OPINIÃO

Quando se lida com a morte, não existe direito de escolha

Quando você acha que tudo o que é estarrecedor se multiplicará em um 7 de setembro, em um país que mostra o que tem de pior com seu chefe de estado, e vem o dia seguinte e surpreende suas expectativas, o que fazer? Enterrar a cabeça num buraco, feito avestruz, apelar aos serafins, santos e orixás ou esperar a morte chegar é que não dá. Neste caso, aqui, tentamos as palavras, sonhando que caiam em terras ao menos razoáveis e deem, senão frutos, folhas e flores…

A divagação aí não é sem propósito… O assunto está na cabeça, mas tem a preguiça da verborreia do presidente impronunciável, tem as mazelas todas se alastrando no país por causa dele, tem mais de 128 mil vidas perdidas por Covid-19, tem mais gente dependendo de auxílio emergencial do que trabalhando de carteira assinada, tem pretos e pretas sendo assassinados/as, tem democracia todo dia ameaçada, tem intervenção no IFRN, na UFERSA… Tem praias, bares e o escambau superlotados com gente sem máscara. Mas, o inacreditável!, tem pais, mães, donos/as de escolas privadas se manifestando pelo retorno às aulas presenciais. E, pasmem, usando do argumento de que “as famílias têm o direito de escolher”.

Em meio a esse turbilhão de irracionalidades, relembro, agora, que o coitado do Comte – sim, ele mesmo, o pai do Positivismo, aquele conservador, propagava no seu manual positivista, lá por meados do século XIX, que o desenvolvimento da Ciência conduziria a humanidade ao pensamento racional de tal forma, que, em um futuro próximo, não se precisaria recorrer ao militarismo, à religião para resolver seus conflitos. O futuro próximo, o século XX, derrubou essa tese de August Comte: duas guerras, já no primeiro cartel desse século, destroçaram nações e pessoas – graças também ao desenvolvimento da ciência – e a própria filosofia positivista, bem… virou religião. E o pensamento religioso, mítico continuou a guiar as ações dos grupos humanos para todos os gostos (basta vermos hoje uma vertente neopentecostal, dentre evangélicos e católicos, dando a tônica do que tem de pior na política e em outras esferas da vida social). O pensamento mítico também norteia as condutas na seara da medicina – não sem ajuda dos oportunistas de plantão, claro, que, munidos de informação, por má fé desinformam, disseminam curas milagrosas sem que elas existam. E fazem-no, principalmente, quando o resultado disso é amealhar votos.

De qualquer modo, mesmo sabendo que a racionalidade por si só não nos basta, nem a Igreja Católica, que já andara tão de mãos dadas com o Estado, discute mais o papel relevante da Ciência. Porque é esta que identifica as causas dos fenômenos, ajuda a fazer previsões, promove soluções para os problemas – especialmente sentidas no que toca a doenças e suas possibilidades de cura. Então, quando enfrentamos um inimigo invisível, sobre o qual não temos informações que nos impeçam de ser abatidos por ele, é a ciência que chega para nos fornecer as estratégias de sobrevivência.

Nessa batalha, então, contra o Coronavírus, as informações foram dadas: isole-se; não saia de casa, se não for necessário; use máscaras; reforce a higiene; proteja a si e aos outros; grupos de risco, idosos são mais suscetíveis. O inimigo é um vírus que mata; para o qual não se tem cura. O combate a ele é a prevenção. Logo, se não há cura, não há vacina, se o vírus se propaga rapidamente, é fatal, o óbvio não se discute: retomar atividades que requerem aglomeração, interação, como escolas, não se decide por opinião. Não se decide por enquete. Não se decide por escolha. A decisão é dos órgãos de saúde. São eles os responsáveis por nos dar acesso ao conhecimento para que não nos submetamos ao risco. Já dizia Sun Tzu, no seu livro “A arte da guerra”, há mais de dois mil anos: nunca vá para o campo de batalha sem saber as informações sobre o que vem contra você. Melhor quando se ganha a guerra sem desembainhar a espada. E o que vivenciamos é uma guerra.

Quando, por fim, grupos de dono/as de escolas, educadores (pressionados por estes e pelo medo do desemprego), pais/mães fazem manifestação para retorno às atividades de sala de aula, onde mais se aglomera, com mais risco de circulação do vírus, deve-se levar a sério? Podem-se achar estratégias para lidar com o isolamento social, afinal, nosso cérebro serve para pensar coisas desse tipo e, sobre a vida estar difícil, está para todo mundo. Já pensaram em como anda a vida das crianças e suas famílias nas periferias?

Estratégias há para tudo. Só não há para fazer a vida retornar a um corpo que a perdeu. Portanto, frente a um contexto atípico de uma pandemia, quando se lida com a morte, não há possibilidade de escolha que não seja a preservação da vida. Frente a isso, se a escolha possibilita o risco, então essa escolha é pela morte.

Que a racionalidade, pois, seja-nos luz.

E, contrariando o velho Comte, nesse caso, ela vem do Colégio Diocesano de Caicó cujo diretor escreveu a carta aberta à governadora na qual conclama:

Rezemos igualmente pelos nossos representantes educacionais, para que iluminados pela Luz divina possam ter o discernimento em todas as decisões e que não se deixem levar por pressões ou interesses de grupos.”

Leia a carta do colégio Diocesano de Caicó na íntegra. 

 

 

 

 

 

 

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