CIDADANIA

“Quando levamos a discussão do racismo para a escola, a gente transforma a sociedade”, diz especialista

As aulas da professora de Artes Visuais Cláudia Moreira nem precisam tocar no tema para inspirarem a cultura antirracista, embora ela esteja sempre pronta para falar:

“Minha presença como professora negra já é importante. Os negros precisam estar ocupando cargos e lugares para que naturalizem essas pessoas. Dentro da escola e das artes visuais eu tento naturalizar a presença do negro”, conta, sem diminuir a importância de atividades que proporcionam esse debate, como o 20 de novembro.

O Dia da Consciência Negra é um momento de reflexão e combate ao racismo, além de importante data no calendário escolar que auxilia na efetivação das Leis nº 10. 639/2003 e 11.645/2008. Os dois dispositivos jurídicos tratam da obrigatoriedade na rede municipal de Natal do ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena. Não se trata de uma disciplina específica sobre o tema, mas o conteúdo precisa ser transmitido aos estudantes de forma interdisciplinar.

Cláudia Moreira atua na rede básica de ensino estadual e municipal de Natal e destaca que é importante oferecer formação adequada aos profissionais da educação para trabalhar as relações raciais em sala de aula.

A professora é especialista em Cultura Afro-brasileira e Africana, pela UFRN, e mestre em Artes Visuais, pela UFPB. Ela lembra que o curso de especialização do qual participou foi ofertado uma única vez, em 2014, [durante o governo Dilma Roussef, resgata] formando duas turmas, uma em Natal e outra em Caicó.

“O professor precisa estar preparado para lidar com o racismo na sala de aula. A força que o debate traz para a formação desses alunos, o pensamento crítico… eles entenderem o seu colega, o espaço, a construção do país. Quando a gente leva a discussão para a escola, a gente transforma a sociedade”, resume a docente, que considera essas leis, meios de reparação da violência cometida contra o povo negro ao longo da história do Brasil.

“Professores precisam se desconstruir pra poder fazer uma construção diferenciada para os estudantes, nós não podemos perpetuar uma formação racista. É importante que a lei fomente também a formação do professor”, alerta.

Cláudia ressalta também que o dia 20 de novembro, assim como as cotas raciais e outras ações afirmativas, são conquistas dos movimentos negros do país e buscam minimizar o processo de violência histórica que se perpetua até os dias atuais.

A professora-artista explica ainda que é preciso ter em vista que as “relações perversas do racismo” estão enraizadas na sociedade, no país e nas mais diversas instituições, inclusive na família e na escola. Por isso, é tão importante abordar de forma adequada a questão.

Cláudia escolheu a educação e a arte como método de transformação. Assim, sua biografia e a cultura afro-brasileira estão presentes tanto no fazer pedagógico como no artístico.

“Dentro das aulas de artes, eu tento trabalhar a questão racial da forma mais natural possível. Eu sou uma professora negra. Tratar das minhas questões é natural pra mim”, diz, ressaltando a importância de apresentar a cultura negra para além da escravidão e da marginalização, contribuindo para despertar o pertencimento e o orgulho da negritude.

“É bom que a gente aborde esse tema com os alunos de forma não-violenta, contando a história dessas pessoas, mostrando eles como artistas, mostrando a riqueza da África, quais são as contribuições importantes do povo negro para a cultura brasileira”, alerta a professora.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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