CIDADANIA

Por um modo feminista de resistir e ocupar as ruas

Por Girlane Machado

Neste ano, foi elementar para as mulheres brasileiras recuperar as forças de resistência oriundas das mobilizações do #EleNão ocorridas na campanha presidencial de 2018 . A unidade das feministas ligadas a diferentes correntes se tornou um imperativo para construir o enfrentamento às políticas austeras que atacam diretamente à vida de mulheres pobres, negras, indígenas e do campo.

Em Natal, aproximadamente durante 7 anos, o ato referente ao 8 de março não era unificado. Esse período, em que houve vários “rachas” no movimento feminista, indicou a dificuldade de convergir em pautas que nos unem enquanto mulheres que lutam pelo fim do machismo. Com a indignante ausência de resposta para o assassinato da lutadora Marielle Franco, criminalização intensificada das lutas pelos direitos humanos e consenso de que a extrema-direita com seus valores machistas, racistas e lgbtfóbicos é nossa inimiga comum, conseguimos construir um 8 de março unificado, histórico e organicamente feminista.

Os feminismos antisistêmicos se uniram neste 8M para desmascarar o atual governo que visa destruir o mínimo de proteção social, como o desmonte da previdência pública, minar a educação crítica e contextualizada com o Escola Sem Partido e ignorar os crescentes índices de feminicídio que aterrorizam a vida das mulheres com a facilitação do porte de armas, além de ameaçar nossa frágil democracia, com a propagação de ideias fascistas e antidemocráticas.

A estética feminista de ocupação as ruas historicamente se mostra irreverente e se contrapõe aos modos masculinos de fazer política. Os discursos duros e nada dialógicos dão espaço para criações artísticas como ferramentas de comunicação com as ruas. Sabemos que a arte, nas suas variadas expressões, possui caráter político e consegue abranger a contestação através da denúncia às injustiças, da crítica às violências e do deboche contra o ultraconservadorismo.

Seguindo essa linha transgressora artivista, mulheres de diferentes perspectivas políticas, crenças, idades, raça/etnia convergiram seus desejos de transformação das estruturas que oprimem mulheres, saíram às ruas de forma criativa, com a cor lilás (representando que o feminismo é suprapartidário), batuques, poesias, músicas e paródias ousadas que denunciam o patriarcado no cotidiano e nas políticas institucionais.

Compreendemos que o artivismo feminista transformará as formas frias e autocentradas dos movimentos sociais de fazer política e ocupar as ruas. Foi nesse sentido que o Coletivo Leila Diniz, inspiradas no Grupo de teatro “Loucas de Pedra Lilás” (conhecidas por realizarem intervenções lúdicas/teatrais com foco no feminismo popular) elaborou o Toré Feminista para 8M de 2019 em Natal.

Girlane Machado, professora da rede estadual de educação do RN. Integrante do Coletivo Leila Diniz e da Articulação de Mulheres Brasileiras- AMB

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