OPINIÃO

Quando nossa época acaba

O guarda Korotiêiev, que estava de plantão no Kremlin naquela noite quente do fim de agosto de 1991, se espantou quando encontrou um corpo no gabinete 19 do Bloco 1.

O cadáver estava pendurado na sala e, para o espanto do jovem militar, trajava um impecável uniforme de marechal do exército vermelho, com todas a medalhas que lhe fazia jus a posição, penduradas no casaco.

Provavelmente a opção do enforcamento teria se dado em função de algum preciosismo estético. Não caberia bem, a um marechal da União Soviética, manchar seu uniforme com o sangue de um suicida. Por isso a opção por usar sua pistola, apesar de mais cômoda, não parecia a mais correta.

No bolso do casaco um dos cinco bilhetes escritos de próprio punho pelo militar que naquele momento, exatamente as 21:50, balançava pendurado na forca, atestava a opção pelo mais difícil: “Não sou especialista em preparar instrumentos para o suicídio. A primeira tentativa (às 4:40) não deu certo: o cabo se rompeu. Juntarei forças para tentar tudo novamente…”.

Junto dessa desconcertante descrição de seus momentos finais, havia um bilhete para a família, um outro para o também Marechal do exército vermelho, S. Sokólov solicitando ajuda para as despesas com o funeral e um outro com uma quantia em dinheiro afixada e a solicitação de que fosse usado para quitar uma dívida pendente no refeitório do Kremlin.

No quinto e último bilhete, como descreve Svetlana Alekisévitch, em seu livro O Fim do Homem Soviético, o militar do exército vermelho Sergey Fiódorovitch Akhromeyev, Marechal da União Soviética, aquela altura apenas um corpo sem vida pendurado no seu gabinete de trabalho, declarou com a própria caligrafia: “não posso viver quando minha pátria está perecendo e quando tudo o que deu sentido à minha vida está sendo destruído, minha idade, e a vida que tive me dão o direito de deixar a vida. Lutei até o fim”.

Akhromeyev havia servido na infantaria naval durante o cerco a Leningrado quando tinha 19 anos e fazia parte da linha dura do regime que atuou no golpe fracassado de Agosto de 1991 contra o presidente Mikhail Gorbatchov, enxergado por muitos russos como um traidor a serviço dos norte americanos.

O seu suicídio repercutiu bastante e marcou, junto com o golpe fracassado de Agosto, o sinal de que o mundo soviético tinha desabado.

Poucas experiências foram tão marcantes para a geração de militantes comunistas que nasceu, cresceu e morreu no século XX quanto a súbita implosão do regime soviético.

Na minha infância, na virada dos anos 70 para os 80, nada parecia indicar que em muito breve o mundo “bipolar” iria ruir e que a experiência do socialismo “realmente existente” desmoronaria na Europa oriental de forma tão brusca.

Particularmente me lembro bem do desnorteamento que se seguiu, nas fileiras da esquerda brasileira, àquele desmoronamento, comemorado com fogos de artificio e longas reportagens no Jornal Nacional e incensado em salões acadêmicos como o atestado de que a história, finalmente tinha chegado a seu fim, com a épica vitória dos paladinos do “mundo livre” liberal contra a “monstruosidade totalitária” do marxismo-leninismo.

Em 1994, o filósofo alemão Peter Sloterdijk, chegou a decretar, em seu livro Se a Europa Despertar, que a experiência política radical do século XX, que colocou sob risco de extermínio nuclear toda a população da terra, havia se encerrado.

Essa sensação de fim de época era tão evidente nos anos 90, que a gente podia até sentir o cheiro de mofo no ar, sempre que alguém falava o nome de Marx e Lênin. A nova ordem mundial estava lá, posta diante de nós a cada manchete de jornal e comentário de cientista político nos auditórios universitários. Capitaneada pelos “vencedores” norte americanos que precisariam agora fabricar seus próprios novos inimigos imaginários para justificar seu poder militar hegemônico sobre a terra, os adeptos do liberalismo político nos convenciam a todo tempo de que agora a onda era outra e que as pautas da esquerda precisavam de um recall.

Mas na Rússia de Boris Ieltsin as coisas não foram o conto de fadas que venderam pra gente do lado de cá do planeta.

A descoberta do poder do capital (esse insaciável demônio fáustico) foi como uma explosão atômica que devastou a alma russa. As longas filas em busca de bens de consumo, que eram a imagem mais evidenciada do mundo soviético nas telinhas de nossas TVs durante os anos 80, foram substituídas por multidões de pessoas desfilando diante de vitrines de lojas, cheias de produtos que antes não existiam e que agora estavam ali diante dos olhos fascinados de uma população que descobria o feitiço entorpecente do inescapável capitalismo com dominância financeira.

A monotonia cinza do mundo soviético se desfez com a entrada em cena de um caleidoscópio de embalagens coloridas e imagens de produtos desfilando diante de uma população que havia sido educada na ideia de sacrifício pela coletividade e que não sabia lidar com a demanda liberal de autorrealização. Esse trauma ideológico não desmantelou apenas a burocracia do partido comunista ou a imensa máquina estatal soviética mas também a própria tessitura social do povo russo, que começou a acompanhar da janela dos seus apartamentos uma explosão no consumo de drogas ilícitas, tiroteios generalizados, miséria, guerras étnicas, distúrbios raciais e uma acensão vertiginosa e desconcertante do crime organizado em direção as mais altas estruturas de poder.

A elite soviética era uma elite bastante intelectualizada. Doutores, cientistas, artistas, filósofos e escritores ocupavam, junto com os burocratas que gerenciavam a máquina pública, um lugar de destaque no campo do imaginário soviético.

Subitamente, nos anos que se seguiram ao suicídio de Akhromeyev, essa elite leitora de Hegel e Marx passou a ter de vender chiclete no metrô ou revirar o lixo em busca de comida pra sobreviver, enquanto observavam atônitos, jovens que contrabandeavam produtos ilegais pela fronteira, traficavam drogas e investiam em redes de prostituição e tráfico de mulheres, se tornarem oligarcas bilionários fazendo negócios escusos com o antigo patrimônio do “povo soviético”, vendido ao crime organizado internacional pelo preço per capta de uma garrafa de Vodka.

O conto de fadas dos supermercados onde se tinha tudo mas não se podia comprar nada por falta de dinheiro, gerou tanto desconcerto quanto a imposição ideológica de uma felicidade liberal , para o qual o russo, com a alma vasta como a estepes da Ásia central não estava pronto para experimentar.

Viver por viver, em uma busca constante do prazer hedonista do consumo, não parecia, definitivamente, ser algo que combine com a alma de um povo que nos legou Dostoiésvski e que havia sido educado a buscar um “sentido para vida” no sacrifício cristão ortodoxo pela pátria.

Foi nesse contexto de desmoronamento e perplexidade, aproximadamente um ano após o suicídio do marechal Akhromeyev, que um outro senhor idoso visitou a fortaleza de Brest.

No dia 22 de Junho de 1941, essa fortaleza erguida entre 1838 e 1842, foi a primeira construção fortificada da URSS a sofrer a investida das tropas de Hitler, e durante o período soviético havia se tornado um museu muito visitado.

Aquele senhor de 77 anos que tinha origem tártara (como Lênin pela parte da pai) e que chegava naquele começo de Outono de 1992 à fortaleza de Brest era Timerién Zinátov.

Ele era muito conhecido dos funcionários do museu por ter lutado em Brest no verão de 1941 contra as tropas nazistas e ter sido condecorado com a ordem de 2º grau da grande guerra patriótica.

O então jovem Zinátov foi ferido em Brest, preso pelos alemães, conseguiu escapar e se reagrupar às tropas soviéticas onde terminou a guerra como começou, como um soldado raso do exército vermelho. Depois da guerra foi viver na Sibéria, em Ust-Kut, onde participou da construção da grande ferrovia de Baikal-Amur.

Os funcionários do museu lembram que naquele dia ele havia comentado com tristeza acerca da diminuição das visitas ao museu lamentando que “agora é moda denegrir o passado soviético”. Deixou a fortaleza numa sexta feira, comentando que iria passar o fim de semana em casa, com a família.

Quando os funcionários do museu retornaram ao trabalho na segunda tiveram a notícia que o simpático velhinho que sempre os visitava, defensor da fortaleza de Brest no verão de 1941 e sobrevivente da grande carnificina que foi a guerra contra o nazi-fascismo, havia se jogado debaixo de um trem.

Conta-se que após o fim da guerra, em Maio de 1945, foi encontrado nos subterrâneos da fortaleza de Brest uma inscrição feita à baioneta na parede , datada de 22 de Julho de 1941, onde se lia: “Eu morro mas não me rendo. Adeus, ó pátria!”

Posteriormente a frase foi escolhida como símbolo da fidelidade do exército vermelho ao Partido Comunista e da coragem demonstrada pelo povo soviético na guerra que definiu os rumos do século XX.

Muitos dos defensores sobreviventes da fortaleza Brest, nos anos que seguiram, garantem que o autor da frase era o tártaro Timérian Zinátov.

Para muita gente, o colapso da experiência soviética surtiu o mesmo efeito do colapso de um mundo. Um mundo que havia começado em Outubro de 1917, mas cujas raízes remontavam a experiências revolucionárias mais antigas, como as que varreram a Inglaterra em 1641, a França em 1789, o Haiti em 1791 e a Europa central em 1848.

Alguns vibraram com o colapso desse mundo, anunciando que o século XXI traria a boa nova de um período de paz e prosperidade capitaneado pelo império norte americano, supostamente o vencedor da grande disputa ideológica que definiu o século XX.

Para outros, como o Marechal Akhromeyev e o Soldado raso Zinátov o fim da União Soviética foi uma grande catástrofe. Um sinal mais do que evidente de que o mais perigoso de se viver muito tempo é que a gente corre sempre o risco de assistir nossa época acabar antes da nossa vida.

 

 

 

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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