OPINIÃO

Quem bebe, não joga

Minhas caminhadas matinais…

Todos os dias vou respirar o ar puro de minhas praias lindas… neste momento, na verdade, elas não têm nada de belas ou puras.

Estão feias, abandonadas, tomadas por lixos, esgotos a céu aberto e as calçadas esburacadas e decoradas com cocô de cachorro, muito.

Os banheiros, minha nossa! Faz tempo que o prefeito deixou de pagar os terceirizados, portanto, dos sanitários construídos para atender consumidores dos quiosques ficou só o terrível mau cheiro.

Sim, e aquele serviço de contenção do avanço do mar. A colocação daquelas pedras – Praia dos Artistas à Praia do Meio – que custou mais de R$ 8 milhões. Mentira? Está lá na placa.

Outro dia falo mais disso, pois o assunto é outro…

Cheguei, como faço sempre, estacionei pertinho da estátua de Iemanjá, danificada (deve ter sido algum filho da puta fanático religioso), e iniciei meus exercícios de todos os dias.

Lá ia eu caminhando. Fazendo sempre o mesmo percurso até a entrada de Mãe Luiza, ida e volta.

Escutei uma voz longe, vindo da beirinha da praia do Meio, ali onde aos domingos se concentra um grande número de banhistas.

– Amarelinho! Amarelinho! – escutei alguém gritar.

E se ele me chamava “Amarelinho” (apelido de jogueiro) certamente me conhecia bem dos tempos da bola.

Parei, não gosto de interromper a caminhada, mas não faço desfeita para ninguém, nunca fiz, ainda mais sendo conhecido, como certamente seria.

O homem veio na minha direção.

Notei também, ainda de longe, que ele andava com muita dificuldade, quase se arrastando. Mais de perto comecei a querer identificar. Tinha traços de alguém que conhecia, mas não conseguia recordar direito.

– Tá lembrado de mim não? – perguntou ele.

Esfriei. Não tem coisa pior do que ficar nessa sinuca de bico. Ainda mais nesse caso que eu sabia que o conhecia bem, reforçado pela forma carinhosa como ele me tratou, a intimidade.

“Hômi, sou “fulando de tal”… Fui salvo pelo “gongo”. Minha nossa! Tive um choque. Lembrei daqueles olhos característicos. Era ele mesmo.  Meu Zagueirão querido de tantas jornadas.

Amigo de variadas brincadeiras na concentração, de muitos, muitos causos contados, de tantas risadas gostosas que ajudavam a amenizar o tédio de ficar enfurnado por dois ou três dias seguidos ou mesmo o suplício dos salários atrasados, coisa comum no futebol daquela época… ainda hoje? Sim.

Fiquei estarrecido. Uma tristeza invadiu minha alma, tomei um tremendo choque. Não sabia, juro, o que dizer, o que fazer. Fingir. Só podia fingir e sorrir. Aquele cara era quase um irmão pra mim. Meu Zagueiro (não vou dizer o nome dele por razões óbvias, e nem o time onde jogamos juntos. Só que ele era de Campina Grande) estava um caco.

O Meu Zagueiro de mais de 1.90m de altura, forte, porte atlético, cabelo vasto e encaracolado, sorriso de dentes perfeitos, que causava furor entre as meninas, as “marias chuteiras” de nossa época, não parecia aquele homem desfeito que estava ali sorrindo. Nem de longe lembrava  a pessoa que eu conheci.

Dei um abraço no Meu Zagueiro.

Meu Zagueiro, amigos, acreditem, mas parecia, um “morto vivo”.

Os olhos injetados, vermelhos, embaçados; o rosto muito marcado por rugas exageradas, a pele de uma cor feia, cinza esverdeada; a barriga  enorme, as pernas, outrora musculosas, estão flácidas e com muitas varizes, o cabelo rareando, os dentes escuros, faltando alguns nas arcadas superior e inferior.

Meu Zagueiro, queria tudo, menos dizer isso: estava um trapo humano.

Me lembrei da música de Chico. “Quem não a conhece (conheceu ele) não pode mais ver para crer, e quem jamais esquece, não pode reconhecer”.

Eu reconheci porque foi muito, muito tempo de convívio e, mesmo assim, precisei de um tempo olhando bem.

Meu coração apertado ouvindo ele falar de seus problemas, as aflições, a falta de opções, de emprego, da mulher que o deixou assim que ele parou de jogar, os filhos que quase não mais apareciam…

Me disse, envergonhado, que  estava  trabalhando de vigilante em um galpão de um conhecido de seu irmão. Não percebe nem o salário mínimo, e não tem carteira assinada, por isso não conta com benefício social nenhum.

Quase choro, mas me seguro.

Confessou que foi ao médico, e pior: seu exame deu positivo e, mesmo assim, não iniciou, ainda, o tratamento da terrível Hepatite Tipo C. E disse que também tem Diabetes e, certamente, algo mais em decorrência de bebida.

Não tive coragem de perguntar se ele ainda consumia bebidas alcóolicas, mas estava na cara que sim. A dependência era visível. Fiquei sem saber o que dizer para confortá-lo, para ajudá-lo, prometi, disse que falaria com médicos e alguns amigos, quem sabe pudesse amenizar sua dor.

Meu Zagueiro. Meu Zagueiro… que coisa triste não pensar no futuro! Que saudades dos velhos bons tempos, se ele pudesse voltar certamente faria tudo diferente. E me veio a lembrança de nossa juventude de boleiro conhecido, cheio de moral por conta do futebol. De nossas saídas à noite, e nossas namoradas, não poucas, acreditem.

Muito, mas muito brincalhão, sempre chegava nos bares e ficava me provocando:  – Pô, Amarelinho, que moleza é essa, quem não bebe, não joga! – dizia e soltava aquela gargalhada característica. E ficava insistindo, sem maldade, eu sei, para que eu e outros jovens jogadores bebessem, fizessem parte da “barca”, como costumava classificar as noitadas de diversão.

“Quem não bebe, não joga”. Era quase um refrão repetido todas as vezes que saíamos. Para ele, e outros, o cara para jogar, encarar o futebol, tinha que ser bebedor. Coitado!

E ainda tinha a história terrível de  “vamos tomar um ‘reforcinho’ na veia para correr mais”, frases muito ouvidas naquela época. A maioria, infelizmente, acabava bebendo mesmo e mais grave: embarcando na tolice de deixar aplicar o “reforço” nas veias.

E todos sabem do que se trata o tal “reforcinho”, né?  E a utilização daquelas seringas não descartáveis, muitas vezes, mal esterilizadas, causaram muitos danos. Um dano irreversível que, para complicar, só iria ser detectado décadas depois em muitos, mas muitos ex-companheiros de profissão.

Nos bares, eu terminava me irritando, fingia ficar bravo com ele, e ameaçava ir embora. Ele voltava a sorrir, me abraçava e chamava:

– Garçom, traz uma Fanta Uva pro Amarelinho aqui.

Me perdoava sempre.

Quantas vezes, ele morando em um pensionato na Cidade Alta, aparecia lá em casa, às vezes naquela base… e eu ficava na sua companhia até curar a bebedeira, evitando que ele fizesse bobagem. Sim, pois quando  estava bêbado somente atendia a mim, era impressionante. E se o irritassem queria dar cabeçada em todo mundo, o que era um perigo pelo seu tamanho e força.

No nosso encontro, depois de quase 30 anos, minha tristeza por não poder fazer nada. Na verdade, na verdade, uma parcela significativa de ex-atletas profissionais se encontra hoje nessa nesta situação deplorável.

Mesmo com a ajuda da AGAP – Associação de Garantia do Atleta Profissional, e do médico Antônio Araújo que sempre se coloca à disposição para amparar, fazer exames e disponibilizar tratamento.

Vários são diabéticos, com o vírus da Hepatite (por conta das muitas seringas compartilhadas) e com vários outros problemas. Além do álcool, maldito, consumindo vidas.

Com o coração pesando toneladas, me despedi do Meu Zagueiro. Nem o pude ajudar financeiramente, pois estava na praia, sem nada. Pedi endereço, ele não soube ou não quis dar, sei lá, talvez nem estivesse morando em lugar nenhum. Disse que, se  precisasse, eu estava todo dia na praia, mas ele desconversou, garantiu que estava de passagem comprada para Campina Grande.

Minha caminhada nesse dia foi de acentuada tristeza. Meu Zagueiro teve um fim de carreira melancólico para quem um dia foi tão feliz e gostava, apesar dos defeitos, de ajudar os mais carentes… E fiquei imaginando os sofrimentos que ele, certamente, terá que continuar encarando daqui pra frente.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos