OPINIÃO

Que Exu ilumine e defenda Paulinho

No meu tempo de atleta profissional, se bem me lembro, não havia essa proliferação de evangélicos. Mas conheci muita gente boa que fazia parte de religiões de matrizes africanas. Sim, o futebol já foi, um dia, um grande depositário de “mandingueiros” do bem. Sempre tinha um massagista para fazer um “trabalho”, fechar as traves do seu goleiro e abrir as do adversário. Quem não conheceu o Pai Santana do Vasco da Gama? Poucos lembram, mas sua carreira como massagista não começou no Vasco. Ele passou por Botafogo, Fluminense e Bahia. Na Colina ficou famoso, especialmente, por ter feito “trabalhos espirituais”, com os quais alegava ter beneficiado o time e prejudicado seus adversários. Além de massagista, Santana era pai de santo e ex-lutador de boxe. Além de beijar a bandeira, outro costume dele era entrar em campo trajando roupas totalmente brancas. Em uma época, chegou a usar, inclusive, calças sociais e blazers dessa cor durante as partidas. Danilo Menezes, nosso gringo, conta histórias impagáveis dele.

É isso. Temos histórias de superstições de atletas em todos os esportes, que não deixa de ter ligação direta com a religião.

Aqui mesmo em Natal, quantas vezes esse tema foi dominante nos clássicos, claro, isso em tempos idos. Macarrão, lendário masseiro do América, falecido recentemente, de um lado, Zózimo, depois Furão de outro, pelo ABC. Urubus eram soltos dentro do nosso Machadão, trabalhos eram colocados nos pés das traves, charutos, farofas, bonecos espetados com uniforme de um clube ou de outro, enfim. Todo ex-atleta que tenha tido a oportunidade de trabalhar ao lado do massagista Lima, eu fui um deles, no Alecrim, sabe que eram lendários seus preparados, o cuidado para que os atletas não usassem nada pelo avesso (calção, meião, sunga) e sua fumaça de pólvora quando a equipe estava entrando no gramado, além da utilização dos seus “remédios abençoados” e as sempre presentes orações, sem deixar de passar alguns minutos orando agarrado ao seu cordão de conchas representando seus orixás antes da partida começar. Ressalto que ele não obrigava ninguém a segui-lo ou tomar suas “poções”.

Pouca gente sabe, mas em 1985, no ano da quebra do jejum do Alecrim, o time verde não ganhava um campeonato desde o título invicto do ano de 1968, uma mãe de santo veio diretamente de Brasília para realizar trabalhos de “limpeza” na sede campestre do clube e abençoar todos os atletas. Lembro de uma enorme fogueira acesa no espaço mais ermo, afastado no enorme terreno de sua sede em Macaíba, para as oferendas e o rito. Ficávamos ao redor dessa fogueira, todos, jogadores, comissão técnica e dirigentes, repetindo a oração que ela comandava. Depois, ao encerramento do trabalho, um banho de ervas perfumadas (muito) representava o fechamento. Depois, fazíamos nosso lanche e íamos para a cama, isso acontecia sempre na véspera dos jogos decisivos. O Alecrim foi campeão. Depois, sem ela, com uma substituta mais barata, aqui de Natal mesmo, conquistamos o bi, em 1986.

Não lembro de nenhum atleta que tenha se recusado a participar dos trabalhos ou feito cara feia à realização do ritual de “Mãe Aída”, era esse o seu nome. Ela foi indicada por políticos para quem, diziam, ele teria ganho eleições quase impossíveis. Isso tudo, tenho certeza, faz parte do passado romântico de nosso futebol. O que permanece imutável é a oração antes de entrar em campo, o agradecimento depois, quando vence, bem entendido. Mas também é fato que a religião nos clubes hoje, infelizmente, funciona de forma negativa, separando grupos, o que é péssimo para o esporte coletivo, claro, com exceções e respeito.

Esse assunto sobre religião veio à baila por conta do atacante Paulinho, que joga no futebol alemão, Bayern Leverkusen, e está defendendo a seleção olímpica em Tóquio. Antes de aparecer fazendo o quarto gol do Brasil contra a Alemanha, li uma matéria espetacular sobre esse menino no The Players Tribune, publicação que não conhecia. O título “Que Exu ilumine o Brasil”, onde ele narra sua trajetória, história de sua família maravilhosa, do amor pelo futebol, pela música e a ligação com o candomblé. Imagino que, se jogasse no Brasil atual, talvez Paulinho sofresse algum tipo de “escanteamento”, pois os elencos hoje são dominados, quase em sua totalidade, por evangélicos. Que coragem do Paulinho, que linda história. Se transformou em meu predileto, por quem vou torcer especialmente. Certamente, o bombardeio que ele vem levando nas redes sociais, de fanáticos seguidores de bandidos neo pentecostes e de Bolsonaro, vai fazer com que ele fique mais forte ainda. Exu com ele. Ao comemorar seu gol, golaço, o atacante fez o gesto de atirar uma flecha em homenagem a Oxossi, orixá caçador das matas.

Em tempo: não tenho nada contra evangélicos, a não ser que sejam seguidores das seitas estelionatárias de Edir Macedo, Malafaia, Valdomiro, Feliciano, RR Soares, Magno Malta e outras más encarnações, mais precisamente os neopentecostes. Viva o estado laico. Viva as tradições, a beleza incomparável das religiões de matrizes da mãe África.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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