OPINIÃO

Qual o tamanho do seu machismo?

“Me ajuda, mãe”, dizia a mensagem de whatsapp que perturbou a paz da minha caminhada matinal no parque, e despertou a leoa que habita em mim. Instintivamente, já imaginei do que se tratava.

Minha filha está no terceiro ano do ensino médio, o temido “terceirão”, e, para quebrar a tensão inerente ao último ano de escola, o colégio dela tem promovido uma série de brincadeiras, umas espécies de trotes, tudo muito bem autorizado pela coordenação. O trote dessa terça-feira permitia que os alunos e as alunas fossem fantasiados de personagens de filmes.

Ela foi de Regina George, do filme Meninas Malvadas. Saiu de casa logo cedo com outras duas amigas, também com mesmo tipo de roupa, todas muito alegres e faceiras. No entanto, quando ela chegou na escola, se deparou com o machismo que impera nesse país, mas que eu não imaginava ver sendo ensinado assim numa instituição como aquela, e muito menos por mulheres.

“Tão querendo que eu troque minha saia. Eu acho o cúmulo do absurdo. Além de ser extremamente machista essa situação”, disse Marina, do alto dos seus 17 anos. Até então, não me surpreendi, mas deu aquela dor no coração quando ela explicou que a advertência veio de uma mulher: foi a coordenadora pedagógica que avisou pra minha filha que a coordenadora geral “não gostou do tamanho da saia” dela.

Em mensagem de áudio, percebi que Marina estava aos prantos pelo constrangimento que passou. Mas escolada no feminismo aprendido no filme Moxie, que eu super indico a quem precisa desconstruir o machismo enraizado dentro de si, ela não se dobrou ao “aviso”, e insistiu em permanecer com a saia. Só me pediu que eu fizesse alguma coisa a respeito, diante daquela injustiça. Prontamente, atendi ao pedido de socorro e corri até a escola da minha filha.

Ao chegar na portaria, avisei logo que estava ali como leoa que sou, pra falar com as tais coordenadoras e esclarecer a questão, que na verdade não se tratava do tamanho da saia da minha filha, mas sim do tamanho do machismo envolvido naquele tipo de advertência a que ela foi submetida, num dia que deveria ser de pura diversão, como proposto inicialmente pela escola.

A moça da portaria chamou rapidamente a coordenadora, que me recebeu e me levou até sua sala, enquanto eu rugia entre os dentes, balbuciando qualquer coisa que parecia preocupá-la, e a fez perguntar logo se “estava tudo bem”, ao que respondi reflexivamente que “não, lógico que não”. E repeti pra ela que estava ali como leoa, que minha filha tinha me avisado sobre o acontecido, que eu nem queria acreditar ser verdade, e que tinha ido até a escola para esclarecer a situação.

A coordenadora explicou que a preocupação dela foi em proteger minha filha de eventuais comentários maliciosos, argumento que, na verdade, só serviu para confirmar o machismo que já sabia estar contido na construção daquela pessoa que estava na minha frente, claramente com receio dos meus rugidos ecoarem por aquele estabelecimento de ensino.

Eu poderia ter devorado ela ali mesmo, mas preferi acreditar que de fato a pobre senhora não fazia ideia do quão absurdas foram suas palavras e sem sentido os seus argumentos, que fiz questão de desconstruir um por um, com toda a classe que uma leoa possui: “na verdade, professora, acredito que o correto seria advertir as pessoas que fazem esses tipos de comentários. O que não é certo mesmo é penalizar a vítima, no caso, minha filha”, esclareci.

Falei ainda pra ela assistir e indicar aos demais integrantes do corpo docente o filme Moxie, e descrevi uma cena desse filme, que também ajudou a desconstruir o machismo que eu nem supunha existir dentro de mim. Uma adolescente entra na sala com uma camiseta regata, a mesma vestimenta que uma outra adolescente estava, e um jogador de basquete também vestia regata. Mas como a primeira moça tinha seios fartos, a diretora da escola resolveu retirá-la de sala e aplicar suspensão por um dia, fazendo-a retornar para casa. No dia seguinte, em apoio à moça, todas as mulheres vestiam regata, e a diretora não sabia o que fazer.

Foi algo semelhante ao que aconteceu com a Marina, que é uma mulher de 1m73cm, provavelmente 1 metro só de perna. Ainda que não importasse o tamanho da saia, expliquei à coordenadora que minha filha vestia na verdade um short-saia, de tamanho igual ou maior do que as saias de outras meninas, que não foram advertidas. Antes que a coordenadora tivesse a brilhante ideia de repreender as demais adolescentes, continuei fazendo a analogia ao filme, para melhor desenhar que o problema nunca foi o tamanho da saia, mas sim do machismo.

Ela pareceu entender e disse inclusive que iria assistir ao filme, o que considero uma grande vitória. Disse ainda que iria falar com a Marina e “desfazer o mal-entendido”, que na verdade foi perfeitamente entendido e traduzido pela minha filha, que sabe bem mais do que a coordenadora a respeito dos próprios direitos, como bem demonstrou na conversa que aconteceu logo depois que eu sai da escola.

Marina me contou que a pobre senhora ainda veio falar sobre os valores e princípios da escola, como que para justificar as atitudes machistas dela. “Mas eu sigo os valores e princípios da escola e não é uma saia que vai definir o que eu sou. Eu inclusive quero fazer Direito exatamente para subverter esse tipo de pensamento, porque não é o fato de estar usando uma saia curta, que vai diminuir meu intelecto”, ensinou, lindamente, minha filha, de quem tanto me orgulho.

O que me impressiona nisso tudo é que em pleno 2021, uma coordenadora de ensino médio ainda acredita que a mulher não pode vestir o que ela quiser, porque, como ela mesma acrescentou, “vivemos em comunidade, e precisamos ensinar as meninas a se protegerem”.

É esse tipo de pensamento que precisamos urgentemente subverter, como leoas e leões, porque sim, os homens também precisam começar a criar outros homens de forma a entenderem que não é direito deles olhar as mulheres como objeto, não é direito deles comer as mulheres com os olhos, não é direito deles fazer comentários maliciosos, e que eles sim, precisam, e muito, aprender a viver em comunidade, sem oferecer perigo a nenhuma de nós, que, afinal, não somos obrigadas a aguentar isso e naturalizar esse tipo de comportamento.

 

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