DEMOCRACIA

Por que Rogério Marinho virou alvo de Paulo Guedes e agora se vê ameaçado de demissão

Ministros do governo Bolsonaro, Rogério Marinho, no Desenvolvimento Regional, e Paulo Guedes, na Economia, se confrontam publicamente há meses. O ápice da guerra entre os dois, pelo menos até o momento, foi nesta quinta-feira (15) com a saída do potiguar do Conselho Fiscal do Sesc (Serviço Social do Comércio), onde ocupava cadeira desde fevereiro de 2019, recebendo R$ 21 mil mensais.

A decisão foi de Guedes com aval do presidente da República. O ministro General Ramos (Secretaria de Governo) será o substituto.
O cargo no Conselho havia sido dado a Marinho como prêmio um dia depois que ele apresentou a proposta de reforma da Previdência. Ele era secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia quando conduziu as negociações para o Congresso. Portanto, era subordinado de Paulo Guedes e de sua confiança até ali.

O ministro da Economia chegou a sugerir ao chefe do Executivo que colocasse o ex-deputado potiguar na Casa Civil. Mas em fevereiro de 2020, Marinho assumiu o Ministério do Desenvolvimento Regional. Com isso, o contracheque do potiguar somava a renda de ministro (R$ 30,9 mil) com o ganho de conselheiro (R$ 21 mil) ultrapassando o teto do funcionalismo (R$ 39,3 mil).

Como as gratificações pagas pela participação em conselhos desse tipo, os chamados jetons, não são considerados salário, eles não entram na conta do limite máximo que um funcionário público federal pode receber, equivalente ao de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

Publica-se que Rogério Marinho e Paulo Guedes começaram a se desentender quando Marinho quis liderar um programa de retomada da economia idealizado pelo governo, o plano Pró-Brasil.

Na famosa reunião de 22 de abril, que resultou no rompimento de Moro com Bolsonaro, Paulo Guedes disse que a proposta de aplicar investimentos públicos para reduzir desigualdades ficaria “bonito” para Rogério Marinho porque teria as “digitais dele” e insinuou que o colega quer se promover com a medida eleitoreira visando as próximas eleições no Rio Grande do Norte.

“Tá cheio de gente pensando nessa eleição agora, e botando coisa na cabeça de todo mundo aqui dentro, que são governadores querendo fazer a festa, são às vezes ministros querendo aparecer, tem de tudo”.

Ainda com relação ao plano de retomada da economia, Guedes disse que seria uma volta à política adotada pelos presidentes Lula e Dilma. “Isso é o que o Lula, o que a Dilma tão fazendo há trinta anos. Se a gente quiser acabar igual a Dilma, a gente segue esse caminho”.

“Caiu um meteoro sobre as nossas cabeças”, disse Marinho referindo-se à crise causada pela pandemia de covid-19. “Nós não podemos começar uma discussão com verdades absolutas e com dogmas estabelecidos ao longo de cem anos, em função de uma catástrofe que se abateu sobre o mundo, e os governos de todo o mundo estão se debruçando sobre o assunto, entendendo que muda o papel do Estado”, rebateu.

Pesa ainda o fato de Marinho ser agora favorável a tirar os investimentos em obras públicas do teto dos gastos, permitindo que eles subissem acima da inflação. O ministro da Economia é contra.

A richa entre os dois chegou ao ponto de ficar nítida em indiretas públicas. Ainda no final de abril, em entrevista coletiva, Guedes chegou a comparar “ministros” que querem se aproveitar de uma crise de saúde para aumentar “gasto público com fins eleitorais” a “batedores de carteira”. Em outra ocasião, durante audiência pública, Guedes voltou a falar em oportunismo político e “farra eleitoral”.

Ameaça de Bolsonaro

No domingo (11), o jornalista Lauro Jardim publicou em coluna n’O Globo conversa entre Bolsonaro e Rogério Marinho. Referindo-se à briga com Paulo Guedes, o presidente disse em telefonema ao ministro do Desenvolvimento Regional: “Sabe quando a pessoa está numa competição cabo de guerra? Sabe onde a corda arrebenta? No lado mais fraco. Fica atento”.

De acordo com a coluna, o Bolsonaro teria dito ao presidente do TCU, José Múcio Monteiro, presente durante a ligação, que não tem substitutos para Guedes, mas tem “uns vinte” para o cargo de Marinho.

De olho nas eleições

Com futuro incerto no governo federal e corroborando com o que aponta Guedes, Rogério Marinho providenciou recursos extras para o interior do Rio Grande do Norte nesta quinta-feira (15).

O seu Ministério, o de Desenvolvimento Regional (MDR), reconheceu a situação de emergência em 18 municípios do estado.

Com a medida, as cidades de Água Nova, Apodi, Coronel João Pessoa, Doutor Severiano, Encanto, Equador, Francisco Dantas, Luís Gomes, Paraná, Pau dos Ferros, Rafael Fernandes, Rodolfo Fernandes, São Francisco do Oeste, São Miguel, Severiano Melo, Taboleiro Grande e Venha Ver poderão ter acesso a recursos federais para ações de socorro, assistência e restabelecimento de serviços essenciais à população.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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