OPINIÃO

Procura-se Geraldo

A quarentena já se prolongava por mais de 120 dias, e o marido de Sônia, minha parceira do treino funcional no parque, já não comparecia desde antes dela iniciar. Dormiam em quartos separados, e, mesmo no aniversário de casamento, quando o sexo é quase que obrigatório, o prato servido foi guacamole, o que não contribuiu muito para que o resto se lembrasse da necessidade de endurecer naquela noite.

Ao me revelar esses detalhes, Sônia confirmava a falácia daquela máxima que até então as pessoas casadas insistiam em sustentar e que, pela propaganda, eu quase cheguei a acreditar: que durante a pandemia o jogo havia virado e que agora só as pessoas casadas é que transavam.

Na verdade, o novo coronavírus se tornara a perfeita desculpa para que o marido de Sônia, integrante do grupo de risco, aderisse ao tão desejado isolamento social, que afinal já exercia mesmo sem os riscos da Covid-19. Mas ele viu a oportunidade de realizar seu sonho de virar eremita na própria casa e agarrou, não com unhas e dentes (porque proibido, já que requer um contato íntimo), mas com máscaras e álcool em gel.

Ligava diariamente para Sônia, quando ela saía, para saber onde estava. Não era exatamente uma preocupação, mas uma necessidade de certificar-se de que a exposição da esposa seria suficiente para garantir mais tempo de distanciamento obrigatório. “O supermercado tá lotado? Tem muita gente aí?”, era o interrogatório que fazia, sempre com aquela doce esperança de resposta positiva. Chegamos a brincar com ela que, quando respondia que o local não tinha qualquer aglomeração, o marido logo sugeria que ela passasse em outro local mais movimentado, o que certamente era uma injustiça.

Porque ele tinha outras táticas infalíveis para ficar na sua paradisíaca solitária, quartinho bem menor que o do casal, mas separado dela, se essa, de transformá-la em ameaça constante, não funcionasse. Quando precisava manter a desculpa de risco mútuo que justificava o isolamento dentro de casa, ele mesmo não tomava, ao sair, os cuidados devidos, cometendo atos terroristas que iam desde abraços forçados em amigos distantes que encontrava no mercado até apertos de mão em desconhecidos após crises de espirro.

No início, ela se irritou com o comportamento dele e chegou a entrar numa paranoia de passar álcool em gel em absolutamente tudo, o que a fez ter um prejuízo de R$ 250 na compra de uma nova chave de carro, vez que a substância química inutilizou o alarme. Mas com o tempo, nada disso abalava Sônia, que decidiu aproveitar esse período de isolamento para se esparramar na cama de casal e dormir como nunca, sem o ronco do marido, sem que lhe roubassem o cobertor ou mesmo que fosse vítima de um furtivo chute ou soco que ele lhe desferisse em pesadelos (ou seriam sonhos?). E sim, ela agora conseguia até sonhar, todas as noites, e eram sonhos que se tornavam cada vez mais reais.

Foi na última segunda-feira que, empolgada com o sonho, Sônia perdeu a hora do nosso treino funcional no parque. Ré confessa, declarou que dormiu demais, mas que valeu à pena e nos contaria assim que despertasse completamente, o que nunca aconteceu de fato. Naquela segunda despretensiosa de isolamento em sua cama de casal, ela não estava só. No sonho, conheceu Geraldo, que a fez perder a hora e o juízo, e acordar banhada em suor. Ela, que antes se contentava com qualquer guacamole, agora se recolhe ainda mais cedo e reza todas as noites antes de dormir, com um só pedido: procura-se Geraldo!

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