ENTREVISTA

Professor cria site de notícias traduzidas da mídia progressista argentina

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O professor e tradutor argentino Ramiro Caggiano Blanco tem 53 anos, mora há 20 anos em São Paulo e, desde 2017, mantém um portal na internet com notícias traduzidas para o português veiculadas originalmente pela imprensa progressista da Argentina.

O site Argentina Traduzida é alimentado diariamente por Ramiro e pela esposa, a brasileira Yedda Alves de Oliveira Caggiano Blanco, professora de literatura e doutoranda pela USP.

Na descrição do site, se definem como “um grupo de argentinos residentes em Brasil dispostos a trazer notícias de Argentina em português. Não temos finalidade lucrativa e tampouco pretensões jornalísticas: somente aportar nosso grão de areia na construção de uma América Latina unida e pluralmente informada”, diz

A ideia do portal surgiu em 2015, durante uma conversa com um colega de faculdade. Ramiro achava o amigo bem informado até que o camarada passou a elogiar o então candidato à presidência da República Maurício Macri repetindo os clichês e o mesmo discurso utilizando pela mídia hegemônica na Argentina. Para ele, “Macri representava a esperança do povo sofrido com a ditadura de Cristina Kirchner”.

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Como a imprensa tradicional do Brasil também sempre deu voz aos coirmãos do país vizinho, Ramiro viu espaço para publicar o outro lado e o site dele virou uma referência para os leitores que desejam entender o que se passa na Argentina, como neste domingo (11), quando o povo argentino vai às urnas para as eleições Primárias, ocasião em que escolhem os candidatos indicados pelos partidos que concorrerão à sucessão de Maurício Macri, em 29 de outubro de 2019.

O argentino Ramiro Blanco e a brasileira Yedda Alves atualizam diariamente o site Argentina Traduzida

Ramiro Blanco conversou essa semana com a agência Saiba Mais sobre mídia, política e a visão dele sobre o Brasil. Natural de Córdoba e formado em Direito na Argentina, Ramiro tem especialização em Educação, na PUC-SP, e em Imagens e Meios de Comunicação na FLACSO, na Argentina. Também é mestre em linguística pela USP e cursa doutorado na mesma universidade. Atualmente trabalha como professor de Espanhol e tradutor.

Confira a entrevista:

Saiba Mais: Quando e como surgiu a ideia de criar um site “brasileiro” sobre a Argentina?

Ramiro Blanco: O primeiro alerta acerca da necessidade de ter um veículo de comunicação “brasileiro” que contasse a realidade argentina deste outro ângulo veio numa conversa na USP com colegas e um deles, muito engajado e, até onde eu sabia conhecedor da realidade do país vizinho, elogiou Maurício Macri, então candidato à presidente, nas eleições de 2015, porque representava a esperança do povo sofrido com a ditadura de Cristina Kirchner. Esse colega, uma pessoa muito informada, sem perceber, estava reproduzindo o discurso das mídias hegemônicas.

Mas a decisão de criar o site veio depois, quando em 2017 Cristina Kirchner começou a sofrer a mesma perseguição judicial sofrida agora pelo ex-presidente Lula – com a causa “Cadernos”, versão argentina da Lava Jato. Na época, alguns blogs brasileiros reproduziam “desinformações” tomadas de agências internacionais, sem levar em conta o fenômeno do “agenda setting” e o conluio de interesses que entre elas existe.

Foi essa a faísca que me fez começar humildemente a traduzir, junto com a minha esposa, notícias de jornais e blogs independentes da Argentina que, quando Macri chegou à presidência, foram criadas tomando como exemplo os blogs informativos do Brasil. De alguma maneira, nós estávamos trazendo para o Brasil algo que foi levado daqui mesmo.

Como você avalia a cobertura da imprensa brasileira sobre a Argentina?

 Fora as notícias esportivas, sempre foi péssima, para ser comedido na avaliação. Têm trabalhos acadêmicos que mostram que de 2001 para cá a palavra “Argentina” quase sempre aparece associada com desgraças ou com crise. Quase nunca se fala de coisas boas, nem sequer quando são compartilhadas com pesquisadores brasileiros, como acontece muito na ciência e na indústria. Durante o governo do casal Kirchner foi assim, mas piorou quando Cristina conseguiu a aprovação da lei de democratização da mídia. Os meios brasileiros “tomaram as dores” do par “Clarín-La Nación” e a Argentina começou a ser retratada como um país em guerra, segundo a imprensa brasileira. Na época, deixei de assinar todos os semanários e um jornal da cidade de São Paulo por causa da revolta que me causava ver a manipulação obscena das notícias por aqui, igualzinho ao que acontecia com a mídia oligopólica da Argentina.

Quais suas principais fontes de informação na Argentina?

Até dezembro de 2015, quando Macri chegou ao governo, embora os grupos de comunicação hegemônicos tivessem uma posição dominante, havia grupos privados que faziam um jornalismo mais responsável. Isso acabou por causa do macartismo de Macri – e de Hernán Lombardi, seu impiedoso executor – que pressionou fortemente jornais, rádios e tvs mediante a publicidade do Estado, e acusou penalmente os donos de meios de comunicação e jornalistas que não se ajustaram aos novos tempos.

Isso gerou um grande número de jornalistas que se viram no olho da rua de um dia pro outro que, conhecedores da experiência dos blogs no Brasil, decidiram recriá-la na Argentina. Hoje são mais de 20 blogs e portais de notícias a principal fonte de Argentina Traduzida.

De onde você extrai as notícias que publica em Argentina Traduzida?

Principalmente de dois jornais, Página 12 e Tiempo Argentino, de dois jornais econômicos, Ámbito Financiero e BAEnegocios, e de uns 15 portais e blogs independentes.

Qual a importância da imprensa progressista para a democracia da América Latina?

Vital. Manuel Ugarte, talvez o primeiro pensador moderno a pensar em termos de Pátria Grande, já alertava 100 anos atrás para a necessidade de termos uma imprensa voltada para as realidades compartilhadas dos países da América Latina.

Que avaliação você faz dos quatro anos de Maurício Macri à frente da Argentina?

Foram anos muito duros, em termos de perda de direitos civis, de crise econômica, de perda de conquistas sindicais, de mortos em ações repressivas do estado, de macartismo contra intelectuais, de controle da imprensa… hoje há mais de 30 presos políticos! Em termos econômicos, por exemplo, passamos de uma inflação real de 25%, em 2105, a uma de 47%, em 2018.

Havia uma expectativa positiva do setor que se diz neoliberal no Brasil sobre a gestão de Macri. Porque o governo dele não deu certo?

Principalmente porque fez uma leitura equivocada da economia mundial: ele achava que aplicando políticas livre-cambistas “iam chover”(sic) os investimentos na Argentina e assim seria possível recompor a economia. Isso, que talvez fosse válido para alguns no começo dos anos 1990, já não valia para o mundo pós-2008, mundo no qual ninguém levanta as barreiras alfandegárias para ninguém. Pelo contrário, cada vez mais são impostas restrições para importar quaisquer produtos. Todo mundo está desesperado por proteger a sua indústria e, principalmente, a sua fonte de trabalho. Maurício Macri, ingenuamente, abriu a economia argentina para o mundo em detrimento da produção nacional, o qual acabou com as economias regionais. De pronto, maçãs eram importadas do Brasil, cebolas da Espanha, morangos e até vinho do Chile… e tudo mais que puder imaginar! Isso sem contar com a produção industrial, que despencou como nunca antes na história econômica do país. Assim, foi gerado um desequilíbrio na balança comercial que foi subsidiado com endividamento externo recorde. Nos dois primeiros anos, foi o mercado financeiro internacional que emprestou dinheiro a taxas elevadíssimas, mas quando a fonte secou (ou não confiou mais em Macri) veio o “colete salva-vidas de chumbo”: o FMI! A Argentina é o primeiro devedor do FMI com 60% do total dos empréstimos.

Tal política econômica só podia ter um efeito: desemprego disparado, pobreza crescente e uma escalada da repressão dos movimentos sociais, dos partidos da oposição, dos meios de comunicação alternativos e dos sindicatos como não se via desde a época da última ditadura militar (1976-1983)

Quais as chances da dupla Alberto Fernandez e Cristina Kirchner vencerem as eleições em outubro ?

 São muito grandes, sem dúvidas. Mas, o macrismo demonstrou grande habilidade para fazer campanhas, se comunica muito bem com um importante setor da classe média, tem um poderoso exército de trolls pagos com dinheiro público e conta com o apoio dos grandes meios de comunicação concentrados, cujo poder de convencimento é enorme.

Do lado da Frente de Todos está a realidade quotidiana das pessoas que muitas vezes não têm como pagar pelos serviços públicos e cada vez se alimenta pior, o desemprego – que é a principal preocupação dos votantes-, os avós cada vez mais precarizados…

Quais as semelhanças entre o Lulismo e o Peronismo ?

Melhor do que falar em peronismo haveria de falar em “kirchnerismo”. Peronismo tem de direita e de esquerda: (Carlos) Menem, que levou adiante o processo de privatizações e perda de direitos sociais nos anos 1990 era peronista. O casal Kirchner – Néstor primeiro que venceu o próprio Menen em 2003, e Cristina depois – recuperaram a tradição do “peronismo histórico”. Aclaração feita, o “kirchnerismo” tem muitas semelhanças com o “lulismo”, de fato. Muitas das políticas sociais de sucesso no Brasil foram aplicadas na Argentina, como o Bolsa Família (AUH Asignación Universal por Hijo); “Minha casa, minha vida” (plan PROCREAR), etc. Também no Brasil foram aplicadas algumas conquistas que se conseguiram primeiro na Argentina, como a criminalização de feminicídio e o casamento homoafetivo.

Lula é um preso político no Brasil e tentaram prender Cristina Kirchner também. Você nota semelhanças entre os dois casos?

São muitas: acúmulo de causas penais – Cristina tem 13 (9 delas com o juiz Claudio Bonadio); indeterminação das acusações; um “juiz competente” para a maioria das causas (Sérgio Moro, no Brasil, e Claudio Bonadio, na Argentina); pouco controle das provas por parte das defesas dos ex-presidentes (no caso da Argentina, muitas das causas são derivadas de anotações em “um caderno que foi queimado”; no Brasil a defesa nunca teve acesso à contabilidade paralela da Odebretch); grandes operações midiáticas de ambas as causas; delações premiadas questionáveis, com indícios de serem direcionadas propositalmente pelos promotores, etc.

Sérgio Moro ao lado Ricardo Lorenzetti (presidente da Corte Suprema de Justicia) e de Claudio Bonadio, o “Moro argentino”

Você acredita que uma eventual vitória da dupla Alberto/Cristina pode ter reflexos na eleição do Brasil em 2022?

Tudo o que acontece na Argentina tem repercussão no Brasil, e vice-versa, historicamente. Nos anos 1990 até se falava do “efeito Orloff”, segundo o qual o Brasil era a Argentina um dia depois, e eu diria que o contrário também é procedente. Assim como a derrota do Scioli em 2015 ajudou o impeachment da presidente Dilma instaurando o clima da “nova política” e de “mudança” (slogan do Macri em 2015), acredito que uma vitória da chapa Fernández – Fernández ajudará os movimentos progressistas no Brasil e afiançará a “retomada democrática” iniciada no México com a vitória de AMLO (Andrés Manuel López Obrador, presidente de esquerda eleito no México)

A vitória de Bolsonaro teve algum efeito na Argentina ?

Diferentemente de Lula, que é muito estimado tanto pela esquerda quanto pela direita argentina, Bolsonaro é visto como algo a ser evitado na política. Isso é quase uma unanimidade por lá. Num primeiro momento, alguns tentaram radicalizar o discurso para surfar a onda neoconservadora da dupla Trump-Bolsonaro, contudo isso acendeu um alarme nos dirigentes políticos da oposição, principalmente dentro das diferentes correntes do peronismo, que ajudou muito no processo de unidade para vencer nas eleições. Desse modo, peronistas e dirigentes sindicais que estavam enfrentados há anos com outros setores do peronismo, deixaram de lado as diferenças e começaram a articular uma contraofensiva às medidas de Macri já no começo de 2018. Essa unidade na ação, meio que sui generis, acabou numa chapa única, a Frente de Todos, que postula Alberto Fernández à presidência e Cristina Kirchner vice. E acho que Bolsonaro acabou ajudando no processo, principalmente depois de ter declarado abertamente seu apoio a Macri.

A Cristina Kirchner liderava as pesquisas, quando optou por compor a chapa como vice de Alberto Fernandez. Analistas políticas viram na atitude um gesto de humildade, já que a rejeição dela é muito alta. No Brasil, alguns setores, especialmente partidários de Ciro Gomes, compararam o caso de Cristina, com o Haddad, que perdeu a eleição muito em razão do antipetismo. Como você analisa essas duas situações ?

A questão da rejeição é verdade, todo mundo falava do famoso teto, que não poderia ir além disso. Mas não foi esse o fato que a fez renunciar a candidatura à presidência. O que aconteceu é que Alberto Fernandez, um crítico de Cristina, mas conseguiu o que Cristina achava que iria conseguir: unificar o resto do peronismo e outras forças progressistas que estavam afastadas da Cristina. Essa foi a grande jogada. Ela fez essa renúncia histórica para conseguir a unidade, o que o Macri não esperava. O Macri governou até agora simplesmente na divisão do peronismo. Tanto que na reunião de Davos ele levou como representante da oposição o Massa, que agora está com a Cristina, porque ele sempre quis. Então a renúncia de Cristina se deve a isso: a aglutinação do peronismo e das outras forças que não eram kirchneristas, mas estavam no campo nacional popular.

Agora comparar o gesto da Cristina com a atitude do Lula em relação ao Haddad não procede porque uma das coisas que contou para a decisão da Cristina foi a experiência do Brasil e o que aconteceu com o Lula, que foi para a cadeia. Então a ideia era unir as forças. Depois da experiência brasileira fica mais fácil tomar decisões, embora a Cristina já pensasse em não ser candidata em 2017. Mas a experiência do Lula influenciou muito na decisão da Cristina. E sinceramente, acusar o Lula de não ter feito a mesma coisa é meio que uma covardia.

Qual a sua avaliação, um argentino residente no Brasil, sobre o governo Bolsonaro?

Eu vejo muitas semelhanças com os primeiros anos do governo Macri quanto aos retrocessos em matéria econômica e social. A principal diferença talvez seja da ordem discursiva: Bolsonaro diz exatamente o que pensa, Macri é um mentiroso contumaz. Ele próprio admitiu publicamente que se na campanha eleitoral falasse o que iria fazer ninguém votaria nele. Em outra entrevista pública prometeu não voltar a mentir. A esse nível de cinismo chegou.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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