OPINIÃO

Quando a festa acabar

O Brasil avançou para as quartas de final da copa do mundo e o torcedor, esse eterno refém da esperança, começa a retirar do armário a camisa mofada da Seleção. O jogo contra o México trouxe algumas boas novas: (1) Neymar, apesar do melodrama, parece que desencantou e resolveu jogar bola ao invés de rolar e reclamar do juiz; (2) a Seleção se mostra cada vez mais ajustada, avançando com uma defesa sólida e com um ataque sempre faminto por gols (do jeito que o povo gosta); (3) o técnico, sem a pieguice emocional de Felipão ou a agressividade gratuita de Dunga, passa confiança e demonstra ter o time na mão.

Esses são ingredientes perfeitos para uma mistura vitoriosa nos gramados. Se as coisas continuarem assim temos tudo para passar pela badalada Bélgica, que sofreu para ganhar do Japão (com sua estratégia kamikaze de atacar, atacar e atacar… até morrer).

Como sonham quatro em cada cinco brasileiros, uma passagem para a semi-final implicaria mais uma semana de festa, para a alegria das fábricas de cerveja, dos supermercados e das churrascarias espalhadas do Oiapoque ao Chuí.

Apesar do entusiasmo, a questão que fica é: e quando a festa acabar? Que Brasil vai sobrar pra gente enfrentar depois da copa?

Certamente sobrará o Brasil da Lava Jato, e de seus efeitos avassaladores no sistema político e na ordem jurídica nacional. Sem sombra de dúvidas vai sobrar o Brasil do dólar alto, do desemprego que não cede, da gasolina que não baixa, da descrença generalizada na ordem democrática e no sistema de representação liberal. Um Brasil da paranoia urbana e da violência galopante, mesmo com as espetaculosas intervenções militares que põe blindados na rua com a mesma falta de cerimônia que alvejam crianças com farda escolar.

Ficará um país de executivo morto vivo, de um legislativo vampiro que enche de agrotóxico o sangue do eleitor e de um judiciário mumificado, fraturado pela politização que contamina o Direito.

Mesmo assim, há alguns bons motivos para se ter esperança.

Afinal também teremos um Brasil que se indigna com o assédio sexista de torcedores brasileiros contra jovens russas, que aprendeu a ouvir mulheres narrando e comentando jogos de futebol no canal Fox Sports, que não baixa a guarda com os comentários racistas e xenófobos contra jogadores negros, imigrantes ou refugiados. Um Brasil que não perdoa as simulações de Neymar e que quer ganhar o jogo no campo, e não no tapetão. Um país que ainda mantém alguma fé em recuperar a democracia perdida, mesmo diante de uma ordem institucional cada vez mais fechada no projeto de obrigar o povo a escolher o que o tal “mercado” quer que ele escolha.

Na copa em que Lionel Messi e Cristano Ronaldo, dois dos maiores craques que o futebol colocou no mundo, saem de cena no mesmo dia, tropeçando nas oitavas, o brasileiro talvez tenha finalmente a chance de entender que no jogo da política, assim como no campo da bola, o esporte é coletivo e que nenhum Messi e nenhum Messias, por mais que seja um craque, consegue virar o jogo se o time não atua junto.

Aliás, esse é o grande paradoxo do Brasil.

Somos mestres nesse esporte coletivo que é o futebol e, ao mesmo tempo, não conseguimos, com raras exceções, pensar comunitariamente o nosso mundo da vida. Somos cotidianamente bombardeados por um discurso que nos deseja solitários, isolados e fragmentados em nossos campos ideológicos. Paralisamos, atrás de nossas cercas elétricas e nossos carros blindados, diante de um pavor do mundo. Acreditamos realmente que um craque qualquer, apenas com talento e improviso, colocado no cenário do embate público, pode resolver nossos mais intrincados problemas políticos e não percebemos que o jogo que não se joga junto é um jogo onde se joga menos, onde se joga mal.

Se pudéssemos traduzir, no campo da política, o senso de conjunto que conseguimos transportar para o campo da bola, o país que iria amanhecer para a eleição, quando a festa da copa acabasse, já seria campeão, mesmo que não tivesse conseguido levantar a taça do hexa nos gramados de Moscou.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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