OPINIÃO

Racismo à brasileira, o crime perfeito (2)

Meu caro leitor, minha cara leitora, segundo texto de uma série que não sei ainda até onde vai visto que tem tanta coisa para falar desse crime brasileiro. Se você não leu o primeiro não vai atrapalhar em nada, mas se quiser também não vai fazer mal. Dá essa moral e clica aqui. Se você foi e voltou, ótimo. Se continua aqui, ótimo também porque a conversa hoje é sobre música! E racismo, obviamente. (AVISO: Esse texto contém muita ironia daqui pra frente).

Hoje todo mundo, menos quem já morreu, segue atrás do trio elétrico e balança o pezinho quando escuta um samba. Mas, para a surpresa de ninguém, nem sempre foi assim.

Dentro do projeto racista da sociedade brasileira, castrar qualquer aspecto de humanidade do preto era – e ainda é – o centro de tudo. E como fazer isso? Primeiro cortando qualquer possibilidade de conexão com a terra natal, batizando na Igreja Católica e dando um nome falso, separando da família e misturando com gente de todos os reinos que falavam línguas diferentes, impedindo a comunicação. Logo, o preto escravizado que atravessava o Atlântico, impedido de viver com os seus, praticar sua religião e sua cultura perderia sua raiz. Por muito tempo os escravagistas conseguiram. Mas como a história desse povo é resistir, tudo mudaria.

Com o fim da escravatura oficial, o “sistema” agiu diferente. Ao ver o soerguimento das manifestações do povo preto, fosse na música, em outros tipos de arte ou na religião, colocou o aparato estatal para trabalhar.

Enquanto nos Estados Unidos vigorava a proibição de tocar tambor – que levou os afro-americanos a criarem o blues, o jazz, o soul, o rock… -, aqui o batuque sobrevivia nas sombras, já que legalmente qualquer reunião nas ruas para tocar música dos pretos era considerado “vadiagem” e dava em cadeia sem pestanejar. Imagine só se os homens e mulheres de bem da recém nascida república brasileira iriam suportar um som estranho de tambores, com letras que ninguém entendia e ainda falavam de uma época que nem existiu, a tal da escravidão.

Assim o samba, em simbiose com o candomblé e fagocitando os ritmos dos salões da nobreza, nasceu e sobreviveu nas casas das “tias baianas” da Praça Onze, a Pequena África do Rio de Janeiro que foi o útero também das escolas de samba.

Na Bahia não foi diferente. Até “ontem” a polícia prendia e batia quem tivesse qualquer traço afro, como os cabelos trançados. O cantor Marcionílio, em seu depoimento no documentário Axé – Canto do povo de um lugar (ASSISTAM!), relata que as prisões eram apenas para humilhar e cortar os cabelos dos pretos, que eram chamados de maconheiros.

Um dos blocos afro mais antigos, o Ilê Aiyê, surgiu nos meados da década de 1970, no auge da ditadura militar (E SIM, FOI GOLPE). Seu nome seria Poder Negro, inspirado no movimento black power americano. As versões variam, entre o medo da repressão e uma proibição explícita da Censura, mas o fato é que o nome foi barrado. Por outras várias dificuldades passaram também blocos como o Olodum, o Muzenza e outros que fizeram a base do que hoje o mundo conhece como axé music. Ou só axé mesmo, que é mais bonito.

Então, minhas caras leitoras e meus caros leitores, toda essa história maravilhosa de resistência que constitui a formação de um povo, a defesa de uma ancestralidade e, em certo momento, um ideal de país.

E como não poderia ser diferente, as relações sociais não poderiam ser diferentes. Vamos pegar primeiro o samba. As tias baianas, o nascimento das escolas de samba, Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Ismael Silva… Toda essa base que deu face às manifestações milenares, para quê? Virar “música nacional” depois de ser referenciada pelo governo de Getúlio Vargas e seu Departamento de Imprensa e Propaganda e pelas mãos e vozes de gente branca como Carmen Miranda, o maestro Villa-Lobos, Ary Barroso. Pouco depois surge a bossa nova com Jobim, Vinícius, Nara Leão, desaguando até em Elis. Algum leitor ou leitora arrisca a razão do cetro ter trocado de mãos tão fácil?

Pulemos para os anos 80. Surgem gênios como o Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila. Pretos tirados do gueto da Zona Norte carioca, do Cacique de Ramos, adivinhem só, por Beth Carvalho, a madrinha de todos eles, que não bem aceita no círculo da bossa nova descobriu uma mina de ouro e diamante que ainda não secou.

Vejam bem, não estou aqui falando mal de todos os brancos que fizeram essa história no samba e nos seus filhos e filhas musicais. Todos cumpriram um papel essencial, cooperaram com a manutenção e até mesmo resgate de uma parte da cultura preta. Mas você não precisa concordar com tudo que expus aqui, mas pelo menos veja que tem alguma coisa para desconfiar, não é mesmo?

Para colocar mais uma pulga atrás da orelha, vamos dar uma olhadinha no axé – e juro que termino por aqui. Você já ouviu falar em Antônio Luís Alves de Souza? Não, né? E Neguinho do Samba, talvez? Pois esse homem preto baiano é um dos principais responsáveis pela base do que você se acostumou a ouvir como axé. Um homem preto que não aceitava deixar seu sangue na pele do repique, porque “a época da escravidão acabou e não vou derramar sangue pra branco ficar curtindo”. Neguinho era o regente da bateria do Olodum que levou ao mundo “Faraó” e lançou o samba-reggae em 1987, pela voz de Margareth Menezes. Como já disse várias vezes e repito aqui: se Neguinho tivesse nascido no Mississippi todo mundo veria um busto seu em cada esquina.

Não vou citar nomes, mas para e pensa quem são as estrelas do axé desde sempre, que ainda estão por aí (com uma exceção ou outra, para confirmar a regra, até porque a força da resistência nunca morre).

P.S.: 80 tiros. Pelas costas, na covardia Uma família em desespero. Um filho agora sem pai. Não há nada mais o que falar. Quem não vê problema é parte do problema.

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