ENTREVISTA

Quem é e o que pensa a única mulher autodeclarada preta eleita prefeita no Rio Grande do Norte

A comerciante formada em gestão de Recursos Humanos Hosanira Galvão tem 50 anos de idade, é evangélica e foi a primeira mulher eleita prefeita no município de Goianinha, distante 60 km de Natal. Nira, como é conhecida, também é a única eleita em todo o Rio Grande do Norte a autodeclarar-se preta.

Em todo o país, apenas 10 mulheres autodeclaradas pretas saíram vitoriosas nas urnas, cerca de 1,5% dentre as 662 eleitas. Juntas a 201 pardas, o Brasil têm cerca de 32% negras chefiando executivos municipais. No Rio Grande do Norte, dez dentre 38 eleitas se declararam pardas. Dessa forma, 29% das mulheres eleitas prefeitas no Estado potiguar são pessoas negras, segundo o IBGE, categoria que reúne pretos e pardos.

Nira é filiada ao PL e venceu o atual prefeito Berg Lisboa (PSD). Ela obteve 53,47% dos votos contra apenas 40,98% do ex-chefe do executivo no município. Nas últimas décadas, Goianinha foi dominada pelo grupo político do ex-prefeito e ex-deputado estadual Dison Lisboa (PSD), condenado por corrupção e que chegou a exercer o mandato de deputado usando uma tornozeleira eletrônica.

Marido de Nira, o ex-prefeito Júnior Rocha foi eleito em 2008 e 2012 com o apoio da família Lisboa, mas rompeu antes do pleito de 2020, quando Hosanira Galvão lançou candidatura.

Em entrevista para a agência Saiba Mais, a nova chefe do executivo fala sobre a trajetória política vinculada à carreira política do marido, Junior Rocha, prefeito por dois mandatos no município. Nira também defende propostas de políticas voltadas à proteção das mulheres e fortalecimento da cultura e esporte, principalmente para os jovens da cidade.

Confira a entrevista:

Saiba Mais: Qual a sua trajetória política?

Nira: Toda vida meu marido foi político. E, de uma certa forma, estive nos bastidores da política como esposa do secretário – ele foi secretário de obras – chefe de gabinete, depois vereador e prefeito duas vezes. Eu fui primeira dama e fiquei interinamente em algumas secretarias. Fui comerciante por mais de 20 anos e conhecia muita gente por meio do comércio. Eles sempre me perguntavam “por que a senhora não se candidata?”, no que eu respondia que não tinha pretensão. Mas afunilou de uma forma que eu não tive como dizer não. E eu gosto de povo, de estar junto ao povo. Sei que é difícil, um ano difícil, os anseios do povo são muito grandes. Eu não vou conseguir resolver tudo e sei disso. Estou aqui sabendo que é um ano difícil por conta da pandemia, mas estou pronta para aprender com o desenrolar dos acontecimentos, em nome de Jesus. Foi assim que se formou a minha história na política.

Foi a primeira vez que você decidiu se candidatar?

Quando meu marido se candidatou pela primeira vez como vereador, na verdade ele me lançou, mas depois nós decidimos que seria ele [o candidato] por causa do comércio. Eu tomaria conta do comércio. De imediato, meu nome foi bem aceito. Mas nós conversamos e decidimos que fosse ele. Meu nome foi muito bem aceito. Mas, não chegamos a registrar a candidatura.

Como é o histórico de Goianinha para eleger mulheres?

Não tinha, né ? Eu digo que Goianinha vai muito além de outras cidades. Eles decidiram eleger a mulher. Era a mulher, a mulher e foi a mulher, viu ? Quando o povo quer, é a mulher. Eles decidiram dar a oportunidade. Acho que são mais de 20 prefeitos da história de Goianinha e eu sou a primeira mulher prefeita da história do município. Já houve vice-prefeita, mas prefeita não. É a primeira mulher de fato. Goianinha decidiu, sem preconceito nenhum. Quando eu perguntava às pessoas na cidade se já haviam escolhido candidato, eles diziam “e não é a mulher?”. Eu me sinto mais feliz quando escuto isso de um homem, né ? Pela história, por eles confiarem mais na garra do homem, acham que só os homens podem definir. [Ser aceita] pelos próprios homens, em aceitar que eu fosse a chefe do executivo. Isso me deixou muito feliz. Eu tenho uma carga muito grande nas costas, uma responsabilidade tremenda com todas essas pessoas que confiaram em mim. 

“Eu digo que Goianinha vai muito além de outras cidades. Eles decidiram eleger a mulher. Era a mulher, a mulher e foi a mulher, viu ? Quando o povo quer, é a mulher. Eles decidiram dar a oportunidade. Acho que são mais de 20 prefeitos na história de Goianinha e eu sou a primeira mulher prefeita da história do município”

Nira recebendo afago dos eleitores durante a campanha em Goianinha / Foto: arquivo pessoal

Além do comércio, você tem uma ligação com a igreja. Qual a sua igreja? 

A coligação era a Força da Fé. Eu sou evangélica. Congrego na Assembleia de Deus Canaã Pentecostal […] há mais de 20 anos. Toda vida fui muito bem aceita pelos católicos, e os respeito muito. Fui católica antes e não tenho discriminação com nenhuma outra religião. Respeito como eles também me respeitam. Todo mundo sabe que sou evangélica e nós temos um respeito mútuo. 

Como foi a escolha da sua vice, a professora Helena (PSB)?

Foi um pouco difícil, não por Helena. Mas porque a escolha não dependia só de mim. Mas nós tivemos conversas anteriores, e antes eles eram oposição, e nós éramos situação. Teve todo um histórico de conversas para que ela se sentisse segura e aceitasse ser minha vice. Quando ela se sentiu segura e sabia que de fato eu estava na oposição, aí ela aceitou. Nós conversamos e eu e Helena temos mais ou menos o mesmo perfil com relação a Goianinha, aos projetos e atendimento às pessoas. Nos damos muito bem, graças a Deus, e espero que continue assim.

Em todo o seu projeto de governo, você cita o termo “mulher” cinco vezes. Como você pretende construir essa política voltada a mulheres?

Na realidade, já existe, desde a gestão do meu esposo, o Cras e o Creas, onde já trabalhávamos esse assunto com relação a mulheres. O que pretendemos é intensificar isso e encontrar novas formas. Inclusive, já entramos em contato com alguns deputados onde existem recursos, como [para] a Casa da Mulher Brasileira. Como só cheguei agora, perdi isso por não estar na prefeitura. Senão eu teria conseguido trazer a Casa para Goianinha.  Porque não dependia de mim, mas da assinatura do gestor anterior. Não foi possível, mas estou pronta para ir atrás de recursos.

Vou trabalhar a humanização do atendimento a mulher pelos postos de saúde, por meio dos agentes de saúde, onde houver recurso para trabalhar a saúde da mulher e a proteção, se Deus quiser, eu vou buscar. É isso que pretendo.

Nira é evangélica, tem 50 anos de idade e é a primeira mulher a governar Goiainha / foto: Arquivo pessoal

Quais serão os outros grupos prioritários na sua gestão?

Na realidade, eu tenho um xodó pela escola de música. Infelizmente, como entrou no período de pandemia, não está sendo possível realizar hoje na Casa de Cultura, onde funciona a escola de música. Também trabalhamos muito forte, na época da gestão do meu esposo, a questão do atletismo. Nós também incentivávamos por meio de bolsa-talento os alunos da escola de música e o bolsa-atleta para quem está no atletismo.  Chegamos a levar profissionais para Malta e eles voltaram com medalha. Nós pretendemos intensificar esses programas, se Deus quiser.

Temos muitos jovens artistas, não só nessas modalidades, mas também temos aqui bandas, cantores, artistas de várias modalidades. Eu tive, durante a campanha, contato com alguns que são de percussão, skatistas, vi artistas que desenham perfeitamente, como se fosse uma fotografia. Mas, para tudo isso, eu preciso ter tempo, para desenvolver esses projetos. Trazer a juventude para se sentir segura. Hoje em dia, as vezes deles é uma oportunidade, uma primeira vez. Para isso, nós pretendemos trabalhar tipo o Jovem Aprendiz. Junto com as fábricas, com a própria prefeitura nós vamos começar já empregando alguns jovens nas secretarias.

“Vou trabalhar a humanização do atendimento a mulher pelos postos de saúde, por meio dos agentes de saúde, onde houver recurso para trabalhar a saúde da mulher e a proteção, se Deus quiser, eu vou buscar”.

Você tem proximidade com outras prefeituras do Estado?

Por enquanto, não conheço alguns prefeitos, a ponto de dizer que vou resolver as coisas com outra prefeitura não. Mas nós temos amizades que independem de política. Compromisso com outros políticos não, mas há aqueles que nos abraçaram. Nós apoiamos na campanha passada candidatos a deputado. Tivemos pessoas que acreditam em nós mesmo sem estarmos na gestão. Mesmo sem termos liderança política nem vereadores do nosso lado e o que culminou agora, graças a Deus, foi uma campanha bem sucedida.

Você foi oposição ao governo anterior…

Fiz oposição porque já não participava mais do grupo dele e o pessoal dizia “vai ser candidata? Seja candidata”. Fui oposição, mas não porque eu tenha raiva dele ou queria tomar a prefeitura de ninguém. Eu fui candidata porque o povo pedia a mim e eu sentia o desejo de atender ao povo. O que me motivou foi a proximidade com o povo. Isso foi o que me levou a estar perto do povo novamente, já que eu estive perto do povo diretamente através da loja e sendo primeira dama. Meu desejo foi esse: voltar a estar com o povo. Foi isso que motivou minha campanha.

“Fui oposição, mas não porque eu tenha raiva dele ou queria tomar a prefeitura de ninguém. Eu fui candidata porque o povo pedia a mim e eu sentia o desejo de atender ao povo. O que me motivou foi a proximidade com o povo”

Nira foi eleita já na primeira candidatura, pelo Partido Liberal. / Foto: Divulgação

De todas as prefeitas eleitas do Rio Grande do Norte, você foi a única que se autodeclarou preta.  

E sou, com muito orgulho, negra. Eu me sinto acolhida sendo representante das mulheres negras e me sinto agradecida de saber que as pessoas aceitam, não têm discriminação. Pelo menos aqui em Goianinha, não. Tanto por eu ser mulher como por ser negra, essa dificuldade eu não tive na política de Goianinha. Sempre digo que Goianinha está além politicamente em muita coisa, inclusive nessa questão racial também. 

Quais são as principais questões a serem trabalhadas no município hoje?

Tudo é prioridade, mas a assistência social, saúde e educação são as prioridades hoje. Nós temos dificuldades enormes com o lixão, que já era pra ter sido resolvido. Eu sei que Deus vai me dar estratégia, sabedoria e canais para que isso seja resolvido. Não posso resolver isso de imediato porque são questões que já vem se arrastando de outras gestões e existem outras questões ambientais que precisam ser resolvidas. 

“E sou, com muito orgulho, negra. Eu me sinto acolhida sendo representante das mulheres negras e me sinto agradecida de saber que as pessoas aceitam, não têm discriminação”.

Qual a situação de Goianinha na pandemia hoje?

Está equilibrada, mas nós sabemos que na pandemia o número de casos aumentou. A pandemia não acabou e, às vezes, as pessoas esquecem por algum motivo ou outro que a pandemia não acabou. Não mantém distanciamento, se esquecem de passar álcool em gel nas mãos. As vezes também porque não têm. O foco hoje, também vou trabalhar isso com a comunicação e com a saúde, que lembrem ao povo que a pandemia não acabou, e a melhor solução hoje é a prevenção enquanto a vacina não chega. Já participei de uma reunião online com a governadora e ela disse que já está tudo preparado para receber a vacina, só falta a vacina. E estou orando a Deus que essa vacina chegue. E nós vamos nos preparar, com os profissionais, para que, quando chegar, nós já possamos cumprir os primeiros calendários.

Como está a formação da Câmara Municipal para a sua gestão?

Foram quatro vereadores eleitos pela nossa coligação e hoje são 11 cadeiras na Câmara. Graças a Deus, tivemos duas adesões e hoje somamos seis vereadores na bancada da situação. Dá para trabalhar mais sossegado. Não que eu esteja dizendo que os outros vereadores não vão votar para o que for melhor para Goianinha. Inclusive, na posse, todos eles se comprometeram a votar pelo que fosse melhor para a população. E isso já me tranquiliza, pois estou aqui com o mesmo objetivo. Não em meu benefício, mas em benefício da população. 

Qual o raio-x que você faz de Goianinha hoje?

A cidade cresceu muito no que tange ao desenvolvimento. Durante o governo do meu esposo foi instalado o polo industrial e nós estamos lutando por novas fábricas. Inclusive, eu tive o prazer de entrar na prefeitura e já ter um empresário me aguardando para o desenrolar de instalação de uma nova fábrica.

Com relação às secretarias, estou muito preocupada pois não tenho informação sobre quase nada e estou encontrando dificuldades nessa área. Houve a transição mas tem muita coisa que não foi repassada para nós. E eu tenho certeza que, se Deus quiser, nós vamos superar esse desafio também. Eles disseram que deixaram tudo direito, mas, na realidade, nós não estamos encontrando do jeito que eles disseram. 

Estamos encontrando dificuldades. A secretaria de obras não tem informação praticamente de nada das obras que estão em andamento. São dificuldades para que a nova gestão desenvolva e termine essas obras ou comece outras. Isso é só um exemplo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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