DEMOCRACIA

Quem foi Virgílio Gomes da Silva, o potiguar retratado no filme “Marighella”

Por Herbert A. V. Santos*

O aclamado e polêmico filme “Marighella” (155 min./O2 Produções e Globo Filmes) dirigido por Wagner Moura estreou, oficialmente, nos cinemas nacionais dia 4 de novembro de 2021 – dia do assassinato de Carlos Marighella pela ditadura civil-militar brasileira, no ano de 1969. Talvez você já saiba dessa informação. Contudo, o longa também conta a história, de forma coadjuvante, de um potiguar: Virgílio Gomes da Silva.

Nascido em Sítio Novo, município de Santa Cruz – RN no ano de 1933, Virgílio era o mais velho de quatro irmãos criados apenas pela mãe. Aos 18 anos de idade – de modo semelhante à muitos nordestinos – migrou para a região Sudeste de carona num caminhão, chegando a passar fome em São Paulo, antes de se tornar operário na indústria química. Como trabalhador iniciara sua militância política e sindical, liderando várias greves (como a que conquistou o 13° salário para sua categoria). Em 1957, torna-se militante do então Partido Comunista do Brasil (PCB)[1].

Com o advento do golpe militar de 1964 e subsequente ditadura, rompe com o antigo “partidão”[2] por se opor à sua linha política (de aliança com a burguesia “progressista” nacional e de pacifismo. Sim! O PCB era contra a luta armada. Mesmo assim, o partido sofreu com a repressão política, tendo vários de seus dirigentes assassinados, entre eles, outro norte-rio-grandense: Luís Ignácio Maranhão Filho[3]). Em 1967, Virgílio então se junta à Carlos Marighela e a Joaquim Câmara Ferreira em torno da Ação Libertadora Nacional (ALN)[4]

Na clandestinidade, Virgílio passa a ser conhecido pelo codinome “Jonas”.

Virgílio Gomes da Silva / Fonte: Comissão Estadual da Verdade – SP

No filme (sem dar “spoilers”, uma vez que não podemos falar disso sobre um acontecimento histórico), o potiguar é interpretado pelo ator cearense Jorge Paz e é nomeado de “Jorge”, retratando suas origens e características nordestinas. O roteiro destaca sua relação com a família (era casado e pai de 4 filhos – apesar de mostrar apenas três no filme) e a forte cena de seu martírio nas câmaras de tortura pelos verdugos da ditadura, que entre cusparadas e pontapés exclamava: “Vocês estão matando um brasileiro, estão matando um patriota! ”.

No mesmo dia de sua morte, sua família (mulher e três de seus filhos) também foi detida, sua esposa (Ilda) permaneceu presa e incomunicável durante meses – inclusive sofreu torturas -, seus filhos foram encaminhados para o Juizado de Menores, incluído uma recém-nascida privada da amamentação materna. Após nove meses presa, Ilda é solta e reencontra seus filhos. Sem conseguir trabalho no Brasil, devido a perseguição política, vai morar em Cuba com a ajuda de amigos, onde reconstrói sua vida ao conseguir um novo emprego e formando seus quatro filhos nas universidades da ilha caribenha. Na década de 1990, a família volta ao Brasil.

Ilda da Silva e dois de seus filhos com Virgilio / Fonte: Comissão Estadual da Verdade – SP

O primeiro desaparecido político da ditadura militar

Virgílio foi considerado o primeiro desaparecido político da ditadura brasileira. No dia 29 de setembro de 1969, foi sequestrado e barbaramente torturado até sua morte (12 horas depois) nos porões da Operação Bandeirantes (OBAN), em São Paulo. Tinha 36 anos. Alguns militantes, presos dias depois – como foi o caso de Paulo de Tarso Venceslau -, afirmam que os torturadores mostravam marcas da massa encefálica de “Jonas”, impregnadas nas paredes da sala de tortura, como troféu de guerra; além de relatos à contrapelo de sua tortura – que julgo deveras pesado esmiuçar aqui.

Dias antes, “Jonas” fora o comandante militar da ação que sequestrou (ou melhor “raptou”[5]) o embaixador estadunidense – Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969 – junto a militantes do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8)[6], o qual foi trocado por 15 presos políticos e pela leitura de uma carta dos revolucionários em rede nacional.

“Jonas” também foi personagem, anos atrás, de outro filme de sucesso: “O que é isso companheiro?”, lançado no ano de 1997, dirigido por Bruno Barreto, o qual é baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira – jornalista, ex-deputado federal e militante político contra a ditadura (foi membro do MR-8). Essa produção foi alvo de inúmeras críticas (inclusive, ações judiciais contra o diretor do filme) pela forma caricata e grotesca que apresentou Virgílio (interpretado pelo ator Mateus Nachtergaele). No filme, o potiguar foi retratado como uma figura ríspida, fria e calculista – disposto a assassinar os próprios colegas que não cumprissem suas ordens. Essas críticas foram publicadas num livro intitulado “Versões e ficções: o sequestro da História” (1997), coletânea de artigos de figuras ilustres da política e da intelectualidade brasileira, como os renomados professores Daniel Aarão Reis Filho, Emir Sader e Marcelo Ridenti e os jornalistas Franklin Martins e Elio Gaspari.

Ator Jorge Paz com o diretor do filme Wagner Moura / Fonte: redes sociais do ator.

Os restos mortais de Virgílio Gomes nunca foram encontrados, sendo reconhecido oficialmente pelo estado brasileiro como anistiado político “post mortem” pela Comissão de Anistia no ano de 2005. Atualmente, seu nome homenageia o clube do Sindicato dos Químicos de São Paulo – no qual foi dirigente político. Virgílio também consta, portanto, na lista dos 434 mortos e desaparecidos políticos[7] durante a ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) no relatório da Comissão Nacional da Verdade – CNV (2014).

Por último, vale ressaltar que o filme é baseado na obra biográfica “Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo” (2012) de autoria do jornalista Mário Magalhaes, que levou nove anos entre pesquisas e produção da obra. Contando com 784 páginas, o livro recebeu diversos prêmios, dentre os quais o aclamado “Prêmio Jabuti” de melhor biografia no ano de 2013. Não obstante ao número de laudas, a biografia apresenta leitura fluida e eletrizante, além de ser riquíssima em detalhes (mais de mil referências de fontes). Fica a dica de leitura, além do filme, claro.

* Herbert A. V. Santos é professor da disciplina de História na rede pública estadual do Rio Grande do Norte, mestrando em Ensino de História (ProfHistória) – UFRN.

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Comissão Nacional da verdade: Relatório volume III – mortos e desaparecidos políticos. Brasília: CNV, 2014.

CAPISTRANO, Luciano Fábio Dantas. O Golpe Militar no Rio Grande do Norte e os Norte-Rio-Grandenses morto e desaparecidos: 1969-1973. Natal: Sebo Vermelho, 2010.

GABEIRA, Fernando. O que é isso companheiro?. São Paulo: Companhia das letras, 2009.

MAGALHAES, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. São Paulo: Companhia das letras, 2012.

REIS FILHO, et al. Versões e ficções: o sequestro da História. São Paulo: Fundação Perseu Abramo,1997.

[1] Em 1961, o partido almejando sua legalização perante o TSE, muda seu nome para Partido Comunista Brasileiro, mantendo a sigla PCB, uma vez que era acusado por seus opositores de ser uma Seção Brasileira do Partido Comunista da então União Soviética, algo proibido pela legislação eleitoral. Em 1962, após um racha no seu Comitê Central, é fundada outra agremiação comunista que reivindica o nome original do partido, intitulando-se Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

[2] Apelido pelo qual era chamado o PCB.

[3] Foi advogado, jornalista e professor. Durante sua atuação política foi membro do Comitê Central do PCB. Desaparecido desde 1974, segundo relatos de testemunhas foi preso, torturado e morto pela ditadura, seu corpo tendo sido incinerado numa usina de açúcar no interior do Rio de Janeiro. Era irmão do então prefeito de Natal durante o Golpe de 1964, Djalma Maranhão.

[4] Atenção para não se confundir com a ANL (Aliança Nacional Libertadora), que foi uma organização que aglutinava setores da esquerda brasileira, liderada pelo PCB, e que deflagrou o episódio conhecido como Intentona Comunista (ou Levante Comunista) em novembro de 1935.

[5] Aqui existe uma disputa no uso das palavras, os revolucionários usavam a palavra “rapto” ou “captura” em contrapartida à “sequestro”, uma vez que esse último era visto como algo praticado por criminosos comuns, vulgos “marginais”.

[6] Tem esse nome em homenagem a data de morte de Che Guevara, nas selvas bolivianas em 1967 – anos mais tarde se descobriu que “Che” foi executado, na verdade no dia seguinte – 9 de outubro.

[7] Esse número se referente, em sua maioria, à militantes políticos que tiveram seus nomes identificados. Todavia, esse número não reflete o total de mortos por ações da ditadura brasileira; para termos uma noção, só de mortos de povos nativos/indígenas a CNV estipulou cerca de 8 mil, sem falar do assassinato das populações camponesas e periféricas (vide o Esquadrão da Morte).

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