OPINIÃO

PTfobia e Lulofobia

Em sua ciência antropológica, Lévi-Strauss faz uso de duas palavras que definem como nos organizamos na cultura: antropofagia e antropoemia. A primeira indica que simbolicamente aceitamos, assimilamos e “ingerimos” o estranho. A diferença é reconhecida e pode, inclusive, modificar aquilo que havia antes. Antropofagia é devoração do Outro. Uma prova disso, em Natal, foi a presença dos americanos na Segunda Guerra Mundial que nos legou a identificação de algumas avenidas e ruas por números. Ou, ainda, quando identificamos hábitos portugueses, africanos e árabes em nossa culinária, ritos e linguagens. Dizem que o nosso aboio nordestino tem influência da sonoridade árabe e do canto de libertação dos escravos africanos. Na antropoemia, ao contrário, não assimilamos e não aceitamos as diferenças. Ao invés da devoração para a assimilação, “vomitamos” e repelimos aquilo que é da ordem do diferente ou do novo. Noutros termos, temos que expulsá-lo do nosso território, pois representa perigo e repulsa. Ou como definiu Mary Douglas, “Pureza e Perigo”. Do lado da pureza, os limpos. Do lado do perigo, os sujos.

Olhando para a realidade política brasileira atual, percebemos este paradoxo civilizatório. De um lado, o discurso do ódio e da violência simbólica e física. Do outro, a tentativa de garantia do estado de direito e da garantia da vida como uma valor ético universal. Neste ringue civilizatório, estão forças políticas reacionárias como, por exemplo, Bolsonaro e Flávio Rocha. Ambos fazendo do discurso da moral e dos chamados bons costumes, pressupostos da política. Isso materializa-se em teses como aquelas da defesa da Escola sem partido ( eliminação da crítica), contra cotas nas Universidades, contra a máxima feminista “meu corpo, minhas regras” e, por extensão, contrários à descriminalização do aborto, das drogas e da união civil homoafetiva. São os paladinos da pureza. Os antropoêmicos. Aqueles que desejam eliminar qualquer “sujeira” da ordem social. O holocausto dos judeus é, sem dúvida, a maior consequência histórica desta visão política e cultural. Das ideias de raça superior (ariana) e inferior (judeus), herdamos a barbárie das prisões e mortes de milhões de pessoas em campos de concentração e câmaras de gás. A antropoemia nazista! A ditadura militar brasileira, que matou e expulsou vários dissidentes porque eram considerados “sujeiras”, também, servem de exemplo. A atuação da organização ALT-RIGHT( Direita Alternativa) dos EUA em defesa de propostas nacionalistas, racistas, tradicionalistas e no apoio radical a Donald Trump é um outro exemplo

Dou outro lado do ringue, estão aqueles que querem a assimilação e convivência dos contrários. E por isso, muitas vezes, são tratados como ameaças à ordem e à moral dos bons costumes. São as Marielles e Lulas que teimam em desafinar coros de contentes quando defendem os estranhos repelidos e vomitados pela elite: os pobres. Uma elite que de bolsas, só conhecem aquelas da Louis Vuitton. Uma elite que tem ojeriza aos que recebem bolsa-família, aos sem-terra, aos que borram as fronteiras da heteronormatividade. Neste ano de eleições, assistiremos com preocupações a esta briga incivilizada. A morte de Marielle, as milícias armadas contra o ex-presidente Lula em sua Caravana por cidades do Sul, são provas desta deia de pureza e ódio de classe. Ônibus foram alvejados por tiros, pedras e ovos e, pasmem, não vimos nenhum Dallagnol, Moro ou a mídia brasileira repelirem. O silêncio demonstra de que lado estão. Do lado dos antropoêmicos, que agem a todo o momento como caçadores de lulistas e petistas. Justiceiros da “limpeza” com venenos de ódio nas mãos e nos discursos, desejam eliminar a “praga” perigosa. Inauguram a prática da PTfobia e da Lulofobia. Exemplo disso foi o resultado da votação do habeas corpus de Lula pelo STF. Os comportamentos da ministra Rosa Weber (disse que era inconstitucional a prisão em segunda instância, mas…) e da presidenta do Supremo, ministra Cármen Lúcia, ao se negar pautar o tema, são provas cabais da PTfobia e Lulofobia. Fizeram política com a desfaçatez de supostos argumentos racionais. Não teriam tido os mesmos comportamentos perante políticos do PSDB, do DEM e do MDB. O tratamento fóbico é notório também nos Tribunais Brasil afora. O grau da lente da justiça é sempre aumentado quando se trata de julgar os petistas. As dos outros, quase sempre, é cega ou míope.

Uma nação democrática e moderna é aquela que convive com as diferenças e constrói instrumentos formais e culturais que garantam o princípio da igualdade. O outro, como aquele que habita meu território social e simbólico e, por isso mesmo, devemos ser tolerantes. Devemos nos “outrar” e percebê-lo como condição para si mesmo. O embate se faz entre aqueles que aceitam democraticamente o dissenso e aqueles que lutam pela sua eliminação. Para alcançarmos níveis de tolerância civilizatório, faz-necessário acabarmos com a dicotomia entre antropofágicos e antropoêmicos.

Artigo anteriorPróximo artigo
Alex Galeno
Alex Galeno é cientista social, professor da UFRN e escreve às terças-feiras para a agência Saiba Mais