CULTURA

Professora promove contação de histórias afrocentradas para crianças da rede pública em Natal

Houve uma época em que Ana Paula Campos não se reconhecia como mulher negra. Isso refletia diretamente no trabalho dela enquanto professora do ensino básico municipal natalense:

“Na época, eu não era negra. Era “morena”, então falava de África e do povo preto com distanciamento. Reforcei estereótipos de fome e miséria, por exemplo. Eu não tinha leituras nem pesquisas. Apenas boa intenção”, remonta.

Hoje, a pedagoga, especialista em leitura e literatura, escritora, pesquisadora do NEGÊDI/IFRN, tanto é militante no Movimento Negro como realiza um trabalho de contação de histórias infantis afrocentradas para crianças, projeto que já levou para diversas cidades e até outros estados.

Ela lembra que sempre contou histórias, mas só percebeu a necessidade de incluir heróis e protagonistas negros há cerca de dois anos, após o reconhecimento da própria cor. Assim, passou a promover atividades de contação que foram replicadas em diversas escolas e até outros tipos de eventos. Já esteve em várias escolas de Natal, Parnamirim, participou de semanas pedagógicas em João Câmara, Lajes, Cerro Corá, Santa Cruz e já apresentou em João Pessoa, na Paraíba, para a comunidade escolar.

Quando o pedido é feito por escolas, ela afirma que não cobra por estes eventos nada além dos custos com passagens e hospedagem nas cidades. Mas, quanto a outros órgãos, há sim um cachê. “Precisamos valorizar o trabalho de pesquisa e articulação artística. É todo um gasto com figurino, livros, cenário, além de cursos pagos que faço para aperfeiçoar meu trabalho”, argumenta.

Ana Paula Campos se descobriu negra quando a filha pediu para alisar o cabelo / Foto: arquivo pessoal

Antes de saber da pandemia, havia elaborado um espetáculo completo com dança, música de orixá e histórias pretas para desconstruir estereótipos, explica.  “Além disso, estar vestida como representação da orixá Ọxum, ajuda no debate sobre racismo religioso e religiões de matriz africana. O espetáculo estava para ser inaugurado este ano, mas por causa da pandemia estou ajustando agora as plataformas virtuais”, afirma.

Ainda assim, as atividades não pararam completamente em decorrência do isolamento social. Em novembro, por exemplo, Ana Paula tem promovido semanalmente e de forma voluntária o trabalho de contação para pessoas em situação de rua. “Tenho ido uma vez por semana, durante este mês de consciência negra, junto com meu companheiro, Fábio Oliveira, ao albergue municipal”, explica. 

A professora ressalta que, em nenhum momento recebeu incentivo da prefeitura municipal de Natal, a qual é vinculada, para dar continuidade ao projeto. “Meu trabalho é independente!”, enfatiza.

Descobrir-se negra ou negro é um processo, lembra Ana Paula. O dela começou quando a filha pequena começou a manifestar o desejo de alisar o cabelo. A partir dali, a narradora decidiu adotar os próprios cachos e lembra ter entrado em conflito após entrar em contato com quem ela “realmente era”. 

A mudança também veio na literatura.  “Eu sempre li muito literatura branca, [Karls] Marxs, [Simone de] Bouvoir”, até encontrar o livro da filósofa Djamila Ribeiro intitulado “Quem tem medo do feminismo negro”. A partir desse envolvimento com o feminismo negro, ela conta ter se iniciado o processo de redescoberta de si a partir de como se enxerga no mundo e como os outros a enxergam, além de repassar na memória as diversas experiências racistas já vividas.

Dessa forma, é também a partir do contato com histórias que ela busca fortalecer a identidade negra tanto no imaginário de outras pessoas negras como em brancas, além de fomentar esse processo de descoberta, o qual ela ainda está percorrendo, em outras pessoas racializadas. 

“As mulheres e as crianças se identificam, se sentem representadas de maneira potente, as mulheres se veem representadas na dor, então há aquela questão da ‘doloridade’, a dor que nos une e faz perceber que compartilhamos experiências muito parecidas, e que não estamos sozinhas nesse processo”, explica a narradora.

Vestida de Rainha de Oxum, Ana Paula fortalece a identidades instiga crianças e adultos a reavaliar estereótipos sobre a identidade negra. Foto: Divulgação.

A indumentária é outro aspecto fundamental no trabalho realizado por Ana. Para os eventos de contação, ela se veste de rainha africana, caprichando no colorido, brilho e em penteados que valorizem a beleza dos traços de pessoas negras. 

“As vezes uso tranças o que também desperta a curiosidade deles e delas. Muitos se identificam com meu cabelo, tom de pele, mas principalmente crianças que são de religiões de matriz africana. Ouvir falar sobre os orixás e saber que sou de terreiro, ajuda muito na luta contra a intolerância religiosa”, destaca.

Na apresentação, Ana Paula define-se como Africana em diáspora, considerando que o Brasil é o país fora do continente africano que mais tem pessoas negras e que, se não fosse o processo de escravização, ela não teria nascido aqui.

“Portanto, sou uma africana que nasceu fora da África”, define.

A professora está trabalhando em um canal do Youtube próprio para dar continuidade ao projeto.

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