ENTREVISTA

Pouca influência de Bolsonaro, fragmentação da esquerda e alto índice de abstenção marcam eleições de 2020

Os dados são muitos, assim como as lições que as eleições de 2020 nos trazem. Ao todo, 57 cidades do país tiveram 2º turno e 18 delas eram capitais, onde pela primeira vez, o PT não conseguiu eleger um único prefeito. Apesar da pompa, o apoio do Presidente da República não trouxe influência significativa no resultado do pleito, que em 2020 teve um número recorde de abstenção de 29,47 %, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para entender o desemprenho dos partidos, as forças de esquerda e direita, assim como as inclinações que preenchem o espaço deixado entre os extremos, a Agência Saiba Mais conversou com Antônio Spineli, Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Vamos aos pontos:

Diluição do Presidente

“Estão sendo tiradas algumas conclusões a cerca destas eleições que são mais ou menos consensuais, uma primeira coisa é que o Presidente da República realmente não teve uma influência importante, pelo contrário. Segundo a mídia, ele apoiou 13 candidatos no país e, desses, 11 não conseguiram se eleger. Houve até um efeito contrário, onde ele apoiou os candidatos até perderam popularidade, votos, caíram nas pesquisas. O caso mais evidente foi o Rio de Janeiro, que tem um significado grande porque é o segundo maior colégio eleitoral do país e porque é o estado do próprio presidente. É de lá que ele vem, foi lá que ele se elegeu seguidas vezes deputado federal, ele e os filhos tem atuação política lá. O Bispo Crivella teve uma derrota fragorosa para o deputado Eduardo Paes. Na eleição de São Paulo não houve qualquer tentativa de influenciar no resultado eleitoral. O embate foi entre uma força de centro-direita que é o PSDB e uma força de esquerda que é o Psol, o que foi novidade porque até então esse embate se fazia entre PSDB e PT, que teve um desempenho muito fraco. A influência do presidente, então, foi muito pequena tanto no 1º quanto no 2º turno com o destaque para o fato de ele não ter um partido político próprio. Vem do PSL do qual se desliga para formar um novo partido, o Aliança pelo Brasil, que sequer recolheu as assinaturas para se viabilizar como partido. Isso mostra as dificuldades do atual Presidente da República em exercer influência num cenário político como esse, de eleições municipais”, avalia Antônio Spineli.

Forças de direita e centro-direita emergem

“As forças de direita e centro-direita emergiram, particularmente, no segundo turno onde estavam os maiores colégios eleitorais, as cidades mais importantes: São Paulo, Rio, Recife, Fortaleza e Porto Alegre. Nesse sentido, as forças de direita e centro direita saíram em ampla vantagem em relação às forças de esquerda, que investiu muito na eleição de São Paulo, Porto Alegre e, em parte na eleição de Recife, que teve uma particularidade entre duas forças ao menos nominalmente de esquerda. Com alguma margem de boa vontade, admitamos que o PSB seja um partido de centro-esquerda, apesar das posições ambíguas desde a época do Eduardo Campos e das várias lideranças regionais francamente de direita, como aqui no Rio Grande do Norte. O PSDB perdeu em termos numéricos algumas prefeituras, mas continua governando o maior colégio eleitoral do país e nós sabemos que nos últimos anos tem saído de lá as principais candidaturas à presidência da República, como a de Lula. Também sabemos que as principais do partido saem de São Paulo, como José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Dória. O PSDB continua sendo uma força hegemônica no cenário nacional e dominando colégios eleitorais importantes, inclusive Natal onde o prefeito foi eleito já no primeiro turno.

Surpreendente, também, foi o crescimento do DEM que elegeu um prefeito num colégio eleitoral importante que é o Rio de Janeiro, derrotando a figura do Bispo Crivella, candidato do próprio presidente da República que se empenhou e demonstrou o desgaste de imagem que vem sofrendo há algum tempo”.

Fragmentação da esquerda

“Por outro lado, no campo da esquerda, existe um dado significativo de que o PT não conseguiu eleger um prefeito em nenhuma capital do país. A última esperança do partido era eleger Marília Arraes em Recife. Mas o PT ainda conseguiu alguns municípios na região do ABC Paulista, também em Contagem (MG), o que demonstra que o PT ainda tem força junto ao movimento sindical, ao núcleo duro da classe trabalhadora e do sindicalismo. Mas, relativamente houve um enfraquecimento do PT que é resultado ainda do impeachment de Dilma, dos processos da Lava Jato que resultaram na condenação do presidente Lula, que é muito polêmica porque como tem sido demonstrado, é sem provas, e uma campanha midiática muito forte para desconstruir a imagem do ex-presidente e do partido também.  Por outro lado, apesar disso, o partido tem um grau de resiliência muito grande. Eu não acredito que seja uma coisa definitiva como muitos veem, acho que o PT vai continuar sendo uma força política importante.

Também há o surgimento do Psol, que não só elege o prefeito de Belém, como na disputa por São Paulo consagra a expressão: na derrota o Boulos venceu! Realmente o Boulos, que já havia sido candidato à presidente da república, emerge como liderança expressiva que pode ser um nome viável para as eleições presidenciais de 2022, alguém que possa surgir dentro de um consenso entre as diversas esquerdas, embora eu seja particularmente cético em relação a essa possibilidade de união. A fratura entre os partidos da esquerda ficou muito clara. Em Recife você tem o PSD, o PC do B e o PDT de um lado e o PT de outro. A campanha foi só não muito acirrada, mas também resultou em feridas que dificilmente podem ser curadas, inclusive, com repercussão nacional”.

30% de abstenções

“Uma coisa que não podemos deixar de celebrar é que tem havido o processo eleitoral numa fase em que a democracia tem sido tão atacada da parte, inclusive, dos que detém o poder nesse momento, com um sentimento antidemocrático muito forte. Tem a questão das abstenções, que ficou em torno dos 30% (TSE: 29,47%). Em alguns colégios eleitorais, se somarmos os votos brancos e nulos, podemos chegar a 35%. Um dado bastante significativo desse fenômeno, é que no Rio de Janeiro as abstenções somadas com os brancos e nulos dão um número maior que o dos votos que o prefeito eleito (Eduardo Paes) recebeu. Abstenções de 2016 à 2020 cresceu significativamente, o que é um fenômeno preocupante, principalmente, porque não sabemos o significado disso. Poderíamos indicar que uma parcela dos cidadãos brasileiros estaria disposta a apoiar soluções extremas? Ou isso seria penas uma espécie de desencanto com a democracia? Nos dois casos é preocupante. Não acredito que a primeira hipótese seja forte porque esse cidadão que tem uma atitude de repulsa à democracia poderia abraçar as soluções extremas existentes aí”.

A urna eletrônica é segura?

“A segurança do processo eleitoral tem sido colocado em cheque pelo próprio presidente da República, o que é muito sério. Sabemos que realmente houve tentativas de hackers de invadir os computadores do TSE e que o atraso na publicação dos resultados no primeiro turno se deu em parte devido a isso. Então, há de fato uma preocupação com a segurança das urnas eletrônicas, mas o ministro Barroso garantiu muito enfaticamente que o processo é seguro. Existe uma proposta do presidente da república de, mais uma vez, introduzir o voto impresso. Isso sim tiraria a segurança da eleição e abriria espaço para fraudes. Quanto à segurança das urnas ficou provado, não obstante os ataques dos hackers, que a segurança não foi atingida. O processo eleitoral no Brasil é um dos mais seguros no mundo e o questionamento disso vem, justamente, dos setores da extrema direita que não estão preocupados com o processo democrático. Pelo contrário, estão preocupados em tumultuar o processo democrático”, conclui Antônio Spineli, Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN.

 

Resultado do 2º turno das eleições 2020 por partido:

PP

Anápolis (GO): Roberto Naves
Rio Branco (AC): Tião Bocalom

PDT

Aracaju (SE): Edvaldo Nogueira
Fortaleza (CE): Sarto Nogueira
Serra (ES): Sergio Vidigal

PATRIOTA

Bauru (SP): Suéllen Rosim

PSOL

Belém (PA): Edmilson Rodrigues

PODEMOS

Blumenau (SC): Mário Hildebrandt
Mogi das Cruzes (SP): Caio Cunha
São Luís (MA): Eduardo Braide
São Vicente (SP): Kayo Amado
Taboão da Serra (SP): Aprigio
Vila Velha (ES): Arnaldinho Borgo

MDB

Boa Vista (RR): Arthur Henrique
Cuiabá (MT): Emanuel Pinheiro
Feira de Santana (BA): Colbert Martins
Franca (SP): Alexandre Ferreira
Goiânia (GO): Maguito Vilela
Paulista (PE): Yves Ribeiro
Porto Alegre (RS): Sebastião Melo
Taubaté (SP): Saud
Teresina (PI): Dr. Pessoa
Vitória da Conquista (BA): Herzem Gusmão

REPUBLICANOS

Campinas (SP): Dário Saadi
Sorocaba (SP): Rodrigo Manga
Vitória (ES): Delegado Pazolini

PSD

Campos dos Goytacazes (RJ): Wladimir Garotinho – sub judice
Canoas (RS): Jairo Jorge
Guarulhos (SP): Guti
Limeira (SP): Mario Botion
Ponta Grossa (PR): Professora Elizabeth

DEM
Cariacica (ES): Euclerio Sampaio
Piracicaba (SP): Luciano Almeida
Rio de Janeiro (RJ): Eduardo Paes
Santarém (PA): Nélio Aguiar
São João de Meriti (RJ): Dr João

PROS

Caucaia (CE): Vitor Valim

PSDB

Caxias do Sul (RS): Adiló
Governador Valadares (MG): André Merlo
Pelotas (RS): Paula Mascarenhas
Porto Velho (RO): Hildon Chaves
Praia Grande (SP): Raquel Chini
Ribeirão Preto (SP): Duarte Nogueira
Santa Maria (RS):Jorge Pozzobom
São Paulo (SP): Bruno Covas

PT

Contagem (MG): Marília Campos
Diadema (SP): Filippi Júnior
Juiz de Fora (MG): Margarida Salomão
Mauá (SP): Marcelo Oliveira

PROGRESSISTAS

João Pessoa (PB): Cicero Lucena

NOVO

Joinville (SC): Adriano Silva

PSB

Maceió (AL): JHC
Petrópolis (RJ): Rubens Bomtempo – sub judice
Recife (PE): João Campos

AVANTE

Manaus (AM): David Almeida
São Gonçalo (RJ): Capitão Nelson

SOLIDARIEDADE

Uberaba (MG): Elisa Araújo

 

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