OPINIÃO

Quantos nomes nós temos ?

O mote para o artigo de hoje diz respeito a dois episódios.

O primeiro episódio presenciei já há alguns dias, mas ficou martelando no meu (pouco) juízo. Estávamos lá, curtindo a festa de aclamação da nova gestão da SAMBA (as meninas-medusas), no bar de Nazaré, ao som do implacável DJ Fernandinho. Quando eis que, ao tocar a versão “Fanatismo” na voz de Fagner, lá se vem uma figura vociferando para o nosso amigo, cheia de ódio:

– Não admito que toquem golpista! Fora os golpistas!

Eu ainda tentei contra-argumentar, pelejando pela paz (o que não é nada fácil):

– Mulher, quem está aqui é o artista, não o golpista…

– Fora golpistas! Minha filha, eu nem ouço Schumann…

Tá certo. A imagem que imediatamente me ocorreu foi a de uma pessoa gritando para pedir silêncio. Deixei para lá e fui dançar que era muito mais interessante.

O segundo episódio diz respeito à polêmica sobre a participação ou não da cantora e atriz Fabiana Cozza no papel de Dona Ivone Lara em musical a estrear em breve no Rio. Convidada para interpretar a grande dama do samba, Fabiana recebeu uma série de críticas e sofreu um conjunto de ataques verbais porque não teria marcada na pele a negritude suficiente que o papel exige (para ver a excelente entrevista feita por Eliane Brum: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/02/opinion/1530536103_327593.html).

Esses episódios são excelentes oportunidades para se discutir a questão das identidades. Acho bonito quando um indivíduo se sente integrado a um grupo que se afirma como uma unidade a partir de alguns traços em comum (que vão desde uma nacionalidade étnica até preferências musicais). Em certa medida, estamos todos integrados em alguma identidade. O que me causa certo desconforto é perceber que, em alguns momentos, o discurso da identidade passa a ser fundamentalista e totalitário, como quando certas militâncias que reclamam da opressão machista ou racista, por exemplo, agem igualmente opressoras ao se referirem, generalizantes e cheias de desprezo, a “machos” ou “branquelas”. Como quando aqueles que condenam as tiranias que queimaram livros no passado hoje querem censurar certas leituras como Monteiro Lobato.

Alguns nomes que admiro fazem uma discussão interessante sobre identidade. Eu ia dizer Foucault, Stuart Hall e Maffesoli, mas, para não ser nomeada taxativamente como “eurocolonizada”, eu vou me referir a um latino, Mario Vargas Llosa e um livro seu em específico, O Falador. Nesse romance, misto de ficção e fato, Llosa conta a estória de um sujeito, universitário e urbanóide que, à revelia de uma singularidade física de nascença, consegue entrar para uma tribo isolada da Amazônia peruana, tribo essa conhecida, dentre outras peculiaridades, por matar bebês com defeitos de nascença. O que esse enredo sugere, dentre outras possibilidades, é a reflexão: quantos nomes nós temos? Quantos podemos ser?

Evidentemente, temos uma imanência, somos necessariamente um indivíduo, dotado de um corpo uno e inequívoco (mesmo no carnaval e outras festas à fantasia). Mas quantas dimensões sociais, culturais e situacionais não podemos assumir? Quantas facetas, roupagens, personas e máscaras não nos tornamos, de acordo com lugares, momentos e cenas que vivenciamos?

Assumir essa condição de pluralidade não tem que ser necessariamente algo ruim. Pensar que essa “versatilidade” não deve existir seria cair na velha dicotomia maniqueísta “verdadeiro versus falso” ou ainda, mais polarizantemente ainda, “bom versus mal”.

Escrevo isto e já ouço uma voz imaginária me rebater, com um pouco de cinismo e não sem sua dose de razão: “ah, tá, Joseph Goebbles, o ministro da propaganda nazista, era um ótimo pai, está perdoado então…” Eu não saberia o que responder a essa voz porque nada é simples e é isso o que eu gostaria de dizer aqui neste artigo. Nada é simples. E julgar é muito fácil. Nós ficamos cobrando coerência dos outros quando nós mesmos somos sempre carregados de contradição. E reduzir a obra a algum aspecto do indivíduo me parece igualmente errado. Não devemos mais ler Jorge Luís Borges? Negaremos o valor de um Villa-Lobos?

O que eu queria dizer é que eu prefiro o Fagner artista ao golpista (ou ainda ao plagiador, ou ao babão dos Jereissati, ou ao “Fagnólia” das fofocas mesquinhas). Prefiro pensar que a trajetória artística de Fabiana Cozza a autoriza sim a interpretar Dona Ivone, mais que o tom de sua pele (até porque colorismo não define negritude). Entre o lado feio e odioso da vida, eu prefiro o que – ainda – há de leve e belo. Bonito, bom, bacana, quantos nomes pudermos dar a isso.

E por falar em beleza, agora vou ouvir uma canção: https://www.youtube.com/watch?v=QowTobOJWCY).

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