OPINIÃO

Pra ver a quarentena passar

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O mundo está ao contrário, mas acho que muita gente reparou. Eu mesmo, sumi daqui por longas quatro semanas, até que conseguisse me adaptar às novas rotinas da vida, do trabalho, da economia, dos relacionamentos, da vida social, da vida cultural. Para quem achava que o mundo estava bem, o susto deve ter sido grande. Para quem achava que os seres humanos haviam dominado a natureza, o assombro deve ter sido colossal. Para os que, como eu, achávamos que o mundo estava todo errado, as coisas surgem com um misto de esperança desesperada e desespero desesperado também.

Posso parecer pessimista, mas não tenho encontrado muitos motivos para ser otimista bem antes do Coronavírus “começar essa turnê mundial”.

A fome e a desigualdade, doenças bem mais antigas e com a “cura” descoberta há bastante tempo, seguem com o número de “infectados” e mortos em crescimento acelerado e sem perspectiva de achatar a curva. A tecnologia e a economia, há tempos, caminham para um mundo onde as pessoas não serão mais essenciais, um mundo onde só será possível ser extremamente rico ou absolutamente miserável (senão morto). Na política, as coisas já não andavam bem há tempos, e nem estou falando só do Brasil. Ideias fascistas florescem por todos os cantos do mundo e tentam ocupar as narrativas também na pandemia.

Por outro lado, a pandemia obrigou muitos políticos e economistas liberais e neoliberais a pedir arrego nas ideias da esquerda: a renda mínima, a saúde pública, a intervenção do estado passaram a fazer parte dos discursos em Washington, Londres, São Paulo, Wall Street, Canary Wharf e até na Avenida Paulista.

Tem gente apostando todas as fichas no caráter revolucionário do vírus. O mundo tal qual o conhecemos estaria com os dias contados e o capitalismo não sairia ileso da pandemia. É certo que as coisas vão mudar, mas eu tremo só de pensar em como o capitalismo pretende se reinventar para surgir ainda mais cruel quando o vírus deixar a gente voltar às ruas.

Daqui de dentro de casa, tenho visto governos e grandes empresários varrendo sorrateiramente os direitos humanos para o ralo. Políticos corroendo a renda dos mais pobres e garantindo o lucro dos mais ricos, gestores usando, naturalmente, os dados dos nossos telefones celulares para vigiar se estamos saindo de casa, líderes mundiais sugerindo que os testes de vacinas sejam conduzidos na população africana, presidentes de bancos pedindo paciência aos famintos que esperam o dinheiro para comprar comida.

Daqui de dentro de casa, não enxergo saídas humanas para isso tudo. Mas enquanto eles tramam o fim dos seres humanos, temos tempo de sobra para pensar e agir, de dentro de casa, pelo fim do mundo como eles querem.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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