OPINIÃO

Quando um grande pediu licença para falar de uma flor

Gente grande quando escreve para criança volta à infância, no sentimento, nas reações, na imaginação fértil. Pelo menos quando está a navegar pelos mares da ludicidade. Mas quando gente grande que escreve para adultos faz um livro para os pequenos, o desafio é ainda maior. Quem escreve para o público infantil em qualquer situação enfrenta um desafio comum e tem responsabilidade ainda maior, pois este público é diferente de qualquer outro. É o mais puro, verdadeiro e surpreendente que há.

José Saramago (1922-2010), o bardo português, topou este desafio ao abordar a relação de um menino e uma flor. No Brasil, “A maior flor do mundo” saiu pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ, publicado em 2001. Com ilustrações de João Caetano. Da aventura despretensiosa de um menino pelo mundo real, encontra um tesouro simples, uma flor, destinada a ser a maior do mundo.

Escrito em 2001, o conto infantil do escritor nascido em Azinhaga, região do Ribatejo no centro de Portugal com forte ligação com seus avós maternos, Jerônimo e Josefa (dos quais recebeu preciosas lições de simplicidade e afeto), contém a confissão do autor de que não sabia redigir para crianças. Não era falsa modéstia, era muito mais do que isso. Era respeito pelo público leitor tão peculiar. O homem pessimista, cético e com tanta habilidade em expressar a dor e desesperança humana, fez diferente quando mudou de público.

Humilde, desde o início, o autor traça o caminho de uma criança que foi encontrar refúgio na sombra de uma flor. Como se todos nós – homens feitos, mulheres crescidas, idosos calejados ou seres pueris – precisássemos de um regaço para descansar e dar uma pausa em nossos medos, solidões, estresses, frustrações e fantasmas. Ao se dizer menor para a tarefa, o escritor, não se diminuiu. Desceu de um pedestal que nunca cobiçou para falar uma linguagem que todo mundo entende. E deu mais uma aula de literatura.

Com Saramago, a estória que seria, foi. A obra não precisa de pormenores nem descrições excessivas, narrações inflamadas e o estilo aguçado e sôfrego de alguns enredos adultos. É simples como a criança e por isso mais difícil de fazer. O escritor não subestima a inteligência infantil, como deve ser, nem enche o texto de detalhes ou reflexões supérfluas. É fluidez universal, terna e despretensiosa.

Em tempo: Quem se interessar em conhecer mais sobre a infância, a formação e as histórias de José Saramago, saboreie “As pequenas memórias”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.

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