CIDADANIA

Professora de História da UFRN acusada de racismo suspende aula depois de queixas na Ouvidoria e se defende em carta

A professora do departamento de História da UFRN Flávia de Sá Pedreira tinha aula remota agendada para a manhã desta quinta-feira (4), na disciplina de Historiografia Brasileira. No entanto, a aula acabou suspensa a pedido da própria professora em razão de uma série de denúncias apresentadas contra ela na Ouvidoria. Flávia foi acusada por uma aluna, em 26 de janeiro, de fazer um discurso racista em sala de aula. O caso veio à tona na terça-feira (2), divulgado por veículos de imprensa, como Esquerda Online e Revista Fórum.

No dia 26 de janeiro, primeiro dia de aula para os calouros da licenciatura em História, a estudante Amanda Pereira questionou o discurso da professora, que teria relativizado os efeitos da escravidão do povo negro.

“A professora disse que já existia escravidão na África antes da chegada dos europeus. Isso é um fato, não há discordância. No entanto, ela prosseguiu e comentou: ‘Ah, fica colocando a África como vítima, só que já existia a escravidão antes dos europeus, não é bem assim não!’ Como eu não conhecia a professora, pra mim, era só uma discordância teórica e pedi para ela compartilhar os conteúdos dos textos no SIGAA”, relata Amanda.

SIGAA é o sistema eletrônico utilizado por alunos, professores e o setor administrativo da UFRN para a comunicação virtual como no caso de compartilhamento de textos e documentos. Ao longo da aula, segundo Amanda, a professora Flávia Pedreira continuou a fazer comentários pejorativos sobre o processo de escravidão.

Eu, então, pedi que ela tivesse um cuidado maior para lidar com essa situação, uma vez que estávamos falando de dores muito caras ao povo africano. Ela disse que estava falando de história, que era ciência. Eu ponderei que o lugar de fala dela, enquanto mulher branca, tinha um limite. Ela se sentiu ofendida, mas até aí tudo bem, porque ainda estávamos no campo da pedagogia do conflito”, contou.

Já na aula do dia 28, segundo o relato da estudante, a professora retomou o assunto que havia gerado a discussão reforçando que “até um professor negro”, que havia participado de uma conferência, reafirmava a interpretação dela. Como as aulas estão sendo virtuais, Amanda voltou a questionar a professora através do chat que fica aberto durante as aulas.

“Eu perguntei o nome da fonte, mas ela não viu e seguiu com a análise das imagens de Debret, chamando os povos escravizados com o termo “escravos” apesar de, dentro da própria historiografia, já se ter chegado à conclusão de que não devemos utilizá-lo, porque ele anula a responsabilidade de quem colocou o escravizado naquela situação, remete a uma naturalização, como se fosse da natureza da pessoa ser assim. Também coloquei no chat essa observação e ela, novamente, não viu”, descreve Amanda.

Só na aula seguinte, depois de ter visto os comentários dos estudantes no chat, a professora de Historiografia Brasileira teria voltado ao tema de quem seria o professor negro citado na aula anterior e classificou como “babaca” o questionamento feito por Amanda:

“Como o comentário tinha sido meu, eu abri o microfone e pedi que, no exercício da docência, ela me respeitasse enquanto aluna e voltei a questionar a ausência de fonte. A professora disse que não tinha obrigação de saber o nome do professor citado porque a discussão tinha ocorrido numa conferência. Eu disse que ela tinha sim a obrigação de saber, já que o estava apresentando como fonte. Ela, então, disse que eu a estava perseguindo desde o primeiro dia porque ela era mulher branca, intelectual e de classe média, como se isso fosse algo invejável pra mim! Disse, ainda, que eu estava cometendo racismo reverso e que ela não é racista porque foi casada com um homem preto e teve um filho mestiço”, disse.

“Ela, então, disse que eu a estava perseguindo desde o primeiro dia porque ela era mulher branca, intelectual e de classe média, como se isso fosse algo invejável pra mim!”

Por telefone, Amanda comentou que, até então, achava que a professora tinha apenas posturas deturpadas, mas que a partir dali começou a perceber o desconforto dela com a sua presença por ter pedido que as narrativas do povo preto fossem respeitadas:

“A fala dela não deixa clara as consequências, não dimensiona as diferenças entre a escravidão que existia na África e aquela empreendida pelos colonizadores. Não pode ser uma ideia simétrica entre duas escravidões que suaviza a empresa escravagista. Eu estava lá (na aula) porque estou pagando disciplinas aleatórias e tive essa força para debater. Outros alunos não teriam, porque são estudantes que acabaram de chegar na universidade”, pontuou.

“Claro que tem um recorte de eu ser uma mulher negra, candomblecista e periférica”, pondera Amanda.

Amanda é de Alagoas e veio para Natal com o objetivo de estudar. Ao chegar aqui, casou, constituiu uma família, teve dois filhos e se separou. Ela chegou a cursar alguns semestres de Biologia e Secretariado Executivo em uma universidade privada. Também foi aprovada para psicologia na mesma instituição, mas ao passar em História na universidade pública, em 2014, largou os demais cursos. Atualmente, Amanda coordena o projeto de Promotores dos Povos e Comunidades Tradicionais do Rio Grande do Norte. É com uma bolsa desse projeto junto com o empreendimento de autocuidado baseado em conhecimentos ancestrais, o macumbaria moderna, que ajuda a manter as despesas da casa.

“Ela não pode querer culpabilizar os povos africanos pela escravidão em escala mundial. Sim, existia escravidão na África antes dos colonizadores, mas é muito diferente do que se tornou o mercado do transatlântico. E quando você trata isso numa turma de calouros que acabou de chegar, sem explicar isso para pessoas que estão sendo formadas para serem professores, compromete demais, entende? A fala dela não deixa clara as consequências, não dimensiona as diferenças entre a escravidão que existia na África e aquela empreendida pelos colonizadores. Não pode ser uma ideia simétrica entre duas escravidões que suaviza a empresa escravagista. Eu estava lá (na aula) porque estou pagando disciplinas aleatórias e tive essa força para debater. Outros alunos não teriam, porque são estudantes que acabaram de chegar na universidade, além desse processo da pandemia, que afeta também a cabeça da gente”, desabafa a estudantes antes de disparar críticas à instituição:

“A instituição escravagista é incompatível com qualquer valor constitucional que nós temos e com as normas que regem a educação. Quando temos políticas de acesso a pretos, indígenas e quilombolas, não é simplesmente botar números dentro da universidade. A instituição também precisa repensar as narrativas e produções intelectuais”, critica.

Apesar da repercussão do caso, Amanda ainda não prestou queixa junto à Ouvidoria, mas pretende fazê-lo em breve. Já o Centro Acadêmico de História fez uma campanha para incentivar as pessoas que testemunharam relatos semelhantes, também denunciem.

A estudante relata, ainda, que se sentiu ameaçada quando a professora quis obrigá-la a trocar de turma:

A aula já tinha terminado quando ela disse: Atenção turma, Amanda vai trancar a disciplina comigo porque eu não vou dar aula pra ela e ela vai pagar essa disciplina à noite’. Eu ainda argumentei que não tinha a disponibilidade de tempo que ela achava que eu tinha. O processo de racismo nela é tão grande que ela precisava dizer o que eu ia fazer, trocava meu nome o tempo todo. É um epistemicídio, uma das armas do racismo para apagar as nossas questões”, critica.

Professora também formaliza queixa na Ouvidoria e UFRN vai abrir sindicância para apurar denúncias

Além dos estudantes, quem também prestou queixa na Ouvidoria foi a própria professora Flávia Pedreira. O argumento é de que ela teria sido chamada de racista por Amanda. As denúncias das duas partes envolvidas no caso serão recebidas pelo Departamento de História, que dará seguimento ao processo para que seja feita a devida apuração:

“O Departamento vai receber as denúncias encaminhadas pela Ouvidoria da UFRN e propor a criação de uma sindicância fora do Departamento, para garantir a isenção na avaliação do caso. A comissão deve ser criada pela direção do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) para avaliar o caso e discutir sobre as abordagens dos conteúdos e conduta da professora Flávia”, explica o Chefe Departamento de História da UFRN, o professor Haroldo Loguercio Carvalho.

Amanda Pereira I Foto: cedida

A versão da professora Flávia Pedreira

A professora da disciplina de Historiografia atendeu a agência Saiba Mais, mas disse que preferia se manifestar apenas através de uma carta, que foi lida para os demais colegas do departamento de História da UFRN. A seguir, você confere a íntegra do documento:

“Todo branco é racista, assim como todo homem é machista” – é sério isso?  

Em resposta à acusação de racismo que recebi ontem nas redes sociais e também na imprensa natalense, passo a relatar a minha versão dos fatos.

Há alguns anos, desde 2004, quando retornei do meu doutorado em História na Unicamp, o Colegiado do curso de História da UFRN incumbiu-me de ministrar a disciplina obrigatória “Historiografia Brasileira” aos alunos da graduação.

Neste ano, em meio à pandemia da Covid-19, estamos trabalhando online, sendo que o semestre letivo mal iniciou. Nas primeiras aulas da referida disciplina, tudo estava correndo dentro da normalidade de um ensino remoto, estávamos analisando e discutindo as cenas do cotidiano do Brasil oitocentista que foram pintadas por artistas como Debret e Rugendas, nas quais se vê aspectos da relação entre brancos e negros no período da escravidão. Discutíamos as imagens com base em textos de autores que defendem a sua utilização como fontes de pesquisa histórica.

Entretanto, na aula do dia 26/01, ao comentar que houve escravidão na África antes da chegada dos europeus – fato notoriamente conhecido entre historiadores africanistas e demais especialistas no assunto –, a aluna chamada Amanda manifestou a sua surpresa com essa afirmação, dizendo-me que eu devia “ter muito cuidado” com o que falava em sala de aula, pois o meu “lugar de fala é de uma mulher branca na universidade” e que ela era militante do Movimento Negro, pedindo que eu escrevesse “os nomes desses autores aí.”

Como eu estava ministrando aula no meu escritório, aqui em casa, onde ficam as estantes de livros, mostrei alguns deles sobre História da África, comentando o que diziam seus autores, tais como Alberto da Costa e Silva, John Thornton, Marina de Mello e Souza, entre outros. Nesse momento, o aluno Gabriel também ligou seu microfone e questionou se essa afirmação sobre a existência de negros escravizados por reinados negros na África, antes da chegada dos europeus brancos ao continente africano não acabaria por relativizar a tragédia que foi a escravidão colonial, numericamente superior. Ao responder, disse-lhe que não se deveria fazer essa comparação para dizer que “foi muito pior” pela quantificação, já que a escravidão em si já é um horror, li um trecho do livro África e Brasil africano, da historiadora Marina de Mello e Souza:

“Se considerarmos a escravidão como: situação na qual a pessoa não pode transitar livremente nem escolher o que vai fazer, tendo, pelo contrário, de fazer o que manda seu senhor; situação na qual a pessoa pode ser castigada fisicamente e vendida caso seu senhor assim ache necessário; situação na qual o escravo não é visto como membro completo da sociedade em que vive, mas como ser inferior e sem direitos, então a escravidão existiu em muitas sociedades africanas bem antes de os europeus começarem a traficar escravos pelo oceano Atlântico.” (MELLO E SOUZA, 2006, p. 47).

A ampliação do tráfico negreiro no processo de mercantilização capitalista ocorreu, com certeza, mas isso não pode apagar o fato histórico de que os reinados africanos negros também escravizassem por questões de dívidas, guerras etc, antes da chegada dos europeus. John Thornton menciona em seu livro A África e os africanos na formação do mundo Atlântico, que em vários lugares do continente o que gerava renda era a comercialização de escravos, não a propriedade da terra: quem tivesse muitos deles, era considerado rico.

Após essa discussão, disse que escreveria as referências sobre o tema na página do SIGAA, para não interromper a análise das imagens de Debret e Rugendas. E foi o que eu fiz, voltando ao assunto na aula seguinte, mas notando a insatisfação da aluna com as minhas explicações, pelos seus comentários irônicos no chat.

Na aula do dia 02 de fevereiro, eu comentei com a turma que “escreveram no chat frases irônicas e ofensivas sobre minhas aulas” e que achava aquilo uma “babaquice” já que podíamos discutir a partir da própria produção historiográfica, sem comentários do tipo. Foi quando a aluna Amanda disse: “Fui eu que escrevi, você está me chamando de babaca?” Eu disse que não havia feito isso, pois nem identifiquei quem havia me ironizado no chat. Assim, teve início uma discussão em que a mesma teria falado algo como: “Todo branco é racista, assim como todo homem é machista, criatura!” – foi quando os ânimos se exaltaram, pois considerei desrespeitosa a sua fala, além de completamente equivocada. Também disse que esse tipo de situação nunca havia ocorrido comigo, que sou docente da UFRN desde 1994, e perguntei à aluna se por eu ser “branca, intelectual e de classe média” ela estaria criticando meu “lugar de fala” sobre temas como a escravidão negra – discussão trazida por autoras como Djamila Ribeiro, entre outras.

Foi quando ela avisou que “está tudo gravado, viu?” – sem ter nem ao menos pedido autorização para fazê-lo antes da aula – e eu disse que aquilo estava parecendo com o que defendem a “escola sem partido” e que ela mandasse a gravação para o Bolsonaro. Devido à crescente exaltação dos ânimos, outra aluna argumentou que seria melhor interromper a aula e retomar na seguinte, concordei com ela e pedi que todos registrassem suas presenças no chat.

Para meu espanto, no dia seguinte recebi de um amigo, pelo whatsapp, a “nota” que o Centro Acadêmico de História publicou no Instagram – rede social que não tenho, assim como não tenho o Twitter, apenas possuo uma conta no Facebook – acusando-me nominalmente de racismo, tendo ouvido apenas a versão da Amanda, sem terem entrado em contato comigo para ouvir também a minha versão, ignorando meu direito de defesa sobre uma acusação tão grave. Depois, recebi a matéria da jornalista Nathália, do “Agora RN” também acusando-me de racista, ao publicizar mais ainda a nota do CA, divulgada na rede social.

Por fim, até uma vereadora do PT manifestou-se contra o racismo na UFRN em seu Twitter, referindo-se à minha aula, e o CA de História divulgou uma chamada para plenária estudantil a acontecer hoje à tarde, sobre o “Antirracismo na UFRN”!

Sendo acusações graves, uma vez que o racismo é crime inafiançável, decidi consultar a minha advogada sobre como deveria proceder, ao que ela me orientou a não responder às publicações e sim fazer denúncia formal à Ouvidoria da UFRN. Foi o que fiz e estou aguardando a resposta da instituição.

A dimensão desproporcional desse lamentável acontecimento levou-me a refletir sobre a espetacularização de qualquer assunto que se faz hoje pelas redes sociais. Acusações anônimas são registradas no Twitter, Instagram e afins, evitando com isso que seus autores possam ser processados judicialmente por calúnia e difamação.

Também sou professora de História da Cultura, disciplina para a qual prestei concurso público nesta Universidade, e um dos autores que costumo adotar nas minhas aulas é Zygmunt Bauman, que em suas obras sobre a “sociedade líquida moderna” deixou registrada sua enorme inquietação com o despreparo dos internautas nas diversas redes sociais pelo mundo afora, ao se manifestarem anonimamente e de forma agressiva, alertando-nos aos prejuízos que causam à vida em sociedade.

Espero um posicionamento da Chefia do Departamento de História, que até o momento não o fez.

Natal, 04 de fevereiro de 2021.

Flávia de Sá Pedreira

 

 

 

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