OPINIÃO

Por um financiamento público do jornalismo

Instrumento crucial à sobrevivência e fortalecimento da democracia em qualquer sociedade, o jornalismo é, acima de tudo, um serviço público compromissado com o bem informar à população, sobre fatos e acontecimentos que impactam no cotidiano, e sobre as consequências na vida de cada cidadão.

No modelo industrial adotado no Brasil, com o jornalismo vinculado e dependente de empresas interessadas na informação como mercadoria, este compromisso é, vez ou outra, atravessado por interesses e cenários econômicos e políticos, que vão definindo o tempo de vida deste perfil mercantilista do uso do jornalismo. Reféns de toda esta engrenagem: os jornalistas. Trabalhadores como qualquer um, que precisam de uma renda econômica para sobreviver. Chega de hipocrisia. Jornalismo sério se faz com amor. Mas custa caro, e alguém tem que pagar por isso.

As crises econômicas que sucederam-se nos últimos anos em diversos países, inclusive no Brasil, junto à quebra das estruturas econômicas promovida também pelo avanço da internet e de gigantes nascidas a partir dela, como Google e Facebook, jogaram os modelos tradicionais de negócio do jornalismo numa espécie de ostracismo. Com isso, as pessoas passaram a contar com menos veículos estruturados de informação, e os jornalistas com menos oportunidades de emprego. Do outro lado, redes de notícias falsas se proliferam todos os dias nos grupos de Whatsapp. A epidemia cresce e falta investimento para fortalecer a vacina contra ela.

Enquanto as grandes corporações de mídia buscam uma reinvenção que caiba em suas receitas – muito reduzidas em comparação ao que faturavam há uma década – e demitem cada vez mais empregados, pequenos jornais, rádios e TVs fecham aos montes, principalmente no interior do país. Numa trincheira de resistência, iniciativas independentes de jornalismo tentam se firmarem como novos modelos de negócio, mais próximos do jornalismo local, mas dependendo ainda de doações e assinaturas do público, de recursos de ONGs internacionais e também do tradicional modelo de verbas publicitárias.

Neste momento, cabe a pergunta: a quem interessa um jornalismo forte, justo e leal ao espírito público e democrático?
Eu responderia: ao povo. Povo, no sentido mais importante da palavra. Como representante e peça vital de uma nação democrática.

Neste aspecto, é chegada a hora de pensar num modelo de jornalismo público, financiado pelo Estado e pelas pessoas. Não apenas financiado, mas feito e fiscalizado também pela sociedade civil.

Aos que estranham a proposta, falamos aqui de um modelo já executado em algumas das principais democracias do mundo. Modelos como a BBC, mantida pelo estado e pelo povo britânico. Portugal, Alemanha e Suíça também têm suas experiências de êxito. No Brasil, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) é nosso exemplo mais importante.

O debate não é novo, inclusive já tendo resultado numa proposta de Fundo Nacional de Comunicação Pública, na Câmara dos Deputados. Mas, estagnado, necessita de retomada.

Um debate que deve ser tratado em todas as esferas. No país, nos estados, e nos municípios. Nada impede que cada estado e município coloque a comunicação pública como pauta, independente do ritmo que esta discussão seja tratada na esfera federal. Comunicação pública, não comunicação estatal.

Numa cidade como Mossoró, com sua história diretamente ligada ao surgimento de importantes jornais, e com um cenário recente marcado pelo fechamento de quase todos eles, faz-se necessária esta discussão.

Num estado como o Rio Grande do Norte, com três cursos superiores de jornalismo (UERN/UFRN/UnP) formando uma gama de profissionais todos os anos, e tendo um dos cursos (Jornalismo/UERN) como o de melhor desempenho entre todas as universidades públicas do país na avaliação INEP/MEC 2018, é urgente este debate como política de Estado.

Ao povo cabe o direito a um jornalismo público, sério e bem feito, e o dever de cobrar que instrumentos públicos tornem isso possível. É preciso saber que não adianta cobrar por um jornalismo de qualidade se você não está disposto a lutar pela sobrevivência dele.

 

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Jornalista e Professor

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