CIDADANIA

Racismo religioso: crime contra criança de 11 anos em Pau dos Ferros gera acusações falsas a religiões de matriz africana

Uma menina foi encontrada morta em Pau dos Ferros, no Alto Oeste potiguar, e um casal foi preso acusados do crime. Na delegação, os dois assumiram de ter matado a criança e alegaram que a ação faria parte de um ritual, no qual precisariam beber o sangue da vítima. A versão foi divulgada pelas autoridades que investigam o caso e repercutida na imprensa. Agora, organizações de religiões de matriz afro-ameríndia repudiam a falsa associação do ato a práticas sagradas, e temem episódios de intolerância.

Raissa Cristina, de 11 anos, desapareceu no dia 26 de maio e foi encontrada morta, três dias depois, com as mãos amarradas, dentro de uma caixa dentro de uma casa. A residência servia de moradia para um casal, um rapaz de 29 anos e um adolescente de 17. Os dois se tornaram suspeitos do caso e foram presos, já em Natal, no dia 31 do mesmo mês. A Polícia Civil divulgou imagens da criança caminhado com os dois na noite do desaparecimento.

Na delegacia, os jovens assumiram a autoria do crime, disseram ter atraído a menina com promessa de presenteá-la com roupas novas e alegaram que a ideia era realizar um ritual em que o homem beberia do sangue dela para se livrar do vício em drogas.

Divulgada a versão pela imprensa, entidades representantes da Jurema, Umbanda e Candomblé passaram a se preocupar com a falsa associação do crime a práticas sagradas religiosas.

Uma casa de santo da cidade, de um terreiro da cidade pediu ajuda ao Grupo de Articulação de Matriz Afro-Ameríndia (Gama-RN), explica a representante da organização Flaviana Maia (Flavinha d’Oxum).

“A mãe de Santo que nos procurou foi hostilizada pela população que estava bem exaltada. o terreiro dela fica localizado no mesmo bairro onde ocorreu o crime. Ficamos temerosos pela segurança dos Terreiros e dos sacerdotes /filhos”, ressalta. Após o pedido, tanto a Gama como o Fórum Inter-Religioso do RN emitiram notas aos atos criminosos que são associados aos povos de Terreiros e suas práticas religiosas.

“A perseguição, demonização, discriminação às religiões de matrizes africanas e ameríndias é secular. Ao longo dos tempos, seus símbolos e templos sagrados foram e são violados, seus adeptos perseguidos e rechaçados publicamente. Com a modernidade, as perseguições invadiram as mídias e os meios de comunicação”, repudia o Fórum Inter-Religioso do RN, em documento emitido em 4 de junho.

 

Crianças são sagradas nos Terreiros e não há sacrifícios humanos

Em 2019, religiões de matriz africana ganharam na justiça o direito de praticar rituais sagrados com animais por decisão unânime do STF (Superior Tribunal Federal). Isso ocorre pelo entendimento de os sacro-ofícios fazem parte da tradição da matricidade africana. Além disso, as práticas religiosas estão associadas, explica Flaviana, “aos cuidados com a pessoa humana e garantia da soberania alimentar dos povos tradicionais de matriz africana”.

Nos rituais de terreiros, apenas aves e animais quadrúpedes específicos, como cabras, são imolados. Uma parte do sacrifício é oferendado ao sagrado enquanto o restante é utilizado na alimentação da comunidade.

“Nossos sacrifícios garantem a segurança alimentar do nosso povo e a da comunidade do entorno”, clarifica Maia.

Não há nenhuma prática que envolva sacrifício humano, nem a beberagem de sangue de pessoas, como foi dito pelo casal preso, indica Flaviana. Nos Terreiros, ela afirma, crianças são sagradas e se preza pela dignidade humana.

As duas pessoas que assumiram o crime não são reconhecidas como religiosas na cidade, explica a representante da Gama.

“Tentamos assegurar nossa liberdade religiosa assim como a garantia dos nossos rituais, e muitas vezes enfrentamos a força da Intolerância e do capitalismo. Onde ninguém questiona aos frigoríficos de que forma matam os animais, sem dó e piedade”, reclama.

Os terreiros, além de espaços religiosos, são locais socioassistenciais, indica Flaviana. Neles, há além da prática espiritual, o cuidado com a saúde popular, mental e a alimentação.

Em maio, a governadora Fátima Bezerra (PT) sancionou a Lei Chiquinha Benzedeira (Lei nº 10.892) que reconhece como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio Grande do Norte, “os saberes, os conhecimentos e as práticas tradicionais de saúde popular e cura religiosa das benzedeiras”. Foto: Cedida pelo Fórum Estadual Das Comunidades De Terreiros Do RN

Existem pelo menos quatro Terreiros em Pau dos Ferros, dentre os 323 espalhados por todo o estado potiguar. Mais de 15 mil habitantes do Rio Grande do Norte são adeptos as religiões afro-ameríndia, indica a organização Gama.

A Jurema é o segmento mais tradicional no interior do RN, já que o estado é um dos berços da religião, junto com Paraíba, Pernambuco e Ceará, aponta Flaviana. Essa é considerada a “religião do povo nordestino, dos sertanejos”, conta.

A prática traz heranças indígenas, com o uso do catimbó (ato de soltar fumaça dos cachimbos), influência africana, com a presença de entidades de luz como os pretos e pretas velhas, além da reza católica, expressas por rezadeiras. A crença se populariza ainda com a medicina popular e uso de ramos, garrafadas e lambedores.

“Até hoje nos bairros onde as políticas públicas não chegam, é nos Terreiros que o povo se cura e come”, sintetiza.

As organizações agora realizam monitoramento social para acompanhar possíveis casos de intolerância e contam com o apoio da Secretaria Estadual de Segurança Pública para conter possíveis situações hostis.

 


Com informações do Portal G1.

 

 

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