OPINIÃO

Precisamos falar sobre os eleitores e eleitoras de Bolsonaro

Bem, sabemos todos que o Governo Bolsonaro é uma confusão completa e que entre tantas trapalhadas e suspeitas, mais a investigação em cima de Flávio e o papelão em Davos, tem tudo para naufragar, taokei? Portanto, não faltariam prismas por onde olhar, analisar e criticar o “mito”. Porém, não é dele que vamos falar, mas sim, dos eleitores dele.

Não falo sequer dos apoiadores, que passam dia e noite nas redes sociais com hastags tipo #cholamais e #B1, nem dos fanáticos chamados bolsominions, que defendem até o indefensável, mas sim dos 57.797.456 (55,13% dos que foram votar) de brasileiros e brasileiras que no dia 30 de outubro passado escolheram votar nesse senhor de 63 anos, deputado federal sem brilho do Rio de Janeiro, embora paulista de Campinas.

Na política desde 1990, quando foi eleito pela primeira vez deputado federal, Bolsonaro sempre frequentou o que se chama de “baixo clero” da Câmara e se notabilizou justamente pelos defeitos: posições agressivas contra população LGBTs, mulheres, negros, minorias étnicas e maneira sempre truculenta de falar. Aproveitando o desgaste sofrido pelo PT (com apoio explícito nessa tarefa de parte da mídia e do Judiciário) e a ascensão do conservadorismo no Mundo, Bolsonaro acabou viabilizando seu nome a presidente, mas aí é uma outra história. Voltemos aos eleitores.

Na pré-campanha, Bolsonaro sempre aparecia nas pesquisas de opinião gravitando entre 10% e 15%. Que era o total de brasileiros que concordava com seu discurso totalitário, misógino, racista e machista, presumia-se. Um décimo da população que, afinal de contas, se identificava com ditadura militar, totalitarismo, segregação e ideias fascistas, percentual parecido com o de muitos outros países, principalmente europeus. Bolsonaro não passaria além desse percentual, pensava-se.

Contudo, a campanha ofereceu surpresas. O PT se viu às voltas com a estratégia de “transferir” os votos de Lula, preso, para um capacitado, mas desconhecido, Haddad. Ciro Gomes brilhava nas redes, nos vídeos e entre os jovens de classe média, mas, na prática não crescia nas pesquisas nem invadia os redutos lulistas. O tucano Geraldo Alckmin, aposta maior da grande mídia e elite econômica, se viu apanhado entre as contradições e erros do partido e sua própria falta de carisma. Outras candidaturas de Esquerda e de Direita, como Guilherme Boulos e João Amoedo, encantavam as respectivas militâncias, mas não chegavam “no povão”.

Dessa maneira, Bolsonaro foi crescendo nas pesquisas. Tanto com o voto dos conservadores que desejavam votar em Alckmin, Meirelles e Amoedo mas não queriam “deixar o PT ganhar de novo”, como com o voto de ex-eleitores de Lula, tanto os ressentidos com o partido, como os que votariam no ex-presidente, mas sem ele na disputa, identificaram melhor a “mudança” que Lula representa a Bolsonaro do que, paradoxalmente, a Haddad, candidato de Lula.

Dessa forma, somando na conta a facada (suspeita, mas, enfim, que mudou a história da campanha), Bolsonaro sem maiores dificuldades (e sem participar de debates) chegou ao fim do primeiro turno com uma quase vitória, que confirmou no segundo turno sem maiores sustos.

Voltemos ao que interessa nesta texto, os eleitores: Como já dito aqui, o “mito” venceu com 57.797.456 votos. Todas essas pessoas são, digamos, fascistas/racistas/homofóbicas/machistas? Todos esses e essas votantes concordam com todas as bandeiras, digamos, que ele defende ou com os ataques deles a grupos de pessoas?

Sabemos que não. Da mesma maneira que os milhões de pessoas que votaram em Lula dando ao petista vitórias em 2002 e 2006 não necessariamente concordavam com todas as bandeiras defendidas pelo PT ou com as pautas que Lula apresentava.

Há muitas razões para os eleitores e eleitoras terem votado em Jair Bolsonaro para além da simpatia pelo fascismo  e visão do mundo representadas por ele. De um “efeito onda” ou “efeito manada” até a questão básica da Segurança (e a sensação de que ele poderia resolvê-la rapidamente), passando pelo evidente sentimento antipetista, são diversas as razões, que poderemos explicitar e esmiuçar em um outro texto.

Se concluímos que todos os 57.797.456 de eleitores e eleitoras não são necessariamente fascistas, é tolice e ingenuidade tratá-los todos de uma mesma maneira ou classificá-los em uma balaio apenas.

Claro que podemos tratar com certo desprezo e sentimento de superioridade o bolsominion de 18 anos que escreve chavões em um português quase incompreensível. Mas, podemos chamar de bolsominion aquela senhora do mercadinho da esquina que viu seu estabelecimento ser assaltado cinco vezes e sonha com mais segurança?

Por outro lado, se chamarmos, diretamente ou através dos famigerados memes TODOS os 57.797.456 eleitores de Bolsonaro de imbecis, idiotas, jumentos ou adjetivos similares, estaremos fieis à verdade? Não existem eleitores de Bolsonaro doutores com louvor ou empresários bilingues e empreendedores. Colocá-los na vala comum de quem faz algo por burrice não é uma maneira de minar qualquer possibilidade de retomar um diálogo com eles? E se alguns deles quiserem hoje um diálogo?

Enfim, precisamos falar sobre quem votou em Bolsonaro. E parar de achar soluções fáceis em um contingente que uniu mais de 50 milhões de nascidos nessa terra descoberta (ou não) por Cabral.

Como precisamos também falar sobre a postura dos militantes de Esquerda de em vez de procurar o diálogo com quem se arrependeu ou está desconfiado do voto em Bolsonaro, prefere tripudiar em cima da desilusão alheia e brincar de “Eu avisei”. Vingança pode ser um prato bom de comer e aliviar a alma, mas não ajuda a conseguir apoio e votos para quando das eleições municipais de 2020 e a delicada eleição presidencial de 2022.

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