DEMOCRACIA

Protesto contra os cortes na Educação em Natal teve de cuscuz a Cazuza

Movimentos estudantis, sociais, sindicais, professores e estudantes estiveram reunidos nesta terça-feira (13) em mais um protesto em defesa da educação pública, ameaçada pelo governo Bolsonaro desde os cortes anunciados pelo Ministério da Educação, e contra a reforma da Previdência, em tramitação no Senado. A concentração do ato aconteceu por volta das 15h, na esquina entre as avenidas Salgado Filho e Bernardo Vieira.

As ruas foram tomadas especialmente por estudantes, que seguravam placas e cartazes de protestos em críticas ao Programa Future-se, ao Presidente Jair Bolsonaro, à reforma da Previdência e aos cortes e subsequente sucateamento de universidades e instituições públicas de ensino. Estudante do curso de Dança na UFRN, Sabrina Silva usou um meme para criticar as iniciativas do MEC. Na placa, a graduanda dizia “Vendo cuscuz pra pagar a mensalidade da minha faculdade pública.”

“É um meme da Emily, do BBB. Ela disse que queria trabalhar pra pagar a universidade pública. Hoje, o meme se tornou real, porque se privatizarem a universidade, vamos ter que trabalhar pra pagar algo que deveria ser público”, explicou.

Professora de português da rede pública e defensora da corrente proletária na educação, Mônica Morais foi uma das manifestantes que também acrescentou o programa Future-se às pautas do dia 13. A proposta lançada pelo Ministério da Educação no dia 17 de julho pretende fomentar o financiamento das universidades por meio de fundos privados. Segundo o governo, está descartada a cobrança de mensalidades em cursos de graduação, mestrado e doutorado.

“Todos que defendem a rede pública devem estar nas ruas. O projeto Future-se que o governo Bolsonaro quer implementar é um processo devastador de privatização das instituições de ensino. Da forma como o Future-se está sendo colocado, os estudantes não vão realizar os sonhos de entrar em universidades públicas, porque pretendem que elas passem por um processo de privatização de financiamento das empresas privadas, onde o governo vai impondo o pagamento de mensalidade. Se já é difícil o jovem se manter numa universidade, imagine ter que pagar”, critica.

Segundo a professora, discursos como o das escolas sem partido, adotado pelo atual Presidente da República ainda durante a campanha eleitoral, têm provocado constrangido nela em sala de aula.

“Como professora, estou sendo atacada por uma lei que não foi aprovada no Congresso. Tive aulas filmadas por um estudante. Mesmo que eu diga que o Congresso não aprovou essa lei e que o estado, pelo contrário, aprovou a lei da escola democrática, ainda existe esse ataque à liberdade democrática e isso não é um fato isolado. A juventude, os trabalhadores e o proletariado não podem assistir isso de forma pacífica, tem que vir para as ruas usando o método da ação direta e organizar a greve geral nesse país contra um governo ultraliberal, obscurantista e militarista”, disse.

Com 15 anos, Romana Severo é estudante do curso de Administração no Instituto Federal do Rio Grande do Norte. A adolescente foi ao protesto fazer coro à luta contra os cortes e a reforma da Previdência.

“Sempre estudei em escola pública. Hoje, estudo no IFRN e a gente tem essa preocupação e conscientização de que os cortes vão afetar a gente e várias pessoas. Ter no Rio Grande do Norte esse ensino de qualidade, como o IFRN, é muito importante. É importante que as pessoas venham e lutem por essa causa, que é trazer educação de qualidade para todos”, disse.

“Bolsonaro só faz merda, proibiu a gente de fazer, mas é só o que ele faz”

Manifestação atraiu secundaristas universitários com cartazes de protesto contra a política do governo Bolsonaro (foto: Júlia Carvalho)

Também estudante do IFRN, mas em São Paulo do Potengi, Bárbara Mayara também defendeu o instituto.

“Esses cortes nem deveriam existir, sou do IFRN em São Paulo do Potengi, interior do RN, e eu vejo como o IFRN mudou a minha vida e a vida de muitas pessoas. Com os cortes, a nossa instituição vem se deteriorando. Falta alimentação pra todos os estudantes, falta água, e isso é muito ruim. Eu vim lutar porque educação é um direito meu, não é um privilégio, é um direito de todos. Bolsonaro só faz merda, proibiu a gente de fazer, mas é só o que ele faz”, criticou.

Prestes a fazer a prova do Exame Nacional do Ensino Médio, principal mecanismo de ingresso em universidade públicas no Brasil, Bianca dos Santos, de 17 anos, veio de São Gonçalo do Amarante com professores e amigos da Escola Estadual Ivanir Machado Bezerra, onde estuda.

“Eu não quero cortes na educação. Eu quero me formar, quero ir pra uma universidade federal. Vim aqui atrás dos meus direitos, com meus colegas de sala e professores. Os cortes não são bons pra ninguém”, disse a estudante.

Diretora de formação política no grêmio Paulo Freire do IFRN Zona Norte, Leilane Oliveira defendeu a manifestação Tsunami da Educação como uma forma de exercitar a cobrança por direitos básicos, como o ensino.

“Estou reinvindicando um direito que é nosso, porque educação é de todos. Eu enxergo minha presença aqui hoje como um exercício cidadão, um exercício democrático e principalmente um exercício da manutenção dos direitos que a gente conquistou nesses últimos anos.”

UFRN não sabe como pagará contas

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o atual reitor da instituição disse à Agência Saiba Mais, na semana passada, que embora a UFRN não vá paralisar as atividades, ainda não sabe como vai pagar as contas dos próximos meses, com os recursos reduzidos em razão do corte orçamentário. Além disso, a redução das bolsas de pesquisa com os cortes feitos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a suspensão do principal evento da universidade, a Feira de Ciência Tecnologia e Cultura da UFRN, a Cientc, também preocupam os estudantes.

Estudante do curso de Publicidade na UFRN, João Carlos, de 21 anos, veio de São Paulo para estudar. Nas ruas, defende o investimento na educação pública:

“Estou correndo atrás do meu objetivo, do meu sonho, e eu não posso aceitar em casa que alguém que está no poder dite o que eu vou conseguir ou não. Então, estou na rua pra lutar, pra que a universidade tenha essa autonomia, pra que eu consiga concluir o que eu quero e que todas as pessoas que ainda não entraram na universidade também consigam”, disse.

Parodiando o refrão de “O tempo não pára”, estudante deixa seu recado contra o Future-se (foto: Júlia Carvalho)

Já Louise Rodrigues, aluna de Gestão de Políticas Públicas também na UFRN, diz que os atos em defesa da educação são uma forma de tentar garantir a autonomia universitária e o ensino público de qualidade aos que ainda pretendem tentar ingressar nessas instituições.

“Não podemos ficar quietos com o que está acontecendo, especialmente pra garantir o futuro de outras pessoas que estão chegando na universidade pública.”

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