ENTREVISTA

Quem é e o que pensa Ângela Paiva, a primeira mulher a dirigir a UFRN

Em 2011, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez história ao eleger, pela primeira vez, duas mulheres para ocuparem os cargos mais altos da hierarquia acadêmica. Com maioria de votos em todas as categorias que compõem o eleitorado, a matemática Ângela Maria Paiva Cruz e a bióloga Maria de Fátima Ximenes venceram a eleição para a reitoria da Universidade, cargo para o qual Ângela seria reeleita em 2015.

O fato, até hoje, é exceção no país: apenas 20 universidades federais são dirigidas por mulheres no Brasil, o que representa 31% do total das instituições de ensino.

Ângela deixa a gestão da UFRN nesta segunda-feira (27), e passa o cargo para o atual vice-reitor, o engenheiro José Daniel Diniz Melo, que assume em meio a cortes de verbas por parte do Governo Federal, ameaças à autonomia universitária e polêmicas circundando até mesmo o local onde será feita a transmissão do cargo.

A agência Saiba Mais fez uma entrevista especial com a reitora na quinta-feira (24), que também já presidiu a Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). A conversa aconteceu antes da decisão da reitoria de cancelar a solenidade de transmissão de cargo de reitor, prevista para acontecer em 3 de abril, no teatro Riachuelo.

Prestes a se aposentar da instituição na qual trabalhou pelos últimos 36 anos, Ângela falou sobre assuntos que vão desde a imagem que vem-se tentando difundir da Universidade como um espaço de “balbúrdia” e uso de drogas, à mudança de paradigmas do atual Governo em relação à educação brasileira e a sua vivência enquanto no posto mais alto da hierarquia acadêmica. Confira:

Saiba Mais: Você foi a primeira mulher a dirigir a UFRN, eleita para o primeiro mandato com uma chapa apenas de mulheres, o que ainda não é um fato corriqueiro no Brasil. Sentiu, em algum momento, que era desacreditada pelos que estavam ao redor?

Ângela Paiva Cruz: Eu tive uma educação de pessoas simples. Meus pais eram educadores que, felizmente, sempre acreditaram em educação. Mesmo faltando coisas em casa, não faltava livro, não faltava caderno, mesmo que fossem conseguidos a preço de escambo: de trocar grãos de feijão, de milho, por livros e cadernos. Meus pais sempre imprimiram em nós um espírito de coragem, de uma ética que dizia que trabalhando com seriedade, com a certeza de que você está fazendo as coisas certas, não havia o que temer. Não precisamos colocar o pé na porta, a gente sabe entrar: com conhecimento, com correção, com ética e com respeito. Foi assim que eu me pautei em todo o tempo.

É evidente que em uma sociedade patriarcal como a nossa, nós temos inconscientemente, por parte das pessoas, o olhar da expectativa duvidosa. De que, por ser mulher, pode ser que ela não consiga. Eu não culpo as pessoas, nunca entendi como maldade. Entendo mais como produto da cultura patriarcal.

“É evidente que em uma sociedade patriarcal como a nossa, nós temos inconscientemente, por parte das pessoas, o olhar da expectativa duvidosa. De que, por ser mulher, pode ser que ela não consiga”.

As pessoas olhavam às vezes, de forma inconsciente para Ângela e Fátima, naquela primeira gestão, e perguntavam: “para onde vai a nossa Universidade?”. Às vezes de forma silenciosa, interna, mas que a gente sentia no olhar. Isso nunca me deixou triste, porque eu sempre tive a certeza de que estava conduzindo um projeto que não conduzi sozinha. Eu sabia que estava conduzindo um projeto coletivo, de uma Universidade e que, por ele, a gente iria a qualquer lugar.

Qual é a sensação de se aproximar ao fim desse ciclo de oito anos à frente da reitoria?

Certa vez eu estava em um país, acho que foi a Dinamarca, e estava visitando algumas instituições com um modelo muito diferente do Brasil. Em dado momento, alguém me perguntou: “como funciona a Universidade Federal no Brasil?”. Eu expliquei que era um modelo de decisão coletiva, que essas decisões eram tomadas em votações de colegiado, que possuíam representações de todos os setores da Universidade. A pessoa, então, me perguntou: “Funciona?”. Claro que funciona. Essa é a certeza e clareza que eu tenho hoje.

“Eu sabia que estava conduzindo um projeto coletivo, de uma Universidade e que, por ele, a gente iria a qualquer lugar”.

Nós tivemos uma tarefa bastante árdua: uma Universidade com cerca de 43 mil alunos, mais de 5 mil servidores, professores e técnicos, mais de 300 cursos em andamento. São 5 campi, 17 unidades acadêmicas. Para tudo isso funcionar, tem que haver muito planejamento, e sabemos que isso é possível porque nós temos um projeto coletivo de universidade, que é pensado para e pelas pessoas.

Você participou da implementação do REUNI [Programa de Reestruturação das Universidades Federais] na UFRN. Hoje, o cenário de investimentos na Universidade é bem diferente…

Eu praticamente cheguei aqui no momento da consolidação da expansão do REUNI, passamos por momentos diversos e enfrentamos desafios enormes aqui. A própria aprovação do REUNI foi um desafio importante, assim como sua implementação. Ele dobrou o tamanho da nossa Universidade, em estrutura e cursos, expandiu para o interior e levou a educação superior a pessoas que talvez não tivessem condições de se deslocar à capital para fazer um curso.

Chegamos ao fim da gestão nos últimos anos e, principalmente, agora em 2019, com anúncios que nos preocupam muito no sentido de mudar a política educacional do Brasil e a educação de nível superior. Os projetos ainda não chegaram concretamente, mas há muitas manifestações no sentido de que podemos ter muitos retrocessos de continuidade de um projeto como o da UFRN e das universidades federais como um todo.

Que projeto é esse?

Tivemos uma reunião com o Ministro e, com base na presença dele na Câmara e no Senado, ouvimos algumas posições e tendências. Ele disse, por diversas vezes, que em poucos dias seria publicado um novo modelo de fazer universidade, o que gera preocupações, porque ele fala da questão do financiamento. Nós fomos até lá solicitar o desbloqueio do orçamento 2019 e, nesse contexto do financiamento, ele propõe que hajam outras formas de financiamento na Universidade além do público.

“Há muitas manifestações no sentido de que podemos ter muitos retrocessos de continuidade de um projeto como o da UFRN e das universidades federais como um todo”.

Ele fala em doações do setor privado, “patronos” das Universidades e seus projetos o que, na verdade, já existe. O Marco Legal da Ciência e Tecnologia já prevê isso. As universidades tem muitas parcerias público-privadas. Muitos professores desenvolvem pesquisas, extensão tecnológica e até mesmo formações de recursos humanos com instituições públicas e privadas.

Com isso, nós temos uma arrecadação que se chama de “recursos próprios”, que vem para sustentar aqueles projetos, e vem para auxiliar na questão do ensino. Nós fizemos reformas e obras de mais de 400 laboratórios, que tiveram recursos tanto públicos como privados, e nós apontamos isso para o Ministro. A contratação do espaço para a posse do professor Daniel para a reitoria diante da comunidade acadêmica, por exemplo, foi feita através da FUNPEC, uma instituição privada de apoio à pesquisa e eventos acadêmicos (a solenidade foi cancelada no domingo (26) após esta entrevista)

“Ele fala em doações do setor privado, “patronos” das Universidades e seus projetos o que, na verdade, já existe”.

Nós afirmamos, inclusive, que a burocracia é um grande empecilho nisso, porque a Universidade capta os recursos, mas a lei não permite que ela use esses recursos com maior autonomia. A liberação desse recurso é de gota em gota, a gente tem que pedir ao Ministério da Educação.

Outra questão que nós alertamos sobre esse modelo é o seguinte: há universidades que tem 5, 10 anos de existência, com grupos de pesquisa ainda se organizando. Nós temos o privilégio de termos diversos arranjos produtivos, como energia solar, eólica petróleo, que transformam o investimento em mão de obra especializada em um alvo de interesse no Rio Grande do Norte. Mas e as universidades que não possuem esses arranjos produtivos próximos? Esse modelo pode funcionar para uma, mas não para outras.

Você citou a dimensão da UFRN no Rio Grande do Norte, e afirmou que o modelo funciona. Há, no entanto, uma hostilidade em setores da sociedade a respeito das universidades brasileiras. Fala-se, por exemplo, que a universidade é um espaço de balbúrdia, que serve principalmente para o consumo de drogas e, também, sobre uma suposta doutrinação nas salas de aula…

Eu entendo que há um pré-julgamento, e percebo de muitas pessoas que dizem isso que elas passam a acreditar em informações minúsculas que receberam de alguém, e não se preocupam em conhecer a Universidade e descobrir como ela de fato é. Isso nos preocupa muito. A Universidade é muito grande e complexa. Nós temos mais de 2 mil projetos de extensão e pesquisa em andamento.

Tem também, é claro, uma questão de comunicação institucional, que nós estamos trabalhando para aperfeiçoar. Esse é um diagnóstico de todas as instituições, que precisamos trabalhar muito com as mídias, graças à convergência tecnológica e midiática. Precisamos nos comunicar com a sociedade de outras formas, para que a nossa versão, que é a realidade do que acontece aqui, possa também chegar às pessoas.

Mas eu aproveito essa oportunidade que você fala sobre a questão da droga, que é um dos temas sobre os quais eu mais tenho sido perguntada em entrevistas, e que também circula muito nas redes sociais: eu tenho dito com muita tranquilidade que a Universidade tem todo um conjunto de procedimentos para combater, prevenir e, principalmente, cuidar quando nós identificamos algum aluno ou servidor com problemas relativos ao consumo de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Nós temos grupos que trabalham para apoiar essas pessoas, nos preocupamos com o encaminhamento médico, psicológico.

“Precisamos nos comunicar com a sociedade de outras formas”

Agora, eu te digo: por que nós podemos encontrar pessoas que usam drogas na Universidade? Porque elas são as mesmas pessoas que estão na família. A família também está, como nós, tentando sanar esse problema. E se a família não dá conta, a Universidade também tem esses problemas.

Nosso tempo está acabando, mas eu queria te perguntar uma última coisa: quais serão os próximos passos?

São mais de 40 anos dedicados à educação. Ontem eu tive que me despedir da Andifes, e foi um espaço também para pensar. Eu finalizei minha despedida lá dizendo que saio da reitoria, mas não sairei da luta em defesa da Universidade Federal, e da educação para o Brasil. Meu projeto é continuar colaborando. Trabalho hoje na Comissão Nacional para elaboração da Agenda 2030 do Desenvolvimento Sustentável, e há outros projetos na Universidade que me interessam. Mesmo que me aposente, e eu pretendo me aposentar pelo tempo que já tenho na Universidade, pretendo continuar colaborando e atuando, principalmente no momento que vivemos.

 

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