OPINIÃO

Quem confia em Zuckerberg?

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Aquele sorriso de bom moço branco, os cabelos loiros cortados curtinhos e a destreza em prometer nada além do necessário para garantir as metas de lucro de suas empresas podem fazer do bilionário Mark Zuckerberg uma das figuras potencialmente menos ameaçadoras em um mundo racista, machista e capitalista.

Ao que parece, o executivo do Facebook vai precisar de mais que sorrisos e balancetes lucrativos para não fazer inimigos. Só no ano passado, o Facebook precisou de  US$ 22,6 milhões para garantir a segurança do criador da empresa, mais que o dobro do que foi gasto em 2017. Tudo isso depois que a rede social comandada pela companhia viu-se envolvida em escândalos de desinformação, vazamento de dados e preocupação com questões de privacidade dos usuários.

Tudo devidamente arrefecido por entrevistas coletivas sorridentes ou com semblantes mais sóbrios, a depender da ocasião.

Só que a realidade teima em se espalhar por aí. Os indícios dão conta que a privacidade dos usuários é a menor das preocupações da empresa. Agora, dias antes da páscoa, desenvolvedores que receberam as primeiras versões de equipamentos da empresa Oculus, subsidiaria do Facebook, encontraram frases, no mínimo reveladoras, dentro das peças dos equipamentos.

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“O Grande Irmão zela por ti”
“Olá Fixit! Estamos de Olho!”

O chefe da divisão de produtos de Realidade Virtual Nate Mitchell correu pro twitter pra explicar que era uma piada interna da empresa e que nunca deveria ter chegado ao público.

Toda brincadeira tem um fundo de verdade. As frases revelam como a privacidade dos usuários vem sendo tratada dentro da empresa. Fazer piada com uma distopia autoritária, como o romance “1984”, de George Orwell, mostra como o direito à privacidade é tratado com desdém pelos funcionários.

Mitchell garante que os processos de produção e controle de qualidade foram reformulados para que isso não aconteça mais. Só que o verdadeiro problema não está nos processos de produção, esta mais embaixo, nos fundamentos éticos da empresa, que surgiu com um ingênuo propósito de conectar pessoas e tornou-se um verdadeiro supermercado de perfis psicológicos, mapas de hábitos de vida e padrões de consumo e de desinformação em massa.

Não é à toa que a rede vem diminuindo de tamanho. Segundo pesquisa Datafolha, o Facebook teria perdido 5% dos seus usuários no Brasil nos últimos dois anos. É uma cifra importante quando se trata de rede social. A saída de 5% dos usuários estimula outros a abandonarem o barco, afinal, o que fazer na rede depois que os amigos foram embora?

O faturamento ainda anda bem, mas os escândalos de privacidade deixaram muita gente preocupada e abalaram a imagem da companhia. Muitos cancelaram as contas, muitos outros reduziram os acessos ao Facebook. A onda de ódio que tomou conta da timeline também afastou muita gente. Há ainda um fator geracional, os usuários envelheceram e o Facebook falhou em conectar os mais jovens.

A dor de cabeça de Zuckerberg começou em 2017, com as acusações de que o Facebook havia sido usado por hackers russos para disseminar desinformação em benefício na eleição de Trump. Em 2018, descobrimos que a Cambridge Analytica usou informações de 87 milhões de pessoas para influenciar o resultado das eleições estadunidenses (afinal, não eram apenas os russos). O Facebook anunciou medidas para que o vazamento de informações não se repetisse. Não convenceu ninguém e os vazamentos continuaram acontecendo. O ultimo deles afetou 540 milhões de usuários, o equivalente a um terço do total de acessos diários a plataforma.

É. Não dá mesmo para confiar no Zuckerberg.

Talvez por isso tantos brasileiros andem migrando para o Instagram e para o Whatsapp – que está quase empatando no número de usuários do Facebook no Brasil, 120 milhões.

O problema de Zuckerberg agora é decidir como vai ganhar dinheiro com esses dois aplicativos – que também são dele – sem que ninguém descubra que ele também não liga para sua privacidade por lá.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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