OPINIÃO

Quem é Moro, Fora Bolsonaro?

O agora ex-Ministro da Justiça Sérgio Moro deu entrevista na sexta-feira (24) deixando o cargo que ocupava com uma declaração firme de que Jair Bolsonaro praticou crimes de falsidade ideológica e obstrução de justiça, fundamentos que legitimam a responsabilização do presidente mediante impeachment.

Na entrevista, Moro afirmou que a assinatura da portaria de exoneração do então Delegado Geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, não é a dele e que recebia ligações de Bolsonaro de que precisava de pessoas na instituição que lhe repassassem relatórios da inteligência a fim de que monitorasse por conta própria as investigações que tramitam no país.

A sequência de notícias dos principais portais do país dá conta de que Moro articulou para continuar no cargo ao ameaçar deixar o ministério diante da exoneração de Valeixo. Ora, Moro prevaricou, é prevaricação se omitir diante de crimes cometidos pelo chefe. É que o ministro sabia das tentativas do presidente de obstruir a Justiça e mesmo assim se calava para só agora, humilhado no seu ego, resolver discursar.

É grave! Esse contexto de interferência direta e pessoal da presidência na polícia federal inevitavelmente nos faz lembrar o escândalo Watergate que levou o presidente norte-americano Richard Nixon a renunciar. É que, na época, ficou evidenciado que a Casa Branca monitorava investigações a fim de proteger aliados políticos e perseguir adversários do partido democrata estadunidense.

Pois bem, no contexto da eleição, Moro já negociava com Bolsonaro o cargo de Ministro da Justiça ao acordar informalmente o recebimento de pensão dos rendimentos de juiz. Moro julgou Lula e o condenou quando este liderava nas pesquisas de opinião para presidente da República em 2018, beneficiando justamente seu principal adversário que viria a nomeá-lo ministro.

Enquanto Ministro, Moro se limitava a dar declarações de que o principal sucesso de sua função teria sido a redução de homicídios no Brasil, porém essa tendência de redução é anterior a sua gestão e não há evidências que comprovem sua narrativa. O único projeto apresentado, o pacote anticrimes, foi detonado pelos principais especialistas da seara criminal.

Ainda na entrevista, o ex-ministro foi categórico em deixar claro que, no governo do PT, a presidenta Dilma não interferia nas investigações da polícia federal no âmbito da operação Lava jato, reforçando a autonomia dada à instituição e que também lhe foi prometida por Jair Bolsonaro, em vão.

Ocorre que Moro, quando precisou, agiu em causa própria ao tentar destruir material da Vaza Jato, um conjunto de provas que atestam a prática de crimes enquanto juiz. Em verdade, a disputa entre Moro e Bolsonaro não era republicana e sim para saber quem controlava a Polícia Federal, movidos por interesses pessoais.

A gestão de Moro não teve combate à corrupção, o ex-juiz usava o cargo de ministro para atuar como advogado da família de Bolsonaro ao protegê-la de acusações sérias sobre práticas de ilícitos cometidos por filhos do presidente. O juiz usou do cargo de ministro para jogar o peso da instituição sobre um porteiro em processo que investigava a associação da família do presidente com o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco.

Ao se colocar à disposição do país, Moro se lança como pré-candidato à presidência da república em 2022, mas na verdade era um ministro omisso e temerário:

* quanto aos procedimentos de associação da família de Bolsonaro às milícias.

* diante de declarações em defesa do AI-5 por autoridades políticas do país.

* quanto ao caixa dois do PSL nas eleições de 2018.

* sobre o relatório do COAF envolvendo movimentações financeiras ilícitas de Queiroz e o Gabinete do mandato do filho de Bolsonaro, o Deputado Federal Flávio Bolsonaro.

* em relação à demora na conclusão do inquérito criminal que trata do assassinato de Marielle Franco.

* CPI da Fake News e o envolvimento do filho de Bolsonaro, vereador Carlos Bolsonaro.

É por isso que as declarações de Moro são graves, os crimes cometidos por Jair Bolsonaro não devem ficar impunes, mas também é necessário lembrarmos que Moro não é solução, é um perigo à democracia do Brasil. Moro não pulou fora de um barco que está afundando, foi empurrado de um navio autoritário que ajudou a construir. Fora Bolsonaro, Moro não!

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Aline Juliete
Aline Juliete de Abreu é advogada, Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (UFRN), feminista negra e ativista pelos direitos humanos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *