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Prazer, Paneloviski: o exército de um homem só

Cenas do cotidiano e relações de amor e amizade rendem boas histórias nas mãos de Marcelo Tavares. O escritor potiguar, de 44 anos, recebeu dos amigos o apelido Panela e na internet é conhecido (e como é) por Paneloviski, uma brincadeira inspirada nos gênios da literatura russa. Já são 152 mil seguidores na fanpage do Facebook e 40,6 mil no perfil do Instagram, principais redes usadas para divulgar suas minicrônicas e os produtos que vende.

Paneloviski se transformou em uma marca. E é esse o trabalho de Marcelo. As camisetas com frases autorais, vendidas para todo o Brasil, são o carro-chefe. Quinze modelos já foram produzidos e são um modo de fazer com que os textos paguem as contas do autor, que está com a segunda edição do seu primeiro livro no mercado.

“Paneloviski”, de Marcelo Tavares, foi publicado em 2016 pela Editora Fortunella, que é também parceira do mais novo projeto, um livro interativo que recebeu o título de Diário Poético e está com uma campanha de financiamento coletivo aberta até o dia 03 de outubro. A Fortunella também vai ser responsável pelo livro inspirado na série “Sexta da Sensualidade”, com lançamento previsto para 2019.

Ao arrumar os óculos no rosto para uma foto, Marcelo diz que precisa mudar as lentes. “Não troquei ainda esses óculos porque faltou o dinheiro. Essa é a realidade do artista brasileiro”, comenta naquele tom de quem brinca falando a verdade para lembrar sobre o financiamento coletivo.

Placas, quadros, canecas e blocos de anotações por vezes também são produzidos pela marca de um homem só. “Quando dizem ‘eu gosto muito do trabalho de vocês’ no plural, eu queria tanto que fosse verdade”, ri.

O autor já produziu quinze modelos de camisetas com frases autorais.

A literatura sempre esteve presente na produção de Marcelo Tavares, mas somente em 2014, com a criação do Paneloviski, ganhou papel principal na vida do jornalista formado pela UFRN. Em 18 anos de estrada, trabalhou em jornal impresso, em assessoria de imprensa, incluindo campanhas eleitorais, e em agências de publicidade como redator e social media. Nesse período teve dois blogs, “Memórias de um magro” e “O que mais ninguém vê”, atualizado até 2013.

Além disso, batizou e foi um dos fundadores do Guia Cultural Solto na Cidade. “A ideia criei ainda na universidade, em 2000. Na quinta-feira à noite, de madrugada (porque a internet era mais barata nesse horário), mandava como mala direta pra galera, por minha conta, uma lista com os eventos. Fazia o que o Solto fez só que de forma artesanal”, conta, lembrando que foi em 2008 que o Solto na Cidade nasceu como guia cultural, em parceria com os amigos e colegas de profissão Anne Caroline e Itaércio Porpino.

A publicação virou saudade e orgulho de quem passou por lá. Panela arrisca dizer que foi o único guia cultural que Natal teve. “Eu acho que a gente fez história. É tanto que depois que acabou não apareceu nada. Completo como aquele, nenhum. Só uns arremedos de blog. Eu me pergunto onde as pessoas veem a programação”, diz.

O guia lidera o ranking de melhor trabalho jornalístico para Marcelo: “Se eu fosse escolher um trabalho onde eu estaria hoje seria o Solto. Tinha trabalho, mas não tinha aquela pressão. Todo mundo era amigo, o clima era bom, e fazia o que a gente gostava, que é Cultura”.

Foi também o ritmo acelerado do jornalismo que o afastou. Panela aprimora aquilo que faz com cuidado. Pressa e pressão não combinam com seu modo de produzir. Ele funciona em uma frequência só dele e muito mais durante o silêncio da madrugada. De preferência na companhia de Shazan, um “vira-lata puro”, de 12 anos de idade. “Se o mundo tiver que ser salvo de manhã, eu não vou salvar, porque estarei dormindo”, alerta.

Em casa, fazendo o que gosta, mas com muito trabalho. Outro ponto do processo criativo para o qual Panela chama atenção é o mito da inspiração. Ele diz que tem que acabar com a história de inspiração, porque ela corresponde só a 10% do trabalho. Os outros 90% são de transpiração.

Ficção e fragmentos de realidade se misturam. Uma fala, uma música, uma imagem, conversas com amigos podem ser insights para começar os textos. Mas o rigor com a escrita e com os temas ficam com todo o resto do trabalho.

Mulheres são 87% do público leitor de Paneloviski nas redes sociais.

Universo feminino

Durante a produção, um fato importante a ser considerado é o público leitor das páginas. Pela métrica da rede social, Marcelo sabe que a maioria (87%) é de mulheres. (Uma delas – Alyne – se tornou especial e sua namorada há pouco mais de um ano).

Daí nasce a preocupação em como abordar questões sobre o universo feminino. Segundo ele, a apreensão aumenta de forma proporcional ao crescimento da página e da luta das mulheres pela igualdade.

“Uma das maiores dificuldades é escrever para a Sexta da Sensualidade. Se eu não tivesse esse cuidado seria contraditório e não teria a quantidade de mulheres que me seguem”, conta, lembrando que ficou um pouco surpreso quando reuniu o material para o livro e o editor apontou que a maioria exprime o feminino.

Panela acredita que em parte isso se deve à vida familiar, cercada por mulheres. Foi criado em uma casa com o pai, a mãe, a avó, uma tia e duas irmãs: cinco mulheres. A isso atribui um olhar mais sensível. Não no sentido que se aproxima à fragilidade, mas sim da receptividade.

“Na verdade, não sei se essa relação tem sentido. Não sei se é do lado feminino ter uma visão mais poética, menos seca e direta das coisas. Mas em algum momento essa carga feminina da minha casa deve ter influenciado em alguma coisa”, aposta.

Panela continua a conversa dizendo que se no lugar das irmãs fossem dois homens talvez visse graça em “piadas” das quais nunca riu.

Mas para além do cuidado com as leitoras, ele diz que procura sempre não ferir ninguém, nem classes, nem cores. A palavra “morena”, antes tão presente nas crônicas, nunca mais apareceu, desde que alguém lhe disse que o termo representa negação da identidade negra. Ele próprio diz que não sabe a cor que tem, nem quantos tons incluem um “pardo”. Apesar disso, procura não falar diretamente sobre política.

Em 2019, a editora Fortunella deve lançar livro da série “Sexta da Sensualidade”, de Marcelo Tavares.

Posição política: de boa vizinhança

Marcelo acredita que seus textos leves funcionam como uma fuga do caos neste ano de eleições e polarização partidária. “Acho que quem vai lá buscar os textos não merece entrar nesse turbilhão. Hoje é só política, ninguém coloca uma música, um filme”, pondera, dizendo que quando quer se expressar de forma partidária faz isso em seu perfil pessoal.

Dessa forma, o autor não se envolve em maiores “tretas” e mantém a imagem paz-amor-e-cerveja que cultiva nos meios real e virtual.

Também por isso evita emitir opiniões sobre textos de outras pessoas, tarefa para a qual é bastante requisitado. “Muita gente quer apenas aprovação, não contestação. Peço desculpas e digo que não gosto de opinar”.

Até de imbróglios sobre relacionamentos afetivos ele foge. Nem adianta pedir pra fazer texto pro ex, pra amante, namorada do amigo, marido da colega. Se for pro crush, pior ainda, porque ele odeia essa palavra – nome de refrigerante com tampinhas premiadas. No máximo, ele vai ouvir/ler as histórias que lhe chegam.

“Eu não dou conselho, mas fico escutando as pessoas. Dor de amor é só o que eu recebo. Na Sexta da Sensualidade uma moça disse ‘Panela, me ajude, eu acho que vou morrer’. Eu perguntei: Tem tequila aí?”.

Quem sabe no Bar do Seu Elias tenha tequila além das cervejas que Marcelo narra. É um lugar que de vez em quando aparece nas histórias e que várias pessoas pensaram ser de verdade, chegando a perguntar o endereço. Um lugar ideal onde os amigos se encontram depois do expediente, com várias tribos reunidas e onde ninguém se preocupa com o que o outro veste. Cerveja gelada, garçom conhecido, samba antigo, “ponto de chegada e de partida de pessoas e relações”.

Esse bar também representa o poder que os textos de Paneloviski exerce pra quem acompanha as publicações e adquire seus produtos, uma familiaridade criada na imaginação de quem aceita diariamente a poesia que Marcelo relutou em nomear assim. Por muito tempo ele recusou o título de poeta.

“Imediatamente eu dizia: sou jornalista, escrevo minicrônicas. Depois de um tempo eu desisti”, conta, acreditando que limitar poesia a uma estrutura literária de versos – que não é seu gênero preferido – não corresponde ao verdadeiro significado da palavra.

“Há poesia em tudo, nas artes plásticas, na música, no teatro. Eu comecei a pensar em uma coisa maior. Então, há poesia dentro dos meus textos, no sentido de haver leveza, de tocar as pessoas. Eu decidi chamar prosa poética o que faço”, sentencia.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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