OPINIÃO

Quando a vida pede passagem

Trazia consigo o peso do mundo todo, o cansaço da vida estampado no rosto. Mas, até por isso, e porque era como se doesse a alma, ela não conseguia sentar ou ficar de pé. Como se qualquer posição fosse por demais incômoda. Notei logo quando ela passou devagar pela porta quase fechando do vagão das mulheres.

E as outras pessoas, espremidas do metrô, preocupadas demais com seus próprios mundos vindos da tela reluzente, ou com a simples e egoísta vontade de chegar logo em casa, não perceberam a inquietação dela. Paralisou no meio do ato de sentar na vaga azul, reservada àqueles que tem o direito como recompensa da experiência.

Cheguei mais perto, porque parecia que poderia cair a qualquer momento. Ela suava, tinha o olhar aflito, peito explodindo de uma agonia que não cabia naquele vagão.

Perguntei se estava bem. Confessou não dormir havia dois dias, que passou em um hospital. Algum parente convalescente de uma cirurgia arriscada. Convenci a descer na estação seguinte, na minha companhia, para respirar um pouco. Porque revelou não ter comido nada, ofereci bolachas, única coisa que eu tinha na bolsa. Ofegante, pálida e trêmula, aceitou.

Avisei que iria em busca de ajuda e subi correndo as escadas da estação do Guará. Arranjei-lhe um copo d’água e desceram comigo dois funcionários, um deles socorrista. Mediram pressão, ouviram coração, mas não existia nada, nem mesmo bolachas, que aliviassem o peso do mundo todo e o cansaço da vida estampado no rosto. E nada também, nenhum instrumento, que detectasse aquele profundo lamento incapacitante…

Tentei, afinal, lhe garantir, com um sorriso, que tudo ficaria bem. Metade da boca tentou retribuir, mas o resto dela ainda era dor. Agradeceu, mesmo assim (o que eu deveria ter feito, na verdade). Disse que o filho estava a caminho. Me despedi, porque minha vida me esperava também, por mais que eu quisesse permanecer ali até ter certeza de que o sorriso funcionara como devia.

Fui embora, e, no resto do caminho, descobri que eu não era mais a mesma que embarcou na estação central… E eu a levo comigo até hoje… E só agora, meses depois, consegui compartilhar aqui, em parte, o sentimento dessa transformadora viagem de metrô…

Essa crônica foi escrita como parte do livro “Cinco contos”, ainda em formação, inspirado no preço da viagem de metrô em Brasília

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