OPINIÃO

Queer é isso???

Um dos primeiros impactos que se sente quando se instala uma ditadura ou um regime autoritário, é a imposição da censura, que começa por restringir a manifestação política contrária ao establishment, e depois evolui para calar qualquer manifestação que desagrade, por qualquer motivo, aos donos do poder. A liberdade de expressão vai pro beleléu. Foi assim em vários períodos da humanidade. Em vários locais.

No Brasil, por exemplo, durante o regime militar, a censura foi feroz, calando jornalistas, músicos, atores, impedindo, enfim, qualquer manifestação que, na cabeça do pateta de plantão, pudesse oferecer risco à pátria ou à família. Artistas e intelectuais do porte de um Chico Buarque, Ziraldo, Vandré, Taiguara, Dias Gomes, Caetano e tantos outros tiveram suas criações interrompidas. Sem contar a censura que a imprensa, em geral, era submetida. Nada se podia falar, escrever ou cantar sem autorização oficial.

Chegou-se ao ridículo, por exemplo, de Mário de Andrade, depois de morto, ser censurado em 1970, quando teve seis de seus poemas cortados em um disco que seria gravado em homenagem aos 25 anos de seu falecimento. Dentre os poemas proibidos estavam “Ode ao Burguês” e “Lira Paulistana”. A bestialidade imperava.

A censura não atingia somente os artistas engajados ou os que ousavam desafiar o regime, mas também artistas populares, rotulados como bregas, como Odair José (“pare de tomar a pílula”, lembram?), Genival Lacerda, Waldick Soriano, Wando e outros, que tiveram algumas de suas inofensivas canções vetadas pela censura.

O exemplo talvez mais bizarro da censura aconteceu com Adoniran Barbosa, que teve dois de seus maiores sucessos, “Samba do Arnesto” e “Tiro ao Álvaro” vetados. As letras, hoje muito conhecidas e cantadas, trazem a linguagem que consagrou Adoniran. Mas, para serem liberadas teriam que se transformar em “Samba do Ernesto” e “Tiro ao Alvo.” Samba do Arnesto ficaria assim: “Ficamos com um baita de uma raiva/ Em outra vez nós não vamos mais (Nós não somos tatus)”. Já na letra de “Tiro ao Álvaro” a censora fez um círculo nas palavras “tauba”, “revorve” e “artormove”, concluindo que a “falta de gosto impede a liberação da letra.” Adoniram, obviamente, não aceitou mutilação de sua obra, preferindo gravar as músicas, em suas versões originais, anos depois.

A censura estatal pós regime militar somente veio a ser definitivamente abolida com a Constituição de 1988, que estabeleceu ser livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença, e que a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição.

Mas, apesar do fim da censura estatal, esse fantasma reaparece, de quando em vez, por outros meios. A mais recente aparição ocorreu semana passada quando o grupo Santander cancelou a exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, que ocorria no Santander Cultural de Porto Alegre, se curvando a pressões formulada em redes sociais, comandadas por uma entidade que, paradoxalmente, tem a palavra “livre” em sua sigla.

O argumento para vetar a exposição foi o de que algumas das 270 obras expostas na exposição, que abordavam questões de gênero e de diversidade sexual, eram ofensivas, pois supostamente faziam apologia à zoofilia, à pedofilia e blasfemavam símbolos religiosos.

A exposição, frise-se, trazia obras de artistas consagrados mundialmente como Volpi, Portinari, Flávio de Carvalho, Adriana Varejão, dentre outros.

O cancelamento da exposição, realizada em local fechado, e, portanto, acessível apenas para aqueles que, livre e voluntariamente, quisessem visitar, é uma mostra do quadro de intolerância e de desrespeito à diversidade que presenciamos no dia a dia, em vários segmentos.

Gostar ou não gostar das obras expostas no Queermuseu é questão pessoal, individual, direito de cada um. Mas, o que não se pode aceitar é que, em nome de convicções morais ou religiosas pessoais, seja tolhido o direito de criação e manifestação da arte ou do pensamento de quem quer que seja.

É dessa concepção sectária que nasce todo o tipo de discriminação, bullying, homofobia, intolerância religiosa, política, e outras mais

Esse tipo de comportamento me faz lembrar as ações do grupo “Estado Islâmico”, tão criticado por nós ocidentais, por destruir obras de arte que contrariem os seus valores e impedir a liberdade religiosa.

Em nome da “verdade” deles foram destruídas relíquias da humanidade como o acervo do império assírio em Nimrud (Iraque), com mais de três mil anos; as obras de arte do Museu da Civilização de Mossul e queimados cerca de oito mil livros de sua biblioteca pública.

A lógica do Estado Islâmico é a mesma dos que aqui tentam impedir a livre manifestação de quem pensa diferente: Impor as suas verdades como valores únicos e absolutos, que não podem ser contestados, que ninguém pode discordar.

A liberdade de expressão é uma conquista civilizatória contemporânea, e sua defesa como princípio, como direito fundamental, deveria unir as pessoas sensatas, independente de posições ideológicas ou filosóficas. A liberdade de expressão não é valor da esquerda, nem da direita. É valor da humanidade.

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Promotor de Justiça