OPINIÃO

Quando vamos entender a polícia?

João Victor escreve aos sábados
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Existe um campo minado nas relações entre militantes de movimentos sociais/sindicais e membros de forças de segurança do estado. Ressentimentos de muitos confrontos, a ausência de uma formação humanizada e um debate enviesado sobre o que são os direitos humanos,  tudo isso somado a um acúmulo absurdo de responsabilidades exigidas da Polícia, levaram a um apartamento, muito funcional para quem está no poder, entre as forças de segurança e a luta por direitos.

Mas se a esquerda, dentro da multiplicidade de divisões que a forma,  não entender o quanto é fundamental enxergar o policial como um trabalhador, apoiando suas reivindicações, num momento limite como quando falta comida na mesa, vai ser  muito difícil conseguir estabelecer um diálogo sincero para que esses trabalhadores também entendam o que são os movimentos populares, a luta em defesa dos direitos humanos e as  nossas reivindicações.

Vivemos num mundo de sujeitos complexos,  de organização social complexa e a nossa polícia é justamente um extrato muito exposto disso. Desde sua fundação, a instituição recebeu autorização e demanda para usar  de expedientes autoritários quando isso é conveniente para o estado. Recrutando pobres para conter pobres, o estado impõe uma formação que perverte o sentido de força de segurança, transformado esses trabalhadores em massa que assegura o poder aos que estão no poder.

Ainda assim, são  extremamente pauperizados. Trabalhadores que tem negado o direito à livre manifestação do pensamento e nem podem, como nós, se organizar para exigir melhorias nas condições de trabalho. Cresce nas corporações o sentido da desmilitarização da polícia, debate que a sociedade precisa entender e apoiar. São reais, e não podem ser escondidos, independentes da ocasião, os relatos diários de abuso policial. Uma polícia treinada para os direitos humanos pode ser uma forma de conter abusos e condutas criminosas, mas é preciso lembrar que a polícia é lotada, em nossa sociedade disfuncional, de responsabilidades demasiadas. A grande maioria da sociedade exige da polícia as soluções para um caos social em que ela é parte, não resposta.

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Preciso lembrar também que não podemos tomar o corpo como a totalidade, existem na Polícia muitos que não fazem coro com uma relação abusiva da força e que tem uma visão progressista pra instituição. Muitas vezes, embriagados pela caricatura que fazemos da força policial, acabamos por pura imaturidade, isolando essas pessoas, que também não concordam com os problemas dentro da instituição, mas são silenciadas pela falta de eco de suas reivindicações.

Nas últimas semanas tem sido impossível ser indiferente a multiplicidade de dramas pessoais que a crise de gestão expõe.  Pessoas que passaram boa parte da vida seguindo ordens, salvando vidas em hospitais, educando em universidades, lidando com os extremos nas ruas das cidades, fazendo isso quase sempre sem recursos, agora lutam para garantir o direito a receber pelo serviço prestado ao estado.

A diminuição da esperança aqui é proporcional ao tempo de espera por um salário que não cai na conta e a comida que não chega na mesa. O governador, ao invés de assumir a inaptidão para gerenciar o caos que promoveu, preferiu acusar. Disse que o movimento de policiais é algo orquestrado para enfraquecer seu governo, como se esse já não fosse fraco por causas naturais.  Longe de ser grande orador, perdeu mais uma vez a chance de ficar calado.

A paralisação das polícias já chega na terceira semana, enfrentando o oportunismo de um judiciário com agenda eleitoral, a pressão de setores do empresariado e os problemas diários causados pela falta de dinheiro. Diante da humilhação e dos prazos para pagamento que só se alongam, o desespero toma o centro e policiais sem dinheiro atentam contra a própria vida,  decidem fazer greve de fome e choram algemados, uns aos outros, à espera de uma ordem desumana de prisão. Como ousam duvidar das convicções de quem não tem o que comer?

Quando se trata de movimento de trabalhadores, independente do nível de consciência desses que reivindicam, o caminho tem que ser de apoiar suas lutas. “Só a luta muda a vida”, isso é que repetimos sempre quando estamos nas ruas, então que esse seja o início de alguma mudança, mesmo que pequena, na organização dos policiais trabalhadores do Rio Grande do Norte.

 

 

 

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Jornalista e militante de direitos humanos