor pela própria indicação.

Certamente será recebido em muitas novas salas após o anúncio dos concorrentes ao Oscar. E mais: será debatido por gente que sequer imagina que o Brasil sofreu um golpe parlamentar em 2016. Se conseguir trazer uma estatueta para casa, será a apoteose.

 

 

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