OPINIÃO

Pra você, que não quer existir: resista!

Se você não queria nem acordar nesse novo ano, assim como eu e muitos outros brasileiros, te dou agora uma missão: não apenas leia esse texto, mas escreva outros, de preferência melhores.

Não somente compartilhe ou copie e cole, mas sinta a necessidade de se fazer vivo, aqui e agora, em palavras suas, que, muito provavelmente mais do que as minhas, terão o poder imenso de tocar alguém de verdade, de mostrar que você compreende aquela dor, de amenizar toda a angústia e cansaço, e até de provocar essa pessoa extraordinária a resistir e ir além.

Esteja certo de que a vontade de não viver 2019 não é só sua. Mas é exatamente por isso que precisamos reagir. Afinal, o ano já começou, com todas os seus absurdos, que, para alguns, acontecem tranquilamente, sob o silêncio hipinotizante da escrita de uma caneta bic, como se esse simples gesto fosse mesmo capaz de colocar todo um país nos eixos.

Enquanto isso, as pessoas que pensam diferente (e por isso só já são chamadas de ameaça comunista ou acusadas de torcer contra) seguem esmagadas pela realidade, muitas vezes paralisante, o que provoca esse sentimento tão humano que é “não querer existir”.

Não é de hoje que esse país tem perdido pessoas extraordinárias, porque tudo ao redor parece pesar (ou pesa mesmo) intensamente a ponto de a dor se tornar insuportável e, num desatino, acaba os levando da gente.

Fato é que se não fizermos nada a respeito, se não falarmos sobre esse sentimento comum a muitos brasileiros, então o mundo todo perderá a possibilidade de um dia ser extraordinário, também. Porque não restarão mais pessoas assim pra transformar a realidade.

Mesmo indo contra correntes que acreditam que falar a respeito pode estimular novas perdas, ouso escrever agora, pensando em todas as pessoas extraordinárias que não estão mais aqui porque vítimas de um mundo ordinário e esmagador: o filho único de uma grande amiga, o ex-marido e pai dos filhos de outra, e, mais recentemente, o irmão de um amigo.

Não posso imaginar a dor de quem fica, mas acredito (mesmo sem saber, ao certo, se eu conseguiria) que precisamos entender (e perdoar) a dor de quem resolve partir, até para podermos fazer algo a respeito. É preciso assumir, acima de tudo, que essa é uma vontade completamente humana e que certamente já passou pela cabeça de muita gente..

Eu mesma já quis não existir, em inúmeros momentos de grande sofrimento. A primeira vez foi com apenas 13 anos, e, naquele tempo, não havia “jogo da baleia” ou a famosa série “Thirteen Reasons Why”. Por isso mesmo, assim que surgiram o tal jogo e a série, quis conversar com minha filha a respeito.

Marina tinha 11 anos quando casos entre adolescentes começaram a ser atribuídos unicamente a esses fatores. E para acabar com a curiosidade dela sobre o assunto, lembro que assistimos juntas aos episódios daquela série.

Mas antes, comecei dizendo a ela que eu já havia sentido essa vontade e perguntei se ela também já quis não viver. Pergunta simples, mas de respostas complexas e que, acredito, nenhuma mãe tem muita coragem de fazer. E me surpreendi quando ela disse que já tinha sim tido essa vontade.

Fomos comentando cada situação da série, até ficar claro que não havia culpa de ninguém, e que a decisão de acabar com aquela dor coube unicamente àquela menina, extraordinária, num momento de desespero, desatino.

Mas a vida de cada um seguiu. Não do mesmo jeito, claro. “Acho que cada pessoa que passa por uma perda dessas carrega uma sensação de que poderia ter feito alguma coisa, né?”, perguntou Marina.

Foi quando me lembrei de tudo que minha vontade de não existir poderia ter me feito perder e, pior, poderia ter alterado pra sempre a vida de tanta gente, e até a existência da minha filha… Quis logo revelar meu pensamento pra ela, como se o meu exemplo pudesse fazê-la entender que tudo passa e precisamos acreditar nisso.

Mas nem sempre é fácil, não é mesmo? E hoje, lembrando de todos que seguiram em frente na vontade de não viver, penso que gostaria de ter respondido pra Marina que, pra quem fica, carregar essa sensação deve ser mesmo devastador, mas que, talvez, fazer alguma coisa pelas demais pessoas extraordinárias que estão aqui, incompreendidas, possa ajudar sim.

E ainda mais em 2019, com suas garras de intolerância, discriminação, racismo, desesperança… Poderia citar mais centenas de desassossegos que estão por vir, mas cada um deles me servem de estímulo para, nesse despretensioso texto, convocar você e todas as outras pessoas extraordinárias a cometerem a incrível subversão de viver e resistir, para transformar essa realidade, até que o amor tome de assalto mesmo quem hoje insiste em nos esmagar.

Bora lá?

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