OPINIÃO

Racismo à brasileira, o crime perfeito (1)

Caro leitor, cara leitora, no texto da semana passada eu citei o professor Kabengele Munanga e sua tese de que o racismo no Brasil é o “crime perfeito”. Um crime sem culpado, sem rosto, portanto difícil de combater, impossível de encontrar um responsável.

Então, contando com a paciência e a companhia de vocês, começo com essa semana uma reflexão sobre como esse “crime perfeito” foi construído ao longo de séculos, com a cooperação de todas as classes e instituições, suprimindo dos pretos o direito de existir, de expressar-se artisticamente, de ter uma família, em suma, de viver. Iniciemos pois pela “paixão nacional”. Não, não é falar mal do capitão. Pelo menos não agora. É o velho e bom ludopédio, o futebol!

Você, leitor ou leitora, conhece algum preto brasileiro mais famoso do que o Rei Pelé? Acho que não… Talvez mesmo no mundo, rivalizando quem sabe com um Barack Obama. Pois bem, sabiam que este mesmo Pelé teria dificuldades em vestir a camisa do Bauru, onde começou a carreira, ou a malha branca do Santos que o consagrou, se tivesse começado a jogar apenas três décadas antes?

E a razão vocês já sabem: racismo. O futebol brasileiro nasceu e cresceu nos clubes de moços bem-nascidos – seriam também homens de bem?, que logicamente não se “misturavam” com os pretos pobres, descendentes de pretos escravizados. Até de ficar nas arquibancadas para ver o jogo os pretos eram proibidos.

Quando começaram a participar dos campeonatos, foram proibidos. Já em 1907, o Bangu, clube nascido no subúrbio operário carioca com trabalhadores de uma fábrica de tecidos, deixou a Liga Metropolitana por ter jogadores pretos. A organização emitiu nota proibindo “pessoas de cor” de participar do campeonato e o Bangu, pioneiro na escalação de atletas pretos, só voltaria a jogar o certame quase uma década depois. Pouco depois, em 1923, o Vasco da Gama foi campeão com pretos em destaque no time. Terminou saindo também do campeonato, pois os organizadores da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos abriu um processo que excluiu 12 jogadores vascaínos, sem direito à defesa, por todos serem pretos analfabetos e pobres. O Vasco só voltaria à Liga em 1925, após jogar campeonatos menores, quando seus jogadores foram aceitos.

E desde então, o futebol não seguiu um percurso diferente. Mesmo com o sucesso de Pelé, Garrincha, Reinaldo – um dos poucos jogadores de futebol brasileiros a ter ligação com movimentos negros – e vários outros pretos, o futebol segue sendo um espaço que reflete as opressões sociais. Apenas em 2017, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol registrou 43 incidentes raciais nos estádios, campos e clubes brasileiros. Pelé nunca deu uma declaração que seja na sua vida para falar de racismo. Mesmo o “menino” Neymar, a estrela da companhia, já disse que nunca sofreu racismo porque não é preto, mesmo tendo sido atacado mais de uma vez em estádios europeus.

Então, meu caro leitor e minha cara leitora, assim como vários outros espaços da sociedade, quantos técnicos da elite do futebol brasileiro são pretos, por exemplo? Quantos presidentes, diretores do seu clube? Qual o último técnico da Seleção Brasileiro que era preto?

Semana que vem seguimos a discussão…

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