OPINIÃO

Quando a mídia desfaz a democracia

No Brasil que vivemos, não há muita margem de interpretação quando as manchetes dos principais portais noticiosos na internet envolvem questões sociais, de raça, gênero ou sexualidade. Ou você é daqueles que não tolera baderna, invasão de propriedades ou “mimimi” de feministas e LGBTIs; ou você está do lado dos que lutam contra violações de direitos das mulheres, dos trabalhadores sem terra, dos trabalhadores sem teto, da população em situação de rua, dos moradores da periferia, da população LGBTI, dos jovens negros…

Escolher o lado dos defensores de direitos certamente não é nada confortável. Pelas ruas, ônibus, restaurantes de luxo e até na periferia é fácil esbarrar com discursos de combate a uma ideia enviesada e esvaziada de “direitos humanos” – amplificada pelos berros de apresentadores raivosos de programas policiais na televisão. Para o “pessoal dos direitos humanos”, está cada vez mais difícil e arriscado convencer indivíduos, instituições e mesmo o Estado que os trinta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos precisariam alcançar a todos para que pudéssemos conviver de forma digna.

Do outro lado, e com uma ajudinha da mídia conservadora, está cada vez mais fácil convencer qualquer “cidadão de bem” que “bandido bom é bandido morto”. As manchetes nos jornais e portais da internet, além do palavrório transmitido pelo rádio e pela televisão ajudam a reforçar o ideário das elites, que sutilmente propõe a desconstrução dos princípios da cidadania e mina a consolidação da tão frágil democracia brasileira.

Nada disso é novidade. Estamos cansados de saber que os grandes veículos de comunicação combateram, lado a lado com os governos militares, a ameaça comunista no Brasil – feito pelo qual foram muito bem recompensados não somente com verbas publicitárias. Então, veio a abertura política e as diretas ficaram para depois. Para depois das farras das concessões de rádio e televisão. Foi aí que deputados, senadores, governadores e prefeitos passaram a povoar as ondas do rádio e da televisão. Quase passamos a acreditar que meio de comunicação é, naturalmente, “coisa de político”.

E durante muito tempo, parecia não haver alternativa. Tornou-se natural. A mídia tradicional era conservadora e ponto. Nos restava, do lado de cá, produzir uma mídia de guerrilha para tentar se contrapor aos magnatas da comunicação. Aí, veio a internet. Livre, plural, democrática, sem fronteira. E pensamos: agora vai! Muito rapidamente, a rede permitiu potencializar alternativas de comunicação e quase gerou a ilusão de que o território era livre mesmo. E vieram os robôs e as fake news.

E como chegamos até aqui? Minha teoria é que tem algo com essa tal liberdade de imprensa – que não é a mesma coisa da liberdade de expressão. Por causa dela, nos fizeram acreditar que é preciso deixar as coisas rolarem quando o assunto é comunicação social. Para garantir a liberdade, basta que o Estado não interfira no assunto. E assim, entra governo e sai governo, entra congresso e sai congresso, nunca regulamentamos os artigos da Constituição de 1988 que tratam do tema, não criamos mecanismos para punir os abusos dos meios de comunicação, nunca atualizamos a legislação que rege o setor, nem controlamos a propriedade dos meios de comunicação.

Em nome da liberdade de imprensa, criamos um sistema de comunicação onde cinco famílias controlam 26 dos maiores grupos de mídia do país. Cinco famílias que podem difundir ideias livremente pelas ondas do rádio em uma toada capaz de abafar todo o burburinho da diversidade brasileira.

Tempos atrás, reclamávamos democracia na mídia para completar a democracia no Brasil. Agora, na falta da democracia, a mídia não tem mais do que reclamar.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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