CIDADANIA

RN cria rede de solidariedade após relato dramático de trans potiguar em situação de rua em São Paulo

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“Eu tô com o cabelo curto porque eu entrei em depressão, pra ninguém me caçar, me bater ou me matar. Hoje eu estou aqui em São Paulo pra poder ficar viva, estava trabalhando, sou cabeleireira, mas chegou esse vírus e eu não consegui pagar minhas contas, o aluguel e eu tô aqui, na rua”. Esse é o relato de Jéssica, mulher transexual, natural de Natal, Rio Grande do Norte, que foi para São Paulo desde a morte de sua irmã, também trans, Luana, em 2019.

Jéssica é uma das muitas trabalhadoras brasileiras vítimas não só da pandemia que pegou o país desprevenido, mas de uma sociedade preconceituosa, transfóbica e que marginaliza muitas Jéssicas diariamente.

No vídeo, que teve alta repercussão nas redes sociais, Jéssica aparece com uma peruca loira e depois a tira ao relatar que esconde sua feminilidade da sociedade. “Porque se esconder da sociedade? Porque mataram minha irmã apedrejada no RN”, diz.

O vídeo foi publicado no perfil do Projeto Existimos, iniciativa que visa ajudar e dar visibilidade a pessoas transexuais e travestis em situação de rua na maior cidade do Brasil.

“Eu gosto de me cuidar, as pessoas nem pensam que eu moro na rua. Mas eu tô aqui, quem puder me ajudar, me dar uma oportunidade em algum salão, que o meu dom sempre foi esse. Quero deixar pra vocês que não é um erro, nós não escolhemos ser assim e pela memória da minha irmã Luana, eu sei que eu vou sair dessa, vou deixar meu cabelo crescer, minha identidade. Vivo de doação, uso peruca, se vocês puderem me ajudar com uma peruca, com uma barraca (…)”, desabafa.

Jéssica conta, no vídeo, que o episódio da morte de sua irmã foi muito forte e relata que ela mesma encontrou o corpo de Luana. A cabeleireira chora e manda um abraço para a mãe, que continua morando em Natal. “Te amo mãe, um dia eu vou te buscar, eu não te abandonei não, é pra não me matarem”, diz emocionada.

De acordo com a Rede Trans Brasil, que faz o mapeamento de assassinatos de pessoas T, a transexual conhecida como Luana Piovani foi encontrada morta dia 15 de setembro, nua, com sinais de violência e foi assassinada a pedradas em Elói de Souza, município do interior do Rio Grande do Norte distante 61 quilômetros de Natal.

O relato da potiguar em situação de rua em São Paulo comoveu muitas pessoas, sobretudo muitos conterrâneos, que se mobilizaram para ajudar a Jéssica. Os amigos João Lucas e Francisco Augusto decidiram contribuir arrecadando doações para Jéssica assim que viram o vídeo.

“Guto tentou entrar em contato com o Projeto Existimos, para enviar uma peruca para Jéssica e aí tivemos a ideia de estender a ação e divulgar nas redes sociais que iríamos ajudar para que outras pessoas também pudessem contribuir. Pensamos em enviar o presente para Jéssica para que ela percebesse que não existem só pessoas que querem lhe fazer mal, mas sim aquelas que querem vê-la bem e fora das ruas”, conta João.

Augusto conta que o vídeo lhe ‘derrubou’ e lhe deixou muito comovido por ser um caso explícito do preconceito e da transfobia em todo o Brasil.

“Nós já conseguimos algumas doações e queremos mandar para Jéssica, para que possamos minimizar esse sofrimento que ela está. A ideia é mandar uma caixa de coisas para ela se cuidar. A transfobia é algo que precisamos combater, além da questão da situação de rua que precisamos combater também”, disse Augusto.

De acordo com João Lucas, as doações serão arrecadadas e enviadas para Jéssica levando em consideração que ela não pode guardar muita coisa, por estar na rua.

“Algumas pessoas oferecem doações de comida, nós aceitamos mas por ser perecível, mas não enviaremos para São Paulo e sim para o coletivo Atransparência, que faz um trabalho social com pessoas trans no Rio Grande do Norte. Também estamos aceitando roupas de frio, peruca, maquiagem, produtos de beleza e outras coisas que as pessoas possam ajudar doando“, explica.

Centenas de Jéssicas

O vídeo de Jéssica sensibilizou muita gente para tentar lhe conseguir um emprego, dinheiro e um lugar para morar. De acordo com Rebecka de França, ativista da Atransparência RN que procurou informações sobre o caso, Jéssica já conseguiu uma passagem aérea para voltar para Natal, um lugar para morar e um emprego, através de articulação do Fórum LGBT Potiguar com o Centro de Referência em Defesa da Diversidade de São Paulo.

A ativista potiguar relembra ainda que existem diversas Jéssicas precisando de ajuda no Rio Grande do Norte. Desde que a pandemia começou, a Atransparência tem ajudado com cestas básicas diversas pessoas trans em situação de vulnerabilidade.

“A gente não pode esquecer que existem milhares de Jéssicas em todo o Brasil, inclusive aqui no RN, então a gente coordenou uma campanha de doações para essas pessoas. Queria dizer que quem realmente se sensibiliza com o caso da Jéssica, não deixe de fazer doações para a nossa campanha, pois a gente leva uma cesta básica a diversas Jéssicas todos os dias, que estão nas periferias, sem trabalho. Jéssica foi uma voz de muitas que existem nessa situação e precisamos ajudar a todas”, solicita Rebecka.

Entrega de cestas básicas pela ONG Atransparência. Foto: Reprodução/Instagram

No Rio Grande do Norte, pelo menos 50 pessoas trans estão em situação de vulnerabilidade diante da pandemia, de acordo com o primeiro levantamento da Atransparência RN para localizar e ajudar essas pessoas. Das 50 pessoas que responderam o formulário, 26 são travestis, 22 são transexuais e 2 se identificaram como pessoa não binária, com idades de 18 a 64 anos.

Entre as profissões apontadas pelo levantamento, 20% tem a prostituição como fonte de renda. Cabeleireiros, diaristas, trabalhadores autônomos e estudantes também preencheram o cadastro.

Mês do Orgulho LGBTQIA+

O relato de Jéssica explicita a violência sofrida por muitos e muitas pessoas LGBTs apenas pela sua orientação sexual. No Brasil e no mundo, 28 de junho é o Dia do Orgulho LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e outros grupos minorizados). A data tem origem em uma reação, em 1969, a sucessivas batidas policiais ao bar Stonewall Inn, em Nova York.

51 anos depois a realidade mostra alguns avanços mas mantém seus retrocessos, como a marginalização dessas pessoas, a violência e o preconceito. Para Rebecka de França, o T é uma das últimas letras lembradas e das que mais precisa lutar por reconhecimento a identidade.

“A gente continua nessa luta por visibilidade, uma coisa que a gente lutou por tanto tempo foi o direito a um nome, imagina que tudo no universo tem direito a um nome menos nós travestis e transexuais”, conta.

Para João Lucas, que também é militante da causa LGBT+, é duro observar a desigualdade dentro do próprio movimento, que precisa de atenção e visibilidade para todas as letras.

“Há um tempo venho chamando a atenção de amigos Gays para a pauta Trans, mesmo não sendo meu local de fala, para que eles observem que existe dentro de uma comunidade não só homens gays, cis, que sim, sofrem LGBTfobia, mas ainda assim com privilégios. E existem Jéssicas, vítimas de uma violência brutal e obrigadas a ficar longe de sua mãe apenas por serem quem é”, afirma.

Doações 

Confira como você pode ajudar a Jéssica, ao Projeto Existimos ou a ONG Atransparência RN.
Doações para Jéssica
Conta para depósito:
Conta: Poupança Banco do Brasil
Ag: 3525-4
Conta: 29152-8
Variação: 51
Igor Rogério Dantas da Silva
Contato: 84 98108-1883 – João Lucas
Doações para o Projeto Existimos 
Para contribuir com o projeto, basta acessar o site da Vaquinha Online, disponível para doações.
Doações para a ONG Atransparência
Atransparência RN: Av. Bernardo Vieira, 1487, Alecrim/Natal

Dados bancários – Banco do Brasil
Agência: 2847-6
Conta: 224979-0
Contato: 84 98861-1763 – Rebecka de França

 

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Kamila Tuenia
Jornalista potiguar em formação pela UFRN, repórter e assessora de comunicação.

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