OPINIÃO

Que tal falarmos sobre números?

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Bem, os números não mentem. Pelo menos não mentiam antes de vivermos neste Brasil semi-medieval de achismos, crendices e má-fé deliberada, somada à famigerada cultura da pós-verdade e das fake news. Ironia e desgosto à parte, os números continuam exatos e podem ajudar a trazer luz neste tempo de sombras.

Bem, vamos a alguns deles. Primeiro, analisar verdades e mitos nos números que nos trouxeram até este caótico 2019.

Sim, Jair Bolsonaro se elegeu presidente porque teve maior número de votos. No segundo turno, obteve 57.796.986 votos (55,13% dos votos válidos) enquanto o adversário Fernando Haddad teve  47.038.963 votos, ou 44,87% dos válidos). Uma diferença entre os dois candidatos de 10,7 milhões de votos.

Mas, vamos a outros números: naquele segundo turno total, do total de 115.933.451 aptos a votar, os votos em branco foram 2.486.593 (2,14% do total), com votos nulos somando 8.608.105 (7,43%) e um altíssimo número de abstenções: 31.371.704 (21,30%).

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Sim, o leitor e a leitora já perceberam onde quero chegar. Somando os votos em Haddad, os brancos e nulos e as abstenções, temos 89.505.365 brasileiros e brasileiras que não votaram em Bolsonaro.

Sei que isso foi bastante divulgado no pós-campanha, inclusive como famigerados memes. Mas, as paixões e debates rasos de internet não nos deixam perceber o que mostram os números: que dos 147.302.357 com condições legais de votar,  89.505.365 não se deixaram seduzir por Bolsonaro e suas propostas.

Pode-se se avaliar que a omissão e a abstenção, por dedução lógica, elegeram o “mito”. Mas, rancores eleitorais à parte, essa reflexão é um sofisma. Esses eleitores não viram razão para votar em Haddad, seja pelo antipetismo, seja por discordarem das propostas de Governo dele. Porém, também não viram motivos para votar em Bolsonaro, não podendo ser inclusas nas contas de fascistas e entreguistas brasileiros.

89.505.365 é um contingente imenso de pessoas, mais que a população da maioria dos países do mundo. Inclusive só as abstenções  (31.371.704) já consistem um apanhado de gente maior do que as populações de países como Holanda, Bélgica, Portugal e Uruguai.

A título de provocação, pergunto: o que pensam hoje e como tendem a se comportar eleitoralmente em 2020 os  2.486.593 que votaram em branco, mais os 8.608.105 que anularam o voto e, principalmente, os 31.371.704 que preferiram dormir, praia ou churrasco, desprezando até mesmo as punições da Justiça Eleitoral, a votar em Bolsonaro ou Haddad?

Se sairmos do torpor de paixões de campanha e esquecermos sermões e vendettas, não seria hora de, números à mão, identificar estes eleitores (branco, nulo e abstenção)?

Lembremos da pesquisa Datafolha, de avaliação do governo Jair Bolsonaro, divulgada dia 8 de julho que concluiu que, após seis meses, 33% dos eleitores brasileiros aprovam e 33% desaprovam o Governo. Com 31% sem aprovar nem desaprovar (talvez aturdidos, talvez os que se abstiveram de votar) e 2% que não souberam responder (possivelmente também não souberam votar).

Mais números: insisto que os movimentos progressistas ou pelo menos quem ainda queira salvar o Brasil deste (des)Governo, tem de dialogar com estes 33% que não sabem o que pensar e falar deste Governo (aturdidos, repito).

Números. Que podem mostrar caminhos, atalhos. Possibilidades. Mais do que conflitar parentes chatos em grupos de Zap ou divulgar memes. Em tempos de pós-verdade, podemos em breve ter um pós-Brasil neofascista se não trabalharmos com cérebro. Dados e números inclusos nesse balaio.

 

 

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