OPINIÃO

Querem privatizar o entardecer de Ponta Negra

Por Pablo Leurquin* 

Ponta Negra é o principal cartão postal da cidade Natal. Mais do que isso, ela é uma das expressões da vida natalense, ponto de encontro de diversos grupos, de diversas gerações. Ir a essa praia, no final de semana, é rever figuras históricas vendendo comida na areia ou fazendo performances ao som de clássicos dos anos 1980. Durante o dia, estar em Ponta Negra é bronzear sob o sol escaldante, ficar na dúvida se come uma ginga com tapioca ou se pede uma porção de camarão, tomando sempre uma água de coco ou uma cervejinha. É do brilho do sol de Ponta Negra que vem a energia de parte significativa da cidade.

Ao entardecer, o movimento natural das luzes vai sendo acompanhado por outros significados – a praia se transforma em palco para a dança entre o Sol e a Lua, entre o dia e a noite. Temos o privilégio de ter o Morro do Careca como um dos protagonistas desse espetáculo. A luz do pôr do sol chega doce do Rio Pontegi para brincar com as cores salgadas do Atlântico, do seu céu e do seu mar. Ela chega para dizer aos amantes que é o momento das juras de amor. Ela chega também às trabalhadoras e aos trabalhadores, avisando que é o momento de descansar para recomeçar a semana. Esse misticismo do entardecer é a calmaria de parte significativa do povo natalense.

Não tem como deixar de dizer que Ponta Negra também expõe as contradições da nossa sociedade. Cada setor da praia é mais frequentado por determinado grupo e isso muda com o tempo. Certa época, o “descolado” era curtir o “quadradão” e tomar um guaraná em Chiquinho. Depois, passou a ser o pé do Morro. Assim, a praia vai expressando a sua dinâmica, ao longo dos anos, garantindo beleza e vibração que só quem já foi sabe do que estou falando.

Nasci e me criei em Natal, apesar de hoje morar muito longe desse mar. Mas, sempre que posso, vou visitar minha cidade. Lá, eu reencontro familiares, amigos e minha memória. Lá, eu me reencontro no brilho da manhã e no misticismo do entardecer de Ponta Negra, experiências fundamentais para eu me entender enquanto potiguar.

A proposta de verticalização que vem sendo defendida no processo de revisão do plano diretor significa, no fundo, privatizar o entardecer da cidade. Significa, portanto, nos privar do pôr do sol. Em nome do “progresso”, querem garantir que o entardecer seja um privilégio de quem pode morar em enormes prédios de luxo. É uma decisão política perversa e que contraria o cotidiano de natalenses. Muito mais grave: querem tomá-la em meio a uma pandemia, o que desafia completamente o processo de deliberação democrática e o sentido do pacto jurídico-político da nossa Constituição da República de 1988.

É nosso dever com o que queremos para o futuro de Natal, mas também com a nossa própria memória, apoiar os coletivos e os movimentos que se mobilizam para impedir que isso aconteça. Inclusive, convido todo mundo a seguir @salvenatal nas redes sociais. Ponta Negra e Black Point são nossas. Sejamos contra a privatização do entardecer das nossas praias e o sombreamento de nossas memórias!

* Pablo Leurquin nasceu em Natal (RN), é professor de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, doutor em Direito pela Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne e pela Universidade Federal de Minas Gerais.

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