OPINIÃO

Que as sementes de Marielle brotem na luta LGBT!

O dia 14 de março estará marcado para sempre. É o aniversário de Leilane Assunção, professora universitária trans que morreu em 2018, por complicações de saúde, provocadas, por sua vez, por uma vida de opressões, exclusão e precarização material. É também o dia de nascimento de uma mulher negra brasileira gigante, Carolina de Jesus, escritora e autora do livro “Quarto de Despejo”, traduzido para cerca de quatorze línguas. Infelizmente, desde o ano passado, é um dia a ser lembrado pela morte de outra mulher negra brasileira gigante, Marielle Franco.

Aliás, é geralmente assim que Marielle Franco é lembrada de partida, como uma mulher negra. Não é à toa que o resto vem depois. Eram talvez as faces das opressões mais estruturais e mais pulsantes em seu corpo, vida e lutas. Depois de caracterizá-la assim, é que dizem que ela era também cria da Maré, mãe, vereadora pelo PSOL, feminista e socialista. No meio de tudo isso, quando não apagam, lembram-se de dizer que ela era LGBT, bissexual ou lésbica.

Da lesbofobia silenciada à luta que faz florescer o futuro

Falar sobre este último aspecto de sua vida ainda é um ponto de incômodo, discordância ou incerteza. Lembro-me de ter sido “corrigido” quando escrevi a primeira nota sobre seu assassinato. Alguém me disse: “ela não era lésbica, como você está dizendo. Era bissexual.” Fiz a alteração à época. Semana passada, fui questionado novamente quando, em um texto de um panfleto, escrevi que ela era lésbica. Desta vez não alterei, pois já havia lido diversas entrevistas e até visto vídeos em que Marielle se colocava como lésbica. Já havia visto sua companheira de mais de 13 anos, Mônica Benício, referindo-se a Marielle assim.

Não é à toa que esses conflitos ainda ocorram um ano depois de sua morte.

Não há como se negar, efetivamente, mulher e negra. A orientação sexual, infelizmente, é, em muitas vidas, apagada com a força e a dor imputada pelas opressões. Marielle era uma grande mulher negra, sem dúvidas, mas não vivia livre de dificuldades, fragilidades, contradições e, mais especificamente, desse silenciamento. Ao contrário, era gente como a gente. Isso não a torna menor; torna-a ainda mais real e inspiradora.

Em entrevista à BBC, sua irmã, Anielle Silva, disse uma vez: “a minha mãe é muito católica. Ela (Marielle) não queria afrontar. Nunca quis. Então ela preferiu ficar mais retraída do que falar ‘olha, eu sou (lésbica)’ e tudo. Quando ela contou, a primeira reação da minha mãe foi o silêncio.”

No vídeo “Mônica e Marielle: uma história de amor interrompida” (https://www.youtube.com/watch?v=LwFGVh-1DTc&t=1s) – lindo e emocionante por sinal! –, Mônica fala que, até se conhecerem em 2004, nenhuma das duas havia pensado em se relacionar com outra mulher. Revela, ainda, que elas passaram sete meses namorando sem se mostrar para o mundo, por pressões dos contextos familiares e religiosos e pelas pressões machistas e LGBTfóbicas que afetavam duas mulheres, jovens e faveladas. Marielle e Mônica se separaram algumas vezes no começo do relacionamento devido a esses conflitos, tentando até relacionamentos com homens porque, em nas palavras de Mônica, seria algo “mais fácil”.

Com o tempo, retomaram de vez e consolidaram-se como casal, abriram-se para os amigos, para as famílias e para o mundo. Passaram a se identificar como lésbicas, mesmo que muitas pessoas à sua volta sigam, até hoje, chamando-as de bissexuais ou LGBT, tornando mais “aceitável” ou mais turvo quem, de fato, são essas mulheres.

O fato de Marielle ter tido uma filha ainda adolescente também confunde as pessoas, principalmente aquelas que não têm em mente que a sexualidade não é estática ou livre de pressões e violências sociais, dissonantes dos nossos desejos e afetos. Principalmente para aqueles que não entendem que o dizer, o sentir e o fazer não relevam a mesma face de nossas identidades e relações afetivas e sexuais.

Fortalecida e já na vida política, Marielle Franco não só não escondia mais quem era e quem amava no momento de vida em que foi assassinada, como dedicou tempo e força para fazer brotar lutas e projetos de lei para a população LGBT. É de sua autoria o PL 72/2017 do Rio de Janeiro, que inclui no calendário oficial da cidade o Dia de Luta contra a Homofobia, Lesbofobia, Bifobia e Transfobia. A data celebra o dia em que homossexualidade deixou de constar como doença do Código Internacional de Doenças. Outro projeto, por pouco reprovado pela Câmara de Vereadores do RJ, foi o PL 0082/2017, que inclui o dia da visibilidade lésbica no calendário oficial da cidade do rio de janeiro.

Uma atuação LGBT pra valer para além da visibilidade

Apesar de aguerrida nas lutas pela visibilidade LGBT, principalmente lésbica, e contra todos os tipos de LGBTfobia, o machismo e o racismo, Marielle ia além das lutas que buscam garantir que possamos ser quem somos com dignidade. Ela lutava também pelo direito de termos o que devemos ter, também com dignidade, buscando alargar os limites impostos por esse sistema que nos explora e oprime.

Marielle entendia que a luta por visibilidade segue sendo fundamental num mundo que ainda nos silencia e mata por sermos quem somos. Ela mesma já havia sido, por muito tempo, silenciada. Segue sendo ainda hoje, mesmo depois de executada por criminosos que devem por ter julgado-a pouco notável, quase invisível e fácil de fazer sumir de nossas memórias.

Diante do contexto que, inclusive, a assassinou, Marielle entendia que a luta por visibilidade não se trata só de uma luta apenas por identidade. É uma luta por vidas violentadas e exterminadas todos as horas do dia. Entendia que precisávamos reafirmar que nossas vidas importam até que não restassem dúvidas sobre isso. Sabia, porém, que esse viés é insuficiente e que não será plenamente garantido se não tivermos, ao mesmo tempo, outras condições de produção e reprodução material de nossas existências.

Por isso, Marielle também jogava a força de seu corpo e de sua voz de LGBT, mulher e negra na luta pela garantia de políticas públicas e direitos sociais para o povo carioca. Por isso, mesmo que fora de seu campo mais óbvio e recorrente de atuação – opressões e direitos humanos na cidade do RJ – a luta pela derrubada da contrarreforma da Previdência do governo Temer tinha Marielle em sua linha de frente. Por isso, seguiremos falando dessa gigante, cobrando respostas: quem mandou matar Marielle?

foto: João Victor Leal

Mas não precisamos, para isso, transformá-la em um mito que nos substitui nas lutas que nós mesmas e mesmos precisamos nos engajar para transformar nossa realidade. Podemos, em outra perspectiva, fazer do seu legado uma força que cultiva e faz brotar na gente as sementes que precisam ser germinadas no movimento sindical, de mulheres, negro, jovens e LGBT. Que esse germinar vá além do dia 14/03 e alcance o dia 22/03, quando as centrais sindicais estão chamando um dia nacional de lutas contra a proposta de contrarreforma da previdência do governo Bolsonaro. Que alcance o 25/03, Dia Nacional do Orgulho LGBT, em que lutaremos por visibilidade e pela criminalização da LGBTfobia no Supremo Tribunal Federal (STF), mas também por condições de vida, trabalho e direito à aposentadoria, mais dificilmente acessada pelas pessoas LGBT e, especialmente, trans.

Que o legado de Marielle nos faça compreender e aplicar, como já disse em um poema de minha autoria, que “os corpos que trabalham pelo pão são os mesmos corpos que são”!

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *