CULTURA

Potiguar retrata em filme reflexões de mestre e zelador de maracatu em Olinda sobre o vazio do “não-carnaval”

“É muito bonito você ver as pessoas alegres, dançando”, diz o publicitário e escritor potiguar Patrício Júnior, que nasceu numa terça-feira de Carnaval, há 42 anos. Desde a infância, a folia fez parte do calendário familiar e continua sendo a principal festa do ano para ele. Há seis anos, o natalense mudou-se para o Recife, onde trabalha, casou com outro aficionado por carnavalizar, e pôde aproveitar um dos maiores centros mominos do país, em Olinda, na região metropolitana da capital pernambucana.

Também fez amizade com Raquel Medeiros e Leonardo Soares, casal de paraibanos também apaixonado pelo colorido da festa de fevereiro. “Raquel sempre diz assim: eu não boto um enfeite de Natal, mas no Carnaval minha casa tá toda enfeitada”. Os quatro costumavam se juntar nesse período, e não foi diferente em 2021, mesmo na ausência dos bloquinhos de rua.

Dessa vez, o grupo se reuniu para participar de um edital lançado pela Secretaria de Cultura de Pernambuco, onde deviam apresentar uma proposta de vídeo documental que coubesse à apresentação de um dos mestres ou mestras da cultura do estado. Por escolha da pasta, foram levados à história do mestre Nilo Oliveira, zelador do Maracambuco, um Macaratu e projeto social olindense que está impedido de realizar atividades desde março de 2020.

O projeto foi fundado em 9 de junho de 1993 e já atendeu mais de 3 mil jovens de Peixinhos, bairro da periferia de Olinda. O mestre Nilo é uma liderança do lugar e o maracatu um centro cultural.

Com 28 anos de existência, o Maracambuco já atendeu mais de 3 mil jovens de Peixinhos, bairro de Olinda-PE. Foto: Clécio Dias

“É ali que os jovens entram em contato com a arte, os figurinos são feitos ali, os estandartes, os acessórios. Tudo do maracatu é feito naquela oficina. Os jovens acabam entrando em contato com diversas expressões artísticas além do maracatu. Além de expressões da ancestralidade que dizem respeito as origens da maioria das pessoas daquele local”, explica Patrício.

Do contato, nasceu o curta-metragem “Minha Nação – Um Filme Sobre Mestre Nilo” que, em cinco minutos, faz sentir o “não-Carnaval” de 2021.

Em tempos sem pandemia, mais de 100 jovens se reúnem semanalmente na sede do Maracambuco para ensaios e atividades de preparação para o Carnaval mais próximo. São oficinas de dança e percussão, construção de figurinos e demais elaborações que buscam divulgar, preservar e promover a cultura do Maracatu de Baque Virado ou Maracatu Nação, como também é conhecida uma das expressões mais antigas do cortejo.

“Quando você tem um grupo de maracatu, além de toda a dificuldade que você tem na pandemia, ainda tem o fato de que o Carnaval não vai acontecer. E o Carnaval não é só o ganha-pão, ele é a principal atividade daquele grupo. Ele existe para o Carnaval”, lembra o roteirista do curta.

O Maracatu mistura rituais das culturas indígenas, afro e até europeias no Brasil e é uma expressão brasileira, com origem no estado de Pernambuco, com presença mais forte em Recife, Olinda e Nazaré da Mata. Dessa última, vem o Maracatu do Baque Solto ou Rural.

É primordialmente, um cortejo feito de rua. Com grande número de pessoas, alas, e fantasias. Além de uma expressão da religiosidade, tendo em vista que maracatus são ligados a orixás e terreiros.

“O vírus quebrou a presença da gente”,

 Mestre Nilo, em trecho do curta-metragem.

A equipe entrevistou o zelador na semana do Carnaval, momento em normalmente ele estaria completamente indisponível para conversas enquanto se preparava para a Noite dos Tambores Silenciosos, cerimônia realizada na segunda-feira em que os maracatus se reúnem em Frente à Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos e pedem a benção dos orixás para que seja criado o Carnaval.

“Tem salvamento que só a cultura opera”, lembra Patrício sobre a função social do projeto, de inserir jovens de 15 a 19 anos em atividades culturais.

Aos 49 anos, Mestre Nilo Oliveira é o zelador do Maracambuco, Maracatu e projeto social desenvolvido em Olinda. Foto: Divulgação.

“Quanto mais tempo o maracatu fica preso, as energias dali levam os jovens para outros lugares. Imagina quantos projetos estão paralisados e, por conseguinte, quantas pessoas estão desassistidas do que só a cultura faz. Porque tem coisas que só a cultura faz”, resume.

Além do tema Carnaval, outro aspecto da produção cruzou o publicitário potiguar. O Maracambuco atua principalmente com jovens negros, promovendo tradições dos povos trazidos forçosamente ao país e que foram alvo, além de imperdoáveis punições físicas, de um processo de apagamento das próprias histórias. Enquanto homem racializado, Patrício percebeu que estava tendo ali uma oportunidade de garantir que, pelo menos aquela memória, não seria esquecida.

“Depois de tudo isso, estou lá eu registrando outro homem negro que trabalha para manter viva a minha cultura. Essa ficha só foi caindo aos poucos. Eu não tinha passado esse recorte racial na produção”

Escritor e publicitário Patrício Júnior.

Patrício Júnior é diretor e roteirista do curta “Minha Nação, um filme sobre Mestre Nilo”. Foto: Divulgação.

Até então, ele se concentrava em assegurar que todo o equipamento necessário havia sido reunido para a filmagem, realizada presencialmente nos dias 6 e 7 de fevereiro de 2020, na semana anterior ao Carnaval.

“Conforme foi se aproximando da produção é que foi batendo esses códigos, esse tambor, esse orixá, essa roupa, isso fala de mim. Ele tá falando de mim, ele está mantendo viva a minha cultura. E agora eu vou ter a honra de registrar esse trabalho que só pode ser feito da maneira que ele faz: abdicando de tudo para viver em função daquilo. Não tem outra forma de fazer isso”, conta Patrício.

Iemanjá é o orixá do Maracambuco. Assim, uma das escolhas de montagem para o curta foi a utilização de sons e imagens do mar, costurando a história. Além da simbologia religiosa, Patrício conta que a escolha busca a ideia de recomeços que o vai e vêm das ondas proporcionam. Além da calma pela falta da grande festa.

“Eu queria que as pessoas sentissem aquela ausência que ele estava sentindo naquele momento, e que contagiou a gente”, afirma. A equipe ainda guarda parte do material para projetos futuros e planeja dar continuidade ao trabalho em 2022, também com o Mestre Nilo.

“A única coisa que sabemos é que vai ser especial, vai ser diferente. Tendo ou não Carnaval. Ou vai ser o segundo ano do Brasil sem Carnaval ou vai ser o primeiro Carnaval de um novo tempo”, define.

Confira o curta-metragem “Minha Nação – Um Filme Sobre Mestre Nilo:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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