CULTURA

Pretta Soul exalta orgulho e poder negro em novo álbum

“Pele, cor, corpo, pele”. Com versos que unem presente, passado e reclamam um futuro, a rapper potiguar Jéssica Mayara, conhecida artisticamente como Pretta Soul, abre seu primeiro álbum solo: “Poder Preto”. Dez músicas autorais celebram o aniversário de 30 anos de Pretta. Trazem, como é natural do estilo, letras politizadas firmadas no lugar de fala da mulher que é preta, de família pobre, nordestina e brasileira. O disco foi disponibilizado integralmente no canal da artista no YouTube na última sexta-feira, 30, e a pré-venda do CD já foi iniciada com edição limitada a 200 unidades pela página do Instagram @prettasouloficial84.

Em “Só quero o que é meu”, primeira faixa, a rapper adianta que não veio se curvar, veio para falar o que as muitas gerações antes e atuais a ela não tiverem oportunidade de fazer. Além de Pretta, a música leva assinatura de outras três artistas mulheres: Iyalê, Laisla Cruz e Gabriella Silva. A canção exalta a figura da mãe que cria os filhos sozinha e pauta a educação para desconstrução do machismo.

Quem tem acompanhado o reality show global Big Brother Brasil 21, viu, há cerca de um mês, quando a digital influencer Camilla de Lucas foi aos prantos, ao vivo, dizendo estar cansada de explicar o que seria racismo. O episódio ocorreu após comentários, no mínimo, problemáticos, do participante Rodolfo Matthaus que comparou uma peruca de homem das cavernas com o cabelo do professor João Feitosa, também participante do programa. O sentimento de Camilla e João é compartilhado também na música de Pretta, sobre quem cansou de pedir respeito e vai cobrá-lo do próprio jeito.

Em Raízes, segunda faixa, a rapper traz o movimento dos povos originários e lembra que enquanto se catequizava indígenas, as terras das aldeias eram roubadas. Nada mais atual para uma artista pertencente ao único estado brasileiro que não têm, até a data de publicação desta matéria, uma só área indígena demarcada.

Rotina, vivências e lutas contra o sistema

Em “Poder Preto”, canção que dá nome ao álbum, Pretta esclarece que 1888 não a libertou. Mesmo assim, exprime orgulho da própria negritude e canta que, se pudesse escolher, seria negra novamente. A sequência ainda fala de Nordeste, violência policial, lembra que vivemos em um país genocida, corrupto, machista e genocida novamente, mas não há intenção de arredar um só passo na luta contra as diversas violências sociais. Há ainda citação ao mulherismo, movimento de incidência contra opressão patriarcal, de classe e de raça conferidos a mulheres negras.

“Poder preto vem baseado na luta do povo preto, das mulheres, do favelado, do sistema genocida e, principalmente, de uma guerreira que mudou o seu destino e seguiu carreira na área artística de sua cidade, com a ideia de levar sua música a quem precisa. Cada composição é baseada na minha rotina diária, das vivências e das lutas contra o sistema, o racismo e o machismo”, conta Jéssica que revela ter escrito algumas das músicas durante a pandemia de coronavirus, iniciada em março de 2020 no Brasil.

Jéssica conheceu o Hip Hop ainda criança. Aos 13, aproximou-se do rap e, de lá pra cá, já participou de vários grupos. Junto a isso, aprendeu a fazer tranças sozinha, assistindo vídeos na internet, atividade que também realiza profissionalmente no Studio Aruandê. Em todas as vertentes, trabalha tanto a auto aceitação da identidade negra como colabora no processo pessoal e inserção artística de outras mulheres.

“Eu também estou no meu momento de aceitação e de desconstrução do racismo estruturado. Então, tudo que aprendo vou repassando e mostrando a nossa história real que não é contada nos livros. A melhor coisa que tem é ver mulheres pretas empoderadas, donas de si, valorizando suas raízes tanto na fibra capilar como nas suas histórias de vida”.

Em “O jogo virou“, última faixa do álbum, Pretta reclama o espaço feminino no rap potiguar. À Saiba Mais, ela explica que o movimento, em Natal, também é alvo preconceito enfrentado desde os primeiros anos do movimento Hip Hop, que tem origem na Jamaica, país da América do Norte, mas se popularizou nos EUA, na década de 1960.

“As pessoas acabam marginalizando um movimento social que atua nas comunidades resgatando crianças e adolescentes de um mundo criminal só por não ter a noção da importância da cultura nas nossas vidas”, reclama. Além disso, segundo a rapper, dentro do próprio movimento, falta abertura para a entrada de mulheres.

“Como um tudo, a mulher sempre teve a dificuldade de ter a liberdade de fazer o que quiser. No Hip Hop não seria diferente, né?! É uma cultura machista, mesmo tendo uns que tentam se desconstruir e entender que, estamos ali pelas mesmas causas e não vai ser o gênero que vai dizer quem pode e quem não pode. Onde, na verdade, é uma cultura que luta contra sistema, e pela inclusão da população preta periférica”, explica.

Ainda assim, Jéssica se orgulha do primeiro álbum solo que diz ser a realização de um sonho após mais de 15 anos de atividade artística intensa que continua transformando a vida dela.

“Não só a música, a cultura no geral mudou a minha vida. Sou cria de comunidade e, como muitos sabem, as oportunidades são diferentes, os acessos a outros meios de vida ficam mais fáceis. A música entrou na minha vida pra revolucionar o meu caminho e me mostrar um “novo mundo”. Não me imaginava chegar aqui, mas era tudo que queria. E como uma boa taurina cheia de atitude e teimosia, insisti sem olhar pra trás. Estou vivendo cada momento aguardando o que o futuro reserva”, conclui.

O disco Poder Preto foi produzido com recursos da Lei Aldir Blanc Natal. Participam do álbum os músicos: Jonathan Mysack (Guitarra), João Felipe Santiago (Baixo e Guitarra), Kleber Moreira (Percussão) e Laisla Cruz (Backing vocal).

Amém Ore, Tiquinha Rodrigues e Chico Bethowen, fazem feat em Raízes, Nordeste e Por Amor respectivamente. A poética de Iyalê Oyá abre o CD em “Só Quero o Que é Meu”, a faixa título tem as participações da cantora Analuh Soares no backing e do experiente DJ Alf nos scratchs. Wagner Bagão, conhecido como Dubalizer, assina a mixagem, masterização e alguns dos beats inseridos durante o processo criativo do CD. A produção musical é do técnico de gravação João Felipe Santiago e a produção executiva de Marcelo Veni e Pretta Soul.

“Poder preto vem baseado na luta do povo preto, das mulheres, do favelado, do sistema genocida e, principalmente, de uma guerreira que mudou o seu destino e seguiu carreira na área artística de sua cidade, com a ideia de levar sua música a quem precisa.

Jéssica Mayara, a Pretta Soul

 

Rose Serafim é repórter do Programa de Diversidade nas Redações realizado pela Énois – Laboratório de Jornalismo, com o apoio do Google News Initiative”.

 

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