OPINIÃO

Presença de Anitta

João Victor escreve aos sábados

Os olhares sobre o funk carioca nunca foram de unanimidade, o asfalto apesar de dançar a batida, sempre teve dificuldades de entender a relação de identidade que a periferia tem com o ritmo.  A abertura para falar sobre sexualidade, relatar a vida na periferia e exaltar o cotidiano para além dos limites da formalidade sempre chocou moralistas e oportunistas de plantão. Não à toa surgiu no Congresso Nacional um projeto para criminalizar o ritmo, sob desculpas de proteção da família brasileira.

Ao lançar seu mais novo vídeo, “Vai Malandra”,  Anitta volta para o funk, mas  está longe de se importar em criar uma cara “pasteurizada”, socialmente aceitável,  para o ritmo. Poderia fazer um melody,  de letra suave para ser digerida de maneira tranquila pela Zona Sul. Preferiu fazer funk mais próximo do que o ritmo sempre foi. É justamente voltando para essas origens que a cantora deu seu xeque-mate.  Exaltando os aspectos reais da vida em uma periferia, lugar de onde ela também saiu, construiu presença inconfundível num vídeo que transforma até mesmo clichês da música pop, em elementos comuns e possíveis naquele retrato da realidade.

Horas depois de lançar o vídeo foi acusada de fazer apologia da pobreza e da criminalidade. Algo que expõe muito mais o preconceito de quem assistiu do que as intenções da cantora com seu trabalho. O moralismo distorce o conceito de apologia como algo que precisa ser combatido por exaltar ilegalidades ou imoralidades. O vídeo mostra as pessoas, muitas delas do próprio Morro do Vidigal,  celebrando aspectos da vida na comunidade. Isso não é ser apologético, não é imoral ou crime existir na pobreza, nem muito menos exaltar essa existência.  Além disso,  o vídeo não mostra nenhuma  atividade ilegal, afirmar então que ele reforça um contexto de criminalidade só deixa claro um olhar distorcido e um preconceito visceral contra a favela e as pessoas que moram nas comunidades.

Os ricos e a classe média sempre celebraram uma construção de música popular que expressa a vida em seus lugares. Com a tranquilidade e os belos acordes de violão cantavam sobre chuvas de verão, barcos no oceano, sobre as mulheres que amaram e os homens que traíram. Sem pedir licença, e sem necessidade de consultoria sobre o que aceitável ou não, as pessoas que tiveram uma outra formação discursiva não deixaram de construir cultura e consumir cultura. Criaram a sua própria, falando sobre si da maneira que querem e sabem falar. Nada mais original que isso.

Essa inventividade, feita em estúdios sem grandes recursos, revoluciona a música brasileira. Como não entender como genial, por exemplo, o funk de MC Fióti, que rompe qualquer conceito elitista de hierarquização de cultura, ao misturar suas batidas de BumBum Tam Tam  com um  trecho de Partita em Lá menor, peça de Johann Sebastian Bach para flauta solo. Nada é sagrado no funk, e isso é maravilhoso.

O ritmo,  que  agora ganha a chance de ser consumido em escala global, apresenta, mesmo com tanta mistura, uma música genuinamente brasileira. Música nascida na diversidade e que celebra ela em todas as suas batidas. Apesar dos moralistas, o funk mostra-se disruptivo aos seus críticos, se impõe e vai tomando seu espaço. Incluindo pela música e pela cultura, o que o país ainda insiste em excluir em  tantas outras frentes. Atura ou surta?

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Jornalista e militante de direitos humanos