OPINIÃO

Quarentena days!

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Sim, acabou acontecendo. Em meio um governo federal desastroso (e autoritário), crise econômica, reformas, dólar a 5 reais, desemprego, ainda tínhamos a sombra do Coronavírus, o Covid19, o tal vírus que veio lá da China, passou pela Europa e parecia algo distante de nossa distopia tropical, até que chegou aqui e a sombra virou algo concreto, com casos registrados que aumentam a cada dia, uma incômoda subnotificação e mortes. Mais que isso, a expectativa de que as coisas piorem e que o sistema de saúde entre em colapso nos próximos meses.

Para que este cenário de caos completo, a pior das hipóteses, não aconteça, estamos todos em quarentena, ou isolamento social, melhor dizendo. Voluntário, determinado e necessário. De maneira que a quarentena em si, ou melhor (ou ainda, pior) como viver nela e sobreviver a ela , tornou-se o principal assunto de boa parte da população brasileira, pelo menos nas bolhas que envolvem a classe média, que tem condições de fazer uma quarentena com um mínimo de qualidade, mantimentos e recursos. O isolamento social de classes menos favorecidas, da população mais pobre e a impossibilidade de faze-lo com a população de rua falaremos em outro texto.

O fato é que a quarentena mudou a vida de todo mundo, direta ou indiretamente. Funcionários públicos ou da iniciativa privada com condições de realizar o trabalho em casa (o que recebe o nome esnobe de home office) experimentam o confinamento de maneira mais objetiva, tranquila e até lúdica. Já funcionários que tem de realizar atividades no local externo ou mesmo na rua (e são muitos), realizando uma quarentena parcial, estão mais sujeitos ao vírus e veem a coisa de maneira mais tensa.

E existe a gama de pessoas, profissionais autônomos para a qual a quarentena os condenou a não ter dinheiro a receber (embora os boletos e a necessidade de manutenção estejam aí). Muitos amigos e amigas artistas e que gravitam na cadeia produtiva na cultura estão extremamente preocupados. Alguns já estão fazendo “lives”, ou seja shows ao vivo pelas redes sociais, de suas casas, e essa é uma maneira de mostrarem seu trabalho, assim como quem os assiste  – em síntese, todos nós – tem a chance de colaborar financeiramente, transferindo dinheiro para as contas bancárias que eles exibem durante a transmissão, ainda que seja o valor do courvet artístico que se pagaria caso em um bar ou restaurante.

O confinamento também exibe posturas de vida e visões de mundo diversas. Tem os que acreditam que o negócio é manter a vida normal, não entrar em pânico e aproveitar o que pode ser feito dentro de casa, Nestes casos, da-lhe nas redes sociais fotos de cerveja, vinhos, filmes, comidas. Tem a turma do humor também – necessário em temos de caos e tensão – que passa o dia a entupir as redes sociais e grupos de Zap com piadas, stickers e memes. Rir para não chorar, talvez. Mas, é válido.

Tem aqueles que decidiram embarcar no mundo no Covid19 e passam o dia estudando sobre ele. Haja vídeos, áudios, pesquisas, jornais em línguas diversas, gráficos e tabulações. Sabem quantos infectados a Alemanha registrou de quarta-feira para hoje e tem elaborados gráficos sobre as curvas dos contágios em trinta países. Não se pode dizer que estejam errados. O problema, na verdade, acontece quando um subgrupo deste acredita em todo e qualquer vídeo que qualquer pessoa minimamente parecida com um médico grave. Aí mora o problema, porque são justamente os que compartilham o material geralmente falso e alarmista nas redes, gerando tensão e medo entre os amigos. É hora de ter cuidados e prevenções, não de “tocar o terror”, como se diz.

Existem ainda aqueles que normalmente já vivem uma espécie de isolamento social voluntário e rigoroso há muitos anos, portanto, estão no ritmo normal de vida e até achando certa graça que a humanidade se adequou ao estilo deles. Dois espécimes destes, os amigos queridos Sandro Fortunato e Henderson Dantas, acham graça de quem está focado em Netflix, filmes, livros e pesquisas, afinal, eles estão nessa há tempos.

Entre os confinados, há os que têm dificuldade em ficar em casa e gostam mesmo, sejam casados ou solteiros, é da rua. Estes devem estar em situação tensa, ainda que não mostrem (ou não possam mostrar). Claro que para todo mundo é difícil não poder sair para atividades de lazer, mas para quem faz disso um estilo de vida cotidiano e sistemático a casa deve parecer uma prisão quase literal.

Por mim, há os que se arvoram em ser produtivos, caso em que me incluo. É a política de fazer do limão uma limonada, ou seja, já que recluso por tempo indeterminado, que se saia dessa história com poesias, contos, romances, músicas, pinturas e projetos, como vaticinou no Facebook a escritora Maria Valéria Resende, ela própria workaholic cultural incansável. Não nego que estou nessa, ainda mais que li matéria garantindo que Shakespeare escreveu “Rei Lear” e “Macbeth” durante uma quarentena (e olha que pestes na Inglaterra elizabetana não eram brincadeira). Se eu sair dessa quarentena com algo próximo a, vá lá, “Tito Andrônico”, já me darei por satisfeito. Mas, o bardo inglês não tinha as redes sociais e os filmes a distraí-lo, claro.

Enfim, este texto se integra ao chamado “esforço de guerra”, para manter alta a moral da tropa. O Covid19 não é brincadeira, o isolamento é fundamental e teremos muitas más notícias pela frente. Mas, também é importante manter a serenidade e humor durante os tempos trancados em casa. Neste período de Quarentena Days, como disse um amigo escritor. Que nos cuidemos e cuidemos dos outros. Tempos ruins passam. Este, há de passar.

 

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