CULTURA

Qual o valor da arte? Apesar de orçamento incerto, Casa da Ribeira lança documentário em seus 20 anos de funcionamento

Nós poderíamos dizer que, de uma maneira geral, a casa é o lugar onde a gente se sente acolhido. Um espaço seguro para repensar as certezas e cultivar as dúvidas em torno da existência. É o que a Casa da Ribeira tem sido para o público e os artistas que, aos trancos e barrancos, mantém o espaço funcionando há 20 anos.

“Nesses anos todos venho falando da falta de entendimento do poder público, mas não por pouca inteligência ou sensibilidade às artes ou cultura, mas uma falta de entendimento intencional para não haver política pública. Eu reafirmo que não há política pública para cultura no estado do Rio Grande do Norte ou na cidade de Natal há muitos anos. Não vi isso nos últimos 20 anos. Existe a cultura dos eventos, o incentivo para realização de eventos pontuais que, no geral, deixam muito pouco para a cidade ou o estado. O fomento, que é garantir continuidade, estruturar fazedores de arte, espaços de criação e formação, não existe aqui”, lamenta Henrique Fontes, um dos diretores da Casa da Ribeira.

Parte dessa história de duas décadas está registrada no documentário “Casa da Ribeira – 20 anos de um sonho”, que será lançado neste sábado (20). Além de ser disponibilizado online, o documentário também terá lançamento presencial na Casa da Ribeira, seguindo todos os protocolos de biossegurança para a covid-19. A plateia será rotativa com, no máximo, 40 pessoas, seguindo o que está previsto nos decretos estadual e municipal.

“Esse espaço tem uma função, garante a expressão de liberdades para que eu possa falar criticando abertamente o poder público, qualquer outra iniciativa ou pessoa. A arte precisa desse lugar de fala livre e a cultura só pode se tornar maior e presente se a alimentarmos desse espírito mais livre, agregador. Desse desejo de que ela seja de fato diverso, com acesso diverso, com produção e trocas diversas”, defende Henrique.

Manter a Casa da Ribeira é manter viva essa utopia de que existe um lugar possível para a gente livremente se expressar, debater, adquirir formação, educação, onde a diversidade pode conviver sem nenhum tipo de preconceito, restrição, sem que aceitemos qualquer tipo de desavença só pela diferença.”

Henrique Fontes, diretor da Casa da Ribeira

Casa da Ribeira quase fechou duas vezes e foi reaberta com apoio da iniciativa privada e do público

Casa da Ribeira / foto: divulgação

Sem um programa contínuo de fomento, a Casa chegou a fechar as portas por três meses no ano de 2003 e só foi reaberta graças a algumas iniciativas:

Foi um momento lindo, ao mesmo tempo que trágico. Foi lindo o movimento capitaneado, na época, por Osair Vasconcelos e Tertuliano Pinheiro que mobilizaram a iniciativa privada pra manter a Casa durante dois anos com contribuições mensais sem isenção fiscal nenhuma. Eles tiravam do próprio lucro mil reais por mês cada um. A manutenção da Casa tem um custo muito baixo, em torno de 15 mil a 17 mil reais se você parar pra pensar que com menos de 300 mil reais você consegue manter um espaço como a Casa da Ribeira por um ano, com acesso facilitado… é isso, as discrepâncias e as ironias de onde há valor, o que se valoriza, de fato”, critica Henrique Fontes.

A ideia é que o documentário “Casa da Ribeira – 20 anos de um sonho”, seja apenas o primeiro de uma série que vai contar os anos de persistência para manutenção do espaço. A produção foi viabilizada através de recursos do Governo Federal e Prefeitura de Natal, pela Lei Emergencial Aldir Blanc.

“Foi a iniciativa privada e o público em geral foi que garantiu que a gente continuasse aberto, sobretudo o público que chega junto, compra ingresso, souvenir na lojinha, que tá disposto a financiar campanhas como a gente fez no ano passado, quando começou a pandemia. É a esse público que esse espaço se dedica e a gente só continua, 20 anos depois, por causa dele. Manter a Casa da Ribeira é manter viva essa utopia de que existe um lugar possível para a gente livremente se expressar, debater, adquirir formação, educação, onde a diversidade pode conviver sem nenhum tipo de preconceito, restrição, sem que aceitemos qualquer tipo de desavença só pela diferença. Manter esse espaço é fundamental por acreditarmos que é um símbolo de possibilidade de que todos esses aspectos da sociedade, nem que seja nesse microcosmo, libertário e utópico, possam existir para conhecermos e convivermos melhor com as pessoas”, defende Henrique Fontes.

Serviço:

Documentário Casa da Ribeira – 20 anos de um sonho
Lançamento: Sábado (20.02)
Horário: 17h presencial (entrada gratuita – a Casa da Ribeira fica na Rua Frei Miguelinho, 52 – Ribeira)
20h online

 

 

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