OPINIÃO

Quem não gosta de samba…

Quinta-feira sem samba. O Ministério Público, atendendo apelo de reclamações de moradores (será que foi isso mesmo?)  e por intermédio da Semurb, brecou o evento mais lúdico, popular, limpo, de paz e beleza que existe na Cidade Alta. Não sei, amigo Rafael Duarte, a quem interessa o fim desse samba. De um lado ou de outro, por burrice, incompetência ou se foi somente por conta dessa avalanche de absurdos que vivemos no país dos Bolsonaros, essa notícia só aumenta esse sentimento de impotência diante de tantos atos dantescos.

A não ser que o prefeito e o secretário de cultura tenham sido tomados pelo mal do cinismo, não consigo imaginar que tenha partido deles, e justo na semana que a Secretaria responsável tinha reparado o absurdo de não contemplar esse evento especial no projeto da Prefeitura Natal. Não, Rafa, definitivamente, estou propenso a crer que isso só pode ter sido coisa das “almas sebosas” que ainda vagueiam, infelizes, pelos nossos becos felizes.

Nestes tempos de loucura total, de vilões apocalípticos comandando o nosso país, não duvido que isso tenha sido coisa de bolsominions, de reacionários de uma direita que, agora, sob o governo do repulsivo psicopata, acha que pode tudo. Beleza, pureza, mistura de raças, amor sem amarras, sem preconceito de cor, raça, credo ou sexo, liberdade total, acreditem,  incomoda demais a esses homofóbicos doentios encalacrados em suas janelas morrendo de inveja porque não têm coragem de assumir sexualidades, e viver de maneira plena.

Bem que essas abomináveis criaturas poderiam sair de seus cubículos, onde, enjaulados, destilam o veneno da inveja contra que gosta de escutar o samba de perto, os meninos, e convidados, do grupo cantando Cartola, Paulinho da Viola, Benito, Gonzaguinha, Ataulfo, Noel, Martinho; o som destas músicas lindas  misturadas a sorrisos, declarações de amor e beijos estalados. Se libertem infelizes, venham sentir o cheiro de povo, de massa e fumacê, de bebida misturada com os perfumes das raças de todas as cores que tomam conta desse espaço lindo, pelo menos tomava, todas às quintas-feiras felizes que gelamos com esse  esse anúncio doentio!

Eu sei, eu sei, talvez vocês preferissem barracos, brigas, palavrões, xingamentos, agressões, talvez não incomodassem a vocês as sirenes da Polícia chegando para colocar “ordem” e morte, na coisa. O som incomoda? Mentira. O som atrapalha o sono das crianças? Nunca, muito pelo contrário, embala. Eu sei, eu sei, quase todas as quintas-feiras, por alguns segundos, você adoece ao ver, em coro, o seu mito ser tratado como merece por essa mesma gente feliz. Talvez, não, tenho certeza, esse é o único momento em que a alegria dá lugar, por alguns instantes, ao coro revoltado de uma parcela da população que, ao contrário de vocês, sabem bem o que está acontecendo no Brasil.

Como se não bastasse esse freio, esse balde de água fria na alegria, esse soco inglês na boa música ainda tem o preju econômico de uma cidade falida, de um país falido, tomado por desempregados que tinham neste dia sagrado a certeza do ganha pão do mês, se não, pelo menos o complemento para sobreviver, continuar lutando, acreditando que ainda  vale sim trabalhar. Quantos ambulantes,  empregos informais essa proibição aberração  jogou na lata do lixo sem uma explicação minimamente lógica. Quantos turistas perdemos? E a boa propaganda? E o ressurgimento de um bairro antes morto, será possível que nada disso conta?

Como se apaga uma página de cultura sem que se abra pelo menos uma sindicância, uma visitação para saber até que ponto, e  quem, de verdade, esse barulho está incomodando? Som que, sou testemunha, estou lá todas às quintas, nunca passou das dez horas. Quantas porradas mais vai levar a cultura, a alegria, a democracia nesse lado da América Latina que, definitivamente, voltou a ser “latrina”, curral, depósito de lixo, colônia de rabo arreganhado dos malditos Estados Unidos?

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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