OPINIÃO

Primeiro o raio, depois a luz!

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Minha amiga Sandra tinha acabado de chegar em São Paulo, logo depois que se formou em Direito. Conversavam no escuro, enquanto ela tentava dançar e ele, interferindo no ritmo, tentava saber mais sobre a Sandra, mesmo sob seus protestos iniciais deixando claro que só queria mesmo dançar, de boca e olhos fechados, sem nada dizer. Mas insistiu e, por não querer parecer grosseira, em dado momento decidiu até falar.

Disse que se chamava Sandra e perguntou o nome do “carinha que tentava impressionar”. Respondeu “Souza”, mas ela entendeu que esse era o sobrenome e logo questionou porque preferia se apresentar como Souza, quando provavelmente o prenome não havia de ser este. Revelou que se chamava Eufrásio, sem precisar, com isso, justificar o uso do Souza. Como se jamais tivesse escutado o nome Eufrásio, passou a chamá-lo de Souza.

Era final da noite, e a música consumiu as energias de Sandra a um ponto que Souza não pôde experimentar dela nada além de um selinho. A promessa de mais ficou guardada junto com o número de telefone que acabou passando, movida pela pergunta de sempre: e porque não?

Acontece que Souza estava ansioso por mais e naquela mesma semana resolveu ligar. Era um tempo em que as pessoas precisavam fazer esse esforço sobrehumano de ligar, de verdade, quando havia qualquer interesse. Combinou um cinema e ela se adiantou dizendo que preferia buscá-lo em casa, de carro. Imaginava que, se não pintasse um clima legal com Souza, poderia fugir no seu próprio carro a qualquer momento.

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Chegou no horário marcado, com seu velho fusquinha de tantas guerras. Mal sentou no banco do carona, percebeu o farol esquerdo apagado, em uma época em que se andava tranquilamente sem cinto de segurança e não havia essa preocupação toda em evitar beber antes de dirigir. Chegando no sinal, depois de advertir Sandra do perigo de andar por aí sem um dos faróis, flagrou uma colisão de uma moto com outro carro.

Estavam em cima da hora da sessão, mas ele resolveu ajudar. Fez Sandra parar no acostamento e desceram para tentar resolver o problema dos outros, que acabara de virar deles. Foi aí que contou que era policial, espécie por quem Sandra nunca teve atração alguma. Mas ela achou bonita a preocupação dele com aquelas pessoas que acabavam de se acidentar. As expectativas aumentaram, e, depois de ajudarem o casal do acidente, que estava na moto, voaram para o cinema, ávidos pela segunda experiência de estarem lado a lado, no escuro…

Entraram com certo atraso. O filme já havia começado. Sentados, braços querendo se encostar, ela só conseguia imaginar que o clímax daquela história estava na expectativa do beijo, dessa vez com uma vontade mais profunda e cultivada por dias.

Pegou na mão dele, buscou amparar sua nuca na outra mão, e encostou levemente seus lábios nos dele. Mas sabe quando nada encaixa direito? Enquanto ela buscava levemente os lábios dele, Souza buscava engolir Sandra ferozmente, e parecia ter umas oito línguas consumindo todo e qualquer espaço até as amígdalas dela, sem a deixar experimentar a possibilidade de sua língua também participar dessa dança.

Estava há algum tempo sem ninguém e, mesmo diante dessa péssima segunda primeira impressão, do beijo endoscópico, que a alertava a não seguir adiante, achou que valia tentar ver como seria a transa. Depois do filme, seguiram para a casa dele. Mal chegaram, ele foi tirando a roupa dela com tanta voracidade quanto invadiu sua boca, sem qualquer cerimônia ou preliminar.

Não demorou muito, estavam em um colchão, no quarto, onde ele a colocou de quatro. A coisa toda não durou mais do que cinco minutos, sem tempo para que ela se desse conta se estava bom ou ruim. Talvez até antes de cinco minutos, ele gritou algo inusitado, que é até hoje uma incógnita para Sandra e me motivou a escrever essa crônica, por mais reveladora que ela fosse: “Primeiro o raio, depois a luz!!!”, o policial Souza disse, em voz alta, ao gozar quase no mesmo segundo em que penetrou nela.

Os minutos que se seguiram foram igualmente estranhos e constrangedores, porque ele se vangloriava de que haviam feito um sexo muito bom e que estava feliz por ela gostar de sexo tanto quanto ele. Enquanto ele se gabava, Sandra só conseguia imaginar que, ainda que o beijo e o sexo não tivessem lhe dado qualquer satisfação, aquele grito de guerra não sairia da cabeça dela, se eternizando como a coisa mais inusitada já dita ou escutada durante o gozo.

Passou os dias seguintes elocubrando qual havia sido a possível motivação de alguém gritar “Primeiro o raio, depois a luz!” ao gozar. Seria Souza membro de alguma seita? Estaria ele possuído? Teria chovido naquele dia a um ponto que a meteorologia pudesse servir de inspiração para tal feito? Mas ela lembra bem que não viu raio, nem percebeu a tal luz alardeada pelo policial, nem ouviu trovão ou mesmo sentiu a chuva na volta pra casa.

Ele então mandou flores. Uma orquídea amarela, que logo morreu, porque nunca foi muito boa com essa coisa de cultivá-las. Apareceu no dia seguinte no trabalho de Sandra, numa Halley Davidson, e ofereceu carona de volta pra casa. Ela não se impressionou com o modelo da moto, mas sim com o colete quadriculado que em nada combinava com a camisa listrada.

Talvez “primeiro o raio, depois a luz” fosse o nome de algum grupo de motoqueiros que apostassem quem gozava mais rápido lembrando sempre de bradar aquela frase, no final do ato. Chegou a pensar em perguntar pra Souza o motivo real daquele grito, mas as hipóteses que criava a cada minuto na sua cabeça pareciam mais interessantes do que qualquer possível realidade.

Ele bem que tentou, mas nunca mais voltaram a se encontrar em São Paulo depois daquela carona pra casa. Já “primeiro o raio, depois a luz”, seguiu Sandra até Natal, na primeira viagem de férias que fez. Mesmo que ela não tenha por costume revelar as intimidades das suas transas, como ele não era de Natal e a história ainda a intrigava, acabou contando para poucas amigas, mais próximas, na esperança de que elas soubessem me explicar porque caralho o camarada disse isso.

E não demorou para que nós todas começássemos a brindar, todas as vezes que bebíamos juntas, usando o bordão dito pelo policial. Estávamos num barzinho em Ponta Negra e ela acabara de contar a tal história pra gente, quando fizemos o brinde: “Primeiro o raio, depois a luzzzzzzzz!!!”

Acho que cerca de um minuto depois da brincadeira, alguém se posicionou atrás dela e fechou seus olhos, perguntando “adivinha quem é?” – não conseguiu identificar a voz masculina, mas mesmo que chutasse, jamais estaria preparada para a revelação que estava por vir. Era nada mais, nada menos, do que Eufrásio, ou o policial Souza, como gostava de ser chamado, com toda razão. Imediatamente falou: “Souza, ué? Tu não mora em São Paulo? O que te trouxe aqui? Que coincidência!” – enfim, muito mais frases do que ela deveria ter usado pra disfarçar aquela situação.

Até hoje não sabemos se ele ouviu ou não o brinde que fizemos, pouco tempo antes dessa abordagem. E duvido um pouco de toda a coincidência. De toda forma, até hoje, mais de 20 anos depois, Sandra segue consultando, desde o Google, os astros, os búzios, o que danado significa “primeiro o raio, depois a luz”, um gozo, que virou brinde e que agora virou crônica…

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