CULTURA

Prédio do Museu Nacional foi doado a D. João por traficante de escravos

Por Laurentino Gomes, escritor

Depois de uma noite mal dormida, de conexões perdidas numa viagem internacional, acordo em Lisboa com a notícia da morte, num incêndio pavoroso, do nosso Museu Nacional. Suas ruínas serão doravante um cartão postal das nossas mazelas.

Abandonado, desleixado, com um acervo rico porém esquizofrênico, pouco acolhedor para quem se animassem a visitá-lo, o Museu Nacional era um símbolo do que nos tornamos nos últimos anos, uma caricatura do que gostaríamos de ser e e nunca fomos.

O prédio histórico, na Quinta da Boa Vista, testemunhou alguns dos eventos fundadores do Brasil: a chegada da corte, em 1808; a Independência, em 1822; a abdicação de D Pedro I, em 1831; a Proclamação da República, em 1889.

Situado num palácio imperial, tinha vocação para Museu Histórico, mas virou Museu de Ciências Naturais. O acervo era confuso e pouco didático, entregue aos maus cuidados de funcionários e curadores burocráticos, sem inspiração e entusiasmo. Nunca foi, de fato, um museu bem amado.

O Museu Nacional era também um símbolo do toma-lá-dá-cá na história política brasileira. O prédio original foi um presente de um grande traficante de escravos, Elias Antonio Lopes, ao principe regente D João no dia da chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808.

Em retribuição pelo generoso presente, o negociante de escravos Elias Antonio Lopes seria um dos homens que mais se enriqueceria e ganharia títulos e honrarias nos treze anos da corte portuguesa no Brasil.

Duzentos anos mais tarde, o mesmo toma-lá-dá-cá na política brasileira, que marcava a história do nosso Museu Nacional, seria também o veneno que o matou, vítima das negociatas e da irresponsabilidade de seus gestores em Brasília. Como se fosse um defeito no seu DNA original.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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